Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Cruzes e Pedras

Cruzes e Pedras

Trocando em miúdos
nesses tempos
quintanamente bicudos
se esmoreceu tanta luz
também sol raiou entre trevas

quem teve fome de medo
carregou muita cruz

quem teve medo de fome
carregou muita pedra

e todo lamento
largado ao vento
será sempre a imagem sem nome
de um clichê nada nobre

se viver o suor de labor
com a lágrima da dor
se fará uma rima pobre

wasil sacharuk

IMG_20161202_085528008

Abóbora menina

fotografia de Ana Clara Sacharuk

Abóbora menina

desconheço preceitos
de agronomia
mas insisto jogar sementes
na terra do meu quintal

minha colheita de pretextos
para nutrir poesia

e colho pimentões e tomates
logo após o natal

não entendo alguns conceitos
me quedam as filosofias

essas coisas remetem à cela
que encarcera ao que aprende
e também ao que ensina

e eu... eu sequer sabia
que de uma flor esquisita amarela
brotava fruto de abóbora menina

wasil sacharuk

Veja aquele vivente

Veja aquele vivente

Estás vendo lá? 
aquele vivente
junto ao carvalho?

Tu o vês sentado ao chão
livro na mão
meditando o sentido da vida
mendicando flashes de morte

se aquele vivente der sorte
debaixo da copa crescida
sua mente se abre num rasgo
daqueles que faz estrago
no núcleo da consciência

vai indagar filosofia
ressignificar a ciência
e proclamar poesia

tu o vês sentado
cérebro na mão
morrendo mendigo
vivendo  da meditação

lá, à sombra do carvalho
ao solo molhado de orvalho
sopra sementes
de perguntas tantas

wasil sacharuk

Yerres , camille daurelle sob um carvalho, 1871 por Gustave Caillebotte (1848-1894, France)

Ao crepúsculo da tua vontade

Ao crepúsculo da tua vontade

Ao crepúsculo 
da tua vontade
posso ser engrenagem
encaixe insistente
coroa dentada
amor mecânico
só sacanagem

posso também
desnudar-te as fragilidades
causar-te abalo sísmico
da crosta latejante
até a profundidade
sarar tua nuca arranhada
no bálsamo de um beijo

posso ainda provar-te
que um ou dois dedos 
podem rasgar superfícies
romper as comportas
das marés

e minha herética fé
relega ao simulacro
dissolve em arremedo
tudo o que pode ser fraco
tudo o que pode dar medo

e posso bem mais
mas isso é segredo

wasil sacharuk




Navegantes do escuro

15260197._SX540_

Navegantes do escuro

pairam estranhezas
ofuscantes tal lampião
navegantes do escuro

voam soturnas
até quando
despencarem manhãs
secarem ao sol
fluídos do amor
no velho lençol

sobrevoam estranhezas
sobre as cabeças
borboletas falenas
mais de cem
as conheces tão bem

e aos nossos pés
navegam desengonçadas
difusas crenças

esperamos tanto
pela noite alucinada
para dançar e dançar
divertir pirilampos

e tu danças
eu canto
alto
no céu
por ti

se aqui
ninguém entende
o que sentes
ninguém pensa
o que sinto

mas sabemos colorir
as amarguras impressas
nas paredes sem cor

e tu cantas
eu danço
alto
no céu
por ti

se aqui
não há lugar
para andar sem destino.

wasil sacharuk

sacharuk tem o apoio de INSPIRATURAS escrita criativa

último arcano

último arcano mais uma dose de fé uma dose de fel dose de céu de ré de dó dose de sorte uma dose de morte mais uma dose de...