Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira
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O Último Charrua

O Último Charrua

No alto de uma coxilha
Viu-se um índio repontando horizonte
Um lobo sem sua matilha
O último cocar de sua brava gente

Filho de Tupan, esquecido pelo tempo
Preso a miséria da civilização escassa
O cusco ovelheiro, seu único alento
Índio cor de cobre, esteio de sua raça
Em uma bombacha e encarnado lenço
Pés descalços e pobre, domava que dava graça

Modesto Charrua, a coronilha da raça
Que sina a sua, a última alma que passa

Parecia com pingo sem tropilha
Viveu de saudade sem canga errante
Mas não se reculutou na pandilha
Viu o encanto nativo cada vez mais distante

O rebenque da sorte guasqueou o intento
Entendeu que na lida há o dia da caça
E cantou solito aporreando o relento
A milonga tristonha de esperança escassa
Se o desejo do homem é cambicho sedento
A bonança de um é do outro a ameaça

Modesto Charrua, o fim é o livramento
Que sina a sua, espírito xucro do vento.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Trova de guapos

Trova de guapos

Sou taura da presilha até a ilhapa,
não tenho cara de sorro manso;
levo na estampa o bafo de canha,
o baile todo só bebo e não danço!
Sou guasca do mango até a guaiaca
danço com minha prenda e não canso
se vejo um bucho eu passo a faca
de china feia não quero ranço
Sou grosso e ignorante
como salada de urtiga
agarro touro a unha
e nunca bebo o bastante
Sou filho desse Rio Grande
e não me aparto da briga
um diabo  me ronca na cuia
laço égua xucra com barbante
O galpão é meu palácio
meus vassalos são os cuscos
trovo com o tio Anastácio
largando tições pelos cascos
Da coxilha tenho um pedaço
planto meu fumo e chamusco
e trago o rebuliço no laço
gaúcho guapo não faz fiasco
Com permisso, poeta amigo,
escuta este trovador
meu prazer é prosear contigo
pois na rima és professor
Dessa peleia fiz meu abrigo
com o hermano improvisador
sempre responde o que digo
com a grandeza de pajador
Vou me retirar desta trova
pois sou pobre poeta de parca rima
em cada parceria a amizade se renova
e tua cidade, de Cruz Alta se aproxima
De Pelotas te mando essa prosa
da nossa querência campesina
e se Cruz Alta também é formosa
encilho o pingo e vou acima.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Um domingo diferente

Um Domingo Diferente

Perdoem-me os infelizes, mas estou feliz.
Perdoem-me os surdos, mas tenho ouvido canções de amor.

Quanto aos invejosos, inveja não tem perdão...

Perdi a direção, mas escapei por um triz,
Perdi o meu escudo, mas eu fugi dos rincões da dor,

Quanto aos chorosos, choro não é mais do que emoção...

Perdoe-me o Mago, mas sou seu gnomo aprendiz,
Esse poema que lhe trago, ganha corpo e professor,

Quanto aos desgostosos, só perdoa quem tem coração...

Abri meu coração, foi o melhor que fiz,
Lancei a voz no mundo, encontrei o amigo escritor,
Quanto aos escabrosos, são uns velhacos sem noção.

Decimar Biagini & Wasil Sacharuk


Chasque dominical

Chasque dominical

Voa nesta poesia
Cortando os pagos
Pois tua parceria
É honra sábio mago

Já larguei da rebeldia
depois de uns tragos
comecei cedo do dia
que o domingo é vago

A friagem entra na noite
Arrepia até o candeeiro
O zinco já aponta um corte
Só o poema de companheiro

A TV só fala em morte
e político traiçoeiro
a rodada dos esportes
e jeitinho brasileiro

Talvez eu tenha sorte
De trocar versos com o parceiro
São Lourenço lá no sul do potreiro
E Cruz Alta quase rumo ao norte
O vento minuano chega matreiro
Enquanto o potro relincha sem sorte

E decerto o amigo vate
pajador de verso ligeiro
vai passar o domingo faceiro
com vinho, costela e mate
pois é um poeta altaneiro
do mais bagual dos quilates

Durante a manhã, no costado da casa
Caiu um passarinho, morto pela geada
Enquanto o poeta almejava ter sua asa
O ser livre morria na fria madrugada

Essa vida algoz tanto cria quanto mata
vivente saido do ninho e caido na vala
poeta não é imune igual diplomata
carrega uma rima na cueca e na mala

No silêncio de um pensamento
Cerro idéias puras e nítidas de amizade
Agradeço ao amigo pelo intento
De replicar tal poesia com sinceridade

Que o pensamento seja o momento
de traduzir nossa cumplicidade
com estrofes cruzadas no vento
e hermana certeza de continuidade.

Decimar Biagini & Wasil Sacharuk

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véu do mistério

véu do mistério despencadas brumas das cúmplices estrelas luz de lua e velas falseadas penumbras sob o véu do mistério do olhar do abutre o ...