não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

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poesia primeira

poesia primeira

poesia primeira
parafraseia pássaros
produz palavras pueris
por profissão

prodigioso poeta
pálpebras pesadas
pretas pintadas
piscam por pão
pedacinhos pontuais

poesia primeira
pode pairar prosaica
percorrer parágrafos
paradoxais

poisa plena
pura perplexidade
provê paixão por propósito
plenitude por pertencer

sacharuk

Painting by Ericamaxine Price

O eu outro



O eu outro

Vê o espelho à tua frente. É mágico! Esbelto é o reflexo ao olhar traidor. Quebra-o!

sacharuk

quid pro quo

quid pro quo

cruzou águas imensas
deitada na sua canoa
desenhou com o dedo
mil promessas
riscadas nas nuvens

havia vazio em seu meio
uma vertigem
certa dor um receio
não era medo
horizonte quebrado
esse vazio tinha nome
tinha cor tinha cheiro
abria sombras aladas
para voar com as garças

ela viu de tão perto
que o nada é o nada
e que todo o nada
esvazia repleto
transborda tão cheio
de vazios incompletos

sacharuk




teu toque tua voz

teu toque tua voz

     sou maluco no jeito
que acarinhas minha face
fotografia de enlaces
estéticos efeitos

sei o quanto bem sabes
   meus olhos te falam
       o escuro inunda
           podes ouvir
   o que os sonhos dizem

sinto silêncio em mim
          se me olhas
          tal olhas agora

vasculho vestígios
         distâncias afora
 cheiro de mato
      as linhas doces
      das tuas  mãos
 falam mais que a voz

sacharuk


versos de néctar

versos de néctar

corpo sim
             de dentro para fora
tal orvalho na aurora
sol em luto
amor em palavra
escorre pelos cantos
                dos muros

verte umidade
quando acontece
o líquido fel                   
          desce do céu
derrete os metais

lindo sim
a pegada e a gana
os sussurros fatais
      o assalto das vontades
        desintegração dos poros

e os corpos
               envoltos pela cintura
bailarinas loucas
     serpentinas impuras
              de livre poesia

a língua pronuncia
     versos de néctar
         plenitudes na boca

sacharuk





a mediocridade da obediência

a mediocridade da obediência

o pastor abençoado
cultiva estereótipos
do mundo das criaturas
de boa vontade
onde as coisas  são puras
não admite a diversidade

o pastor abençoado
não foi transformado
pela cultura
sequer convencido
pela ciência
segue os preceitos
da sua crença
dorme decorando
as escrituras
na mediocridade
da obediência

sacharuk

o desejo e a fome

o desejo e a fome

alucina-me no ardor
desse odor tão sublime
absolve minha coragem
e envolve minha face
na profundeza das sombras

quando a bifurcada língua
irrompe e logo blasfema
e como ágil serpente
inocula no teu sexo

entre as coxas me perco
acho que  nunca me acho
onde o desejo é presente
a fome nunca descansa

sacharuk


anel de tucum

anel de tucum

confesso cinzentos medos
ensino-te segredos
do verde chimarrão
do amanhecer ao sereno
e o sol amarelo
a queimar nossos vícios

a noite azul fria
aquece nossa estalagem
quando envolves meu dedo
reluzindo tua graça
na singela inscrição
delicado anel de tucum
para selar compromisso

perpetuo meu nome
no centro da morfologia
que demarca tua nuvem
e depois do café
ainda regas as flores
do meu róseo jardim

e por fim
na lagoa da poesia
eu colho as cores
que te sinto

sacharuk


androfagia de amor

androfagia de amor

isento do egoísmo
morder-se-ia o louco
no antebraço das impossibilidades
o rasgo sangrento
naco de carne
doce exorcismo
de amor violento

sacharuk

nada novo

nada novo

o antigo falou que o novo
tem nada de novo
só muda o escopo do roubo
o antigo enchia a pança
prometia pujança
e só dava esperança
e o novo
provou que tem nada
de novo
só muda o escopo do roubo
junta milícia e militância
pra tomar pirulito de criança

sacharuk


versos de viés enfadonho

versos de viés enfadonho

pelos dias esquisitonhos
perpassa grande alegrura
de sabonetar-te inteira
baunilha e laranjeira

liberto das lagrimaduras
viajante eu parto no sonho
escrevente de versos bisonhos
na tua púbis de capinadura

quando percorro tuas cadeiras
subo dos pés até as cumeeiras
a poetar pela tua textura
alguns versos de viés enfadonho

abraço aos desejos medonhos
mergulhados nas tuas farturas
a brincar nas delícias faceiras
balbuciantes palavras rameiras

e quando a coisa fica mais dura
quer entrar e sair sem estrondo
nos recantos de encantos redondos
a jorrar os fluidos da cura

sacharuk

poema dos erros

poema dos erros meus olhos desenham letras do teu nome poesia de amor minha língua prova o gosto da tua boca poesia de amor portanto escrevi para ti o poema dos erros falei dos degredos do desvelo também sobre naufrágios no dia que leres ouvirás minha voz até posso te ver lendo meus versos com meu sorriso favorito tão divertido teu rosto iluminado até posso te ouvir dizendo meus versos num tom desconexo depois indagando o que resta a nós dois? tu podes saber eu posso sentir oh ohoh ohoh sinto o toque, linda ouço a tua voz oh ohoh ohoh sinto o toque, linda ouço a tua voz sacharuk



milagre

milagre

os paradigmas estão velhos
só conduzem ao nada
trepamos em tantas escadas
não alcançamos o mistério

se há uma terra prometida
é a evolução traduzida em ciência
e o grande milagre é a experiência
de andar sobre a bosta nessa vida

sacharuk


da nova beleza

da nova beleza

perderam a beleza das canções
nos clichês e gritos aparvalhados
dançarinas sacodem os melões
e cantores aflitos tresloucados

esqueceram a beleza da poesia
diluída em signos despirocados
que indistinguem amargura e azia
entre motes sacais e martelados

desprezaram a beleza da oração
no templo que vende absolvição
forjam milagres por uns trocados

esconderam a beleza da empatia
o certo agora é saber da quantia
que rende um crânio esfacelado

sacharuk


a beleza é o reflexo da alma - acróstico

a beleza é o reflexo da alma - acróstico

Ah, ninguém tem certeza

Beleza põe mesa
E não põe
Leva na cara a impureza
E consome
Zomba da realeza
Ao espelho nega e some

E quando pega de assalto

O preço é mais alto

Ri da imagem no espelho
Enaltece a ironia
Fala do que é desparelho
Louva a psicologia
Evita os olhos vermelhos
X-raio na luz do dia
Oculta a poesia

Descobrimos no ato
A lógica do inexato

Alma que traz alegria
Liberdade e felicidade
Manufatura da iguaria
A beleza de verdade

sacharuk


sabedoria secular

sabedoria secular

nada tão obscuro
tal abismo profundo
nasce na pupila dos olhos
dos nossos cus

disse um velho
acerca do ego

sacharuk


veneno

veneno

a 🙏crença🙏
é 🏴‍☠️veneno🐉 da vida
a crença te ensina
a criar desavença
a crença se serve
tua casa e comida
a crença te 💰engana
se te vende esperança
paranoia💊 insana🔧
na tua cabeça🥁🐮

sacharuk


poema reto

poema reto

tragicômico 
congresso nacional 
questiona condutas distintas

a indigência da raça
desse animal
reside na inabilidade 
de ver o próprio cu

todo termo
que irrompe do reto
deve ser grafado correto
não como cu de xingamento
mas como cu certo
sem acento

usa um dedo
para fechar a conexão
fazer terra
e a intercomunicação 
entre os três olhos
será o ensejo
do apocalipse

eis que um profeta
revelou o segredo
nos anais dos arcanos
'a humanidade 
perecerá pelo anus'

sacharuk


pífano perdido

pífano perdido

pronto! pachorra paz
perdia ponto
perdia prumo

perseguia prudência
pedia providência
pedia perdão
pelos pecados

precisava paciência
passos perseverantes
parcimônia planejada
para partir paradigmas
para provar perspectivas

perspicaz
prescindia pensamentos
profundamente peculiares
particularidades pueris
palavras pescadas
para parir poesia

possuia
plenas prerrogativas
planejava propósitos
perseguia prodígios
porquanto procrastinava
produções pragmáticas

pretendia persuadir
provar pleno poder
preconizando premissas
pronunciando paradoxos

por pura pressa
produzia pensamentos
promíscuos
palavras portavam
perfídias perdidas

pronunciava
preditivas prosas
pareciam presságios
perversos
pessimistas
perplexos

pedia pela paz
pedido porém
pairava pretérito
ponderava preceitos
parecia pífano perdido
propagando pífios prelúdios

sacharuk