Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas tu podes treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.
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sacharuk escreve em inspiraturas.org

2017-01-07

Cruzes e Pedras

cruzes e pedras

trocando em miúdos
nesses tempos
quintanamente bicudos
se esmoreceu tanta luz
também sol raiou entre trevas

quem teve fome de medo
carregou muita cruz
quem teve medo de fome
carregou muita pedra

e todo lamento
largado ao vento
será sempre a imagem sem nome
de um clichê nada nobre

se viver o suor de labor
com a lágrima da dor
se fará uma rima pobre

sacharuk

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abóbora menina

fotografia de Ana Clara Sacharuk

abóbora menina

desconheço preceitos
de agronomia
mas insisto jogar sementes
na terra do meu quintal

minha colheita de pretextos
para nutrir poesia

e colho pimentões e tomates
logo após o natal

não entendo alguns conceitos
me quedam as filosofias

essas coisas remetem à cela
que encarcera ao que aprende
e também ao que ensina

e eu... eu sequer sabia
que de uma flor esquisita amarela
brotava fruto de abóbora menina

sacharuk

2017-01-05

vê aquele vivente

vê aquele vivente

estás vendo lá?
aquele vivente
junto ao carvalho?

sentado ao chão
livro à mão
medita sentidos da vida
mendica flashes da morte

se aquele vivente der sorte
debaixo da copa crescida
sua mente se abre num rasgo
daqueles que traz estragos
no núcleo da consciência

vai indagar filosofia
ressignificar a ciência
proclamar poesia
 
tu o vês sentado
tal inspiração
à luz da meditação

sombras do carvalho
solo molhado de orvalho
o vivente sopra sementes
de perguntas tantas

sacharuk

Yerres , camille daurelle sob um carvalho, 1871 por Gustave Caillebotte (1848-1894, France)

2017-01-04

ao crepúsculo da tua vontade

ao crepúsculo da tua vontade

ao crepúsculo 
da tua vontade
posso ser engrenagem
encaixe insistente
coroa dentada
amor mecânico
só sacanagem

posso também
desnudar-te as fragilidades
causar-te abalo sísmico
da crosta latejante
até a profundidade
sarar tua nuca arranhada
no bálsamo de um beijo

posso ainda provar-te
que um ou dois dedos 
podem rasgar superfícies
romper as comportas
das marés

e minha herética fé
relega ao simulacro
dissolve em arremedo
tudo o que pode ser fraco
tudo o que pode dar medo

e posso bem mais
mas isso é segredo

sacharuk



navegantes do escuro

navegantes do escuro

pairam estranhezas
ofuscantes tal lampião
navegantes do escuro

voam soturnas
até quando
despencarem manhãs
secarem ao sol
fluídos do amor
no velho lençol

sobrevoam estranhezas
sobre as cabeças
borboletas falenas
mais de cem
as conheces tão bem

e aos nossos pés
navegam desengonçadas
difusas crenças

esperamos tanto
pela noite alucinada
para dançar e dançar
divertir pirilampos

e tu danças
eu canto
alto
no céu
por ti

se aqui
ninguém entende
o que sentes
ninguém pensa
o que sinto

mas sabemos colorir
as amarguras impressas
nas paredes sem cor

e tu cantas
eu danço
alto
no céu
por ti

se aqui
não há lugar
para andar sem destino

sacharuk