não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

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seis minutos

seis minutos

a mão espalmada
tem a linha que marca
a passagem
que durou seis minutos
para seiscentos
e sessenta e seis
diamantes brutos
Incrustados poemas
enfeitiçados

sacharuk


colcha de margaridas

colcha de margaridas

teu umbigo
é um ótimo abrigo
para querer ir morar
e teus mamilos
são equidistantes
aos teus olhos de mar
que acusam marés
desinteressadas

teus cabelos
quase assanhados
confessam os cachos
quedam florindo
a sorrir divertidos

eu te desadorno
eu te desenfeito
desrascunho
e desescrevo
cada pedaço de ti

e tu aí
tão linda
nudez em relevo
sobre o plano
da velha colcha
de margaridas

sacharuk


magia do campo

magia do campo

sob pena de castigo
pago o preço da sina
seja ele qual for
trago raridades botânicas
na palma da minha mão

quando os jovens contarem
histórias do nosso amor
dirão sobre o campo de orquídeas
que fiz florescer em teu meio

por séculos e séculos
farão morada nas estrelas
alcançarão o teu céu
germinarão tuas vontades

e eu
banhado de aromas
serei gentil jardineiro

sacharuk


âmago

âmago

sou tua presa
demônio
soltaste teu hálito vermelho
na minha boca
contra minhas vontades
não tive defesa
e da textura que me veste
ao âmago das incorporeidades
a tudo fizeste teu
tudo!
meu útero é teu!

sacharuk


fagulhas de chuva

fagulhas de chuva

trago-te
aos meus pulmões
sopro espirais
de inspiração
enquanto danças
fagulhas de chuva
sobem sobem sobem

sacharuk


quisera eu ser chuva

quem dera eu ser chuva

ela faz cócegas
rola comigo
no gramado do jardim

beijo as pontas
dos seus dedos finos
mergulho suas cores
no meu desatino
ela se derrama
em amores
e me molha

a mim ela é chuva
quisera eu ser chuva
quisera
quisera

sacharuk


meu desassossego

 meu desassossego

 acorda agora menina
 derrama a cachoeira
 dos cabelos teus
alavanca as ancas
depois vem por cima
e engole meus beijos

faz a exótica dança
que revela o trejeito
que atrai e me lança
sobre teus peitos
destrói a fronteira
do meu desassossego

agora senta menina
naquela cadeira
abocanho-te a nuca
mosdisco o queixo
minha verve aguda
na ponta dos dedos

tua nudez é o segredo
da minha ancoragem
 te faço em minha pele 
 em cor e em pelos
és em mim tatuagem

sacharuk


o belo é simples

o belo é simples

anel do interesse
de puro dinheiro
e pedras divinas
no teu dedo de musa
promessa de casamento
do ofício das artes
com a exaltação
de desvendar-te

amor que insinua
do qual não preciso
pétalas meninas
às vontades cruas

tuas mãos ofertam flores
aos curiosos colibris
enquanto choro os ais
escreves meu nome
na tua árvore

e os esquilos têm fome
pedem amor e amendoins
pois o belo é simples
tal colher maçãs
e poesia no parque
das perspectivas existenciais

sacharuk






eu não pensei

eu não pensei

ouve
ouve agora
precisamos declamar
poemas estranhos

assim saberemos
porque o céu
fica azul

folheia
como um livro
folheia
percorre alguns versos
nos teus dedos finos

mentiras no espelho
viraram cacos
imagens distorcidas
caras refletidas

ficamos velhos
náufragos no tempo
eu não pensei que era assim
eu não pensei

eu não pensei que era assim
eu não pensei

daqui é distante
até as dunas de areia
mas podemos tentar
sempre háverá nova chance

ficamos velhos
náufragos no tempo
eu não pensei que era assim
eu não pensei

eu não pensei que era assim
eu não pensei

ouve
ouve agora

eu não pensei que era assim

sacharuk


calendário

calendário

ela ensina sonhos
percorre meus cabelos
nos seus finos dedos
acolhe ao umbigo
minha cabeça
histórias inteiras
sob bancos de areia

ela imprime mundos
nos olhos redondos
semeia chuva torrencial
colhe a flor casual
e beija as mariposas
no jardim primaveril

poisam pássaros
no calendário tatuado
na sua perna
e ela tão linda
tanto quanto louca
sorri ainda
pelo canto da boca

sacharuk




de tudo o que te pertence

de tudo o que te pertence

o vento minuano
pronunciou teu nome
soprou leveza em minha face
tua voz contou verdades
minha voz cantou segredos

o vento minuano
ouviu os apelos
embalados no tempo e no espaço
tua mão abriu verdades
minha mão abriu segredos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

o vento minuano
cantou-te em versos
por inspiração e vaidade
tua voz contou vontades
minha voz cantou meus medos

o vento minuano
verteu-te da pele
banhado na luz intensa
teu ventre jorrou vontades
meu ventre vingou meus medos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

sacharuk


sobre a cama

sobre a cama

no dia em que eu acordar
coberto de águas azuis
com teu olhar diamante
presente
na fronte

jogarás sobre a cama
a minha fotografia

se eu acordar algum dia
e não enredar tuas tramas
meus olhos fechados
não verão
nenhuma mágoa

eu vou sentir as águas
lavarem enganos
deixarei ao oceano
as minhas amarras

eu vou pedir às águas
perdão pelos danos
deixarei ao oceano
o meu intento

no dia em que eu acordar
e não sentir o vento
a lua, o sol, o chão
choverá um lamento
numa canção
que te chama

e jogarás sobre a cama
a minha poesia

eu vou sentir as águas
lavarem enganos
deixarei ao oceano
as minhas amarras

eu vou pedir às águas
perdão pelos danos
deixarei ao oceano
o meu intento

sacharuk



sabes...

sabes...

gosto de ti
deliciosa
e toda
das formas que és

trazes a rosa
para o vento beijar

te gosto assim
quando te pões a soprar
despencar pétalas
em verso e em prosa
sobre as águas do mar

donde chegas sereia
a rabiscar movimentos
com raios de lua cheia

e tu danças
serpenteias
venenosa
depois cantas
fazes das letras
doces cirandas
para rodar
em volta da casa

tua canção desanda
as minhas tristezas
se me mandas deitar
ao teu colo

enquanto me encantas
com indecorosas
delicadezas

sacharuk



a razão dessa rima pobre


a razão dessa rima pobre

renasci viramundo
no entorno estelar
e escolhi orbitar
pelo teu universo

rabisquei poucos versos
os rasguei tantas vezes

vaguei pelas ruas
a buscar a razão
que faz a rima pobre
da inevitável junção
de lua com nua
uma coisa assim
tão crua

há coisas que a noite insinua
e dessa rima eu gosto

e tu
não vais chorar
se eu
fechar meus olhos

quando eu
fechar meus olhos

há flores no inverno
que ainda brotam
pelos sons
pelos versos
de uma canção melosa

e quando o sol se pôr
espargir pétalas
da tua rosa
sobre as pedras

e tu
não vais chorar
se eu
fechar meus olhos

quando eu
fechar meus olhos

sacharuk



teu jardim

teu jardim

vasculho teu meio
até o buraco
donde extraio coisas
para te refletir

te vejo de soslaio
teu lado mais fraco
de nuanças obtusas

ando no teu jardim
farejo odores
e cores singulares
sei do cheiro das flores
e da alma dos espinhos

teus cabelos crescem
misturados aos verdes
fazem rodamoinhos

gosto sim
do teu pequeno jardim
donde vertem
partículas de átomos

sacharuk




dos dias imprecisos



dos dias imprecisos

Dei as costas para o dia para que a luz ainda não tocasse meus olhos cansados. Então, me abraçaste e sentiste nas mãos o calor do sol tatuado nas minhas costelas.

Apenas dançaste, sutilmente embalada pelo vento que batia.

Nadaste nos próprios sonhos quando me ouviste falar baixinho. E meu brinco tilintou nos teus dentes que sorriam divertidos, perfazendo longínquos sinos metálicos.

Apenas bailarinaste, tão célebre quanto louca, sobre o meu umbigo.

Meus dedos frios curaram tuas dores. Beijaste-os com carinho e leste na minha testa as tantas histórias dos dias imprecisos.

Assim aprendi a chover no tempo dos amores líquidos.

sacharuk


amor meu


amor meu
puxa a cadeira
senta ao meu lado
fala do dia agitado
do colega, do chefe
sei que o dia
foi sobremaneira

vem, amor
fala qualquer besteira
não fica calado

amor meu
há cerveja na geladeira
sobrou frango assado
do almoço
está tanto insosso
e também mal passado
mas muito gostoso

amor meu
você é formoso
até quando cansado
seu corpo suado
inspira brincadeira

amor meu
puxa a cadeira
e continua sentado
eu me lanço inteira
de joelhos dobrados

sacharuk

ela quer dançar para a Lua

ela quer dançar para a Lua

ela chega bem leve
cadência tão quieta
           poisa silente
em compasso de pluma

ela cai chuva fria
despenca repleta
no meu corpo quente
           em gotas nuas

ela aponta o poente
seus sussurros molhados
declamam eloquentes
versos improvisados

denuncia segredos
confessa silêncios
que ouço encantado
de olhos fechados

   ela quer dançar dançar
                   vai dançar
       para a Lua

ela quer dançar dançar
                     vai dançar
                para a Lua

ela mostra tão lindas
       suas asas abertas
de matizes brilhantes

ela tremeluz radiante
        sobre a fogueira
tal serpente de vento
      enroscada na voz
de um sopro
      um sopro
        um sopro

ela aproxima cadente
na boca o sorriso
sorri divertido
         de um só lado

denuncia segredos
confessa silêncios
que ouço encantado
de olhos fechados

    ela quer dançar dançar
                   vai dançar
       para a Lua

ela quer dançar dançar
                     vai dançar
                para a Lua

sacharuk

gotas de som

gotas de som

enquanto correr o rio
andarei contigo
pelos atracadouros
dos tempos

enquanto brilhar a lua
guardar segredos de ouro
percorrerei as ruas
dos teus pensamentos
invadindo teus olhos

ya ya ya - ya ya
na chuva

ya ya ya - ya ya
na chuva

teu fogo de bruxa
imprimirá serpentes
de sombra nas paredes
soprarei gotas
de sons no teu ouvido
tal fossem um vento
um vento
um vento

ya ya ya - ya ya
na chuva

ya ya ya - ya ya
na chuva

sacharuk

Não há limites no amor

não há limites no amor

diz que não há limites no amor
até quando ele vive longa espera
supera os ranços da adversidade
impera sem distância e sem idade

amor rasga a carne feito fera
amor clichê premiado feito flor
amor reflexivo feito o amor
amor giro incontido feito Terra

diz que não há limites no amor
quando ele desconhece a verdade
é sentimento livre que encerra
o intento genuíno ou impostor

amor pinta a libido feito cor
amor corta o peito feito serra
amor pedra tão dura feito jade
amor rebrota em viço feito verde

diz que não há limites no amor
se ele tanto quer felicidade
o amor vê fagulhas nas quimeras
amor que vive paz e vive guerra

sacharuk

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