não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

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o descrente

o descrente

A razão, ainda que sobrepujada, é imbatível. A consciência, ainda que ultrajada, é inevitável. No confronto com a solidão um homem achou a inexistência divina, quando nenhuma criatura se apresentou para ocupar a vacância dos espaços e amainar as dores inexplicáveis. Finalmente entendeu que a crença é o indeclinável compromisso de enfiar um deus em todas as coisas. Subterfúgio humano institucionalizado. Sobrava ao referido deus a crença que faltava aos filhos, que faltava à árvore antiga, ao sorriso desdentado do seu avô. Era desperdício de foco. A crença passava dia todo sentada num trono comandando facções criminosas sob a adoração dos seus escravos. Morava nos parágrafos das deontologias que entoavam discursos medievais ao domínio das massas. Tanta súplica pela salvação dirigida a um deus surdo. Tal homem, agora, apenas admira aqueles vitrais cortados por feixes de luz e a persistência daquela poeira oculta nas sombras dos templos. Sabe ele que os artistas são deuses extraordinários, artífices das coisas belas, da música, da poesia, da pintura, da escultura. Nos signos da criação se guarda o verdadeiro embrião de divindade. Entendeu que o amor não é monopólio das crenças e é a chave que abre todas as portas. Agora ele é realmente feliz, sem nada pedir, sem nada dever.

sacharuk



se foi só pra me comer

se foi só pra me comer

se tua sedução
foi enganação
pura sacanagem
meu tesão sorriu faceiro
o amor inspirou a aragem
de um céu inteiro

sacharuk

art Sherri Lemire

oxidação

oxidação

um sonho submisso
à correria dos ventos
à mercê das vontades
das fofas nuvens
oxida no tempo
pega tanta umidade
vira ferrugem

sacharuk



brechó

brechó

                  deliciosa
é a ridícula sensação
     de viver apaixonado
não foi melhor explicado
              o poder da mente
tatear um corpo distante

                            e o tesão
desvenda percursos insólitos
disfarçado em roupas esquisitas
       fetiches estrambóticos
  sussurra línguas mortas
                       bebe saliva

                         e o amor
  é o velho transviado
fumando canabis sativa
        colecionador de selos
desmanchado em develos
enquanto estende a cama
                   para te esperar

sacharuk

painting Lilian Patrice


das semelhanças

das semelhanças

cruza olhares
com espíritos da floresta
fala com pedras
ama saber- se ouvida
seus pedidos atendidos
suas ideias compreendidas

o campo é aconchego
assoalho dos seus passos
bailarina no espaço
refugiada na nudez
é repleta de poesia
minguada de sensatez

sacharuk



clichê de outono

clichê de outono

eles passam sequer reparam
a folha seca flanando suave
quando despenca da árvore

maldizem a noite de frio
os pingos gelados da chuva
praguejam ao contratempo
das mudanças de temperatura

não veem que o outono é feito
com nuanças de poesia
e tons sépia de cura
que o silêncio da melancolia
convida a dançar na rua

sacharuk



olhar lancinante


olhar lancinante

aço amolado fere
finca crava o estrago
punhal ferrado entrava
enrosca na carne
rasga doendo
afunda e fende
detrás do inocente
olhar de menino
janela de sóis infinitos
cortantes ventos
oceanos revoltos
e brilho cristalino

sacharuk





endemoniada

endemoniada

o diabo trinca os dentes
se bota com zanga
controla rouba sangra

no jogo do inferno
a calda fervente é o prêmio
enxofre com goiabada
o corpo é incêndio
e queima

paixão endemoniada
reclama
delícias ferem
e o desejo inconteste
ainda clama

sacharuk

Elena Markova Art



vórtice ascendente

 vórtice ascendente

tremia corpo inteiro e assaltavam os poros toda vez que espocava faísca no cérebro. espiralada no ventre, a serpente maior que jibóia, menor que sucuri, verde, tal as algas. náusea não cabia, apenas a necessidade de chorar sem emoção, falar sem razão. mudava de pele a feiosa. naquela hora, a gosma viscosa desprendia da nojenta e ela, silenciosa, não se movia. despertar era o que queria. cada vez que a eletricidade percorria a espinha, impulsionada por forte assopro, a carne revirava ao avesso. quando acordou, nada de sobrenatural aconteceu, nada de dor, nada de medo. ocorreu que aquilo o que já se sabia passou a morrer. sem apegos e sem assombro.  apenas certezas transmutadas em escombros.

sacharuk






ceifa

ceifa

forte presença se manifesta
da ancestralidade eterna
ao coração da floresta
o ecossistema agrega
emanações de memórias
brotadas da terra

a vida seca é madeira
da lavra da motosserra
que ceifa a alma da mata
e a morte abre clareiras
para passar a boiada

sacharuk



a conta

a conta

acelerado aquecimento
passamos do ponto
perdemos o equilíbrio
entre climas e tempos
definha amor em frivolidade
a morte apresenta seu voucher
no balcão da humanidade

sacharuk



cerne

cerne

bem queria embalar o sonho
embrulhado na lua cheia
bem queria gravar o meu nome
no cerne da árvore do novo dia

bem queria destituir consórcios
mancomunados contra a alegria
bem queria a medida da fome
em um prato fundo de poesia

as ideias secas despencam
derrapam no chão displicentes
mas flores irrompem das plantas
nos jardins da inocência

lá onde o sol fizer sombra
haverá de brotar resistência

sacharuk





ente

ente 

 concebeu seus momentos
 na esteira dos sonhos 
colheu flores notáveis 
na penumbra das noites 

 viveu o início dos tempos
 caiu na espiral do outono 
tantas mortes inevitáveis 
entre retornos constantes 

 transmutou suas coisas 
na alquimia dos arcanos 
capturou em fotografias 
as memórias distantes 

 carimbou seus contratos
 com um clarão de ouro 
soprou rebojo nos ventos 
chorou vazão no oceano 

 contudo ainda não sabe 
o que sentir pelo outro 
contudo ainda não quer 
saber sentir pelo outro 

 sacharuk



o alienígena

 o alienígena

Todas as manhãs o alienígena acorda e toca o próprio corpo para sentir que existe de fato. No quarto, o espelho embaçado pelo seu assopro é a certeza da sua interferência nas coisas do mundo. Roda e roda pelo submundo. Também visita lugares seletos, mas só ouve murmúrios incompreensíveis das pessoas que conversam em seus próprios dialetos. Alheio a tudo, suas ideias também não são acessíveis aos mundanos de qualquer lugar. Assovia uma melodia singular. Todavia, o alienígena voa, quando poderia simplesmente andar, mas prefere se locomover logo acima das cabeças dessa gente esquisita. Vez por outra, ouve vozes distantes e sons dissonantes e isso tudo o irrita. Também vivencia eventos antecipados nos sonhos premonitórios. Tudo ocorre da forma como sonhou. Seu olhar é um observatório, por isso vê as pessoas por dentro. Não tudo, mas os traços das personalidades e um tanto de seus pensamentos. Ele simplesmente sabe quando alguém é do bem. Além disso, lê os mais finos gestos de mãos, as falas mais rebuscadas, os sorrisos... Assim ele conhece vários níveis de qualquer pessoa e suas conclusões são infalíveis. Alguns o assustam, outros provocam tristeza, poucos o fazem sorrir timidamente. Ninguém o faz sentir-se contente, leve e cheio de asas resplandecentes.

sacharuk



Flora parida sob o jambeiro

Flora parida sob o jambeiro

fofo chão 
de pétalas rosadas
a natureza ofertou o leito
ondas de afeto para a chegada
toques de amor e acolhimento

do útero materno rumo estreito
a menina viu um raio de sol 
entre os galhos do jambeiro
aqueceu o evento sensorial

mulheres provaram 
o empoderamento
bem nascido do parto natural
Flora provou 
um novo sentimento
ao romper o seu laço umbilical
logo a menina buscou o peito
doula parteira 
e mãe encantadas
renderam à vida todo o respeito
quando a violência foi rejeitada

sacharuk



orgasma-me

orgasma-me

catapulta-me
ao olhar desenxabido
teus fluidos risonhos
derrama-te em oferenda
ao altar dos meus sonhos

disponha-me
transmuta em libido
meu pensar macambúzio
seja eu o escolhido
para teu nobre uso

e orgasma-me
irrompe os infusos
das tuas feitiçarias
e o que for permitido
pela livre poesia

sacharuk

painting by Lilian Patrice

 

rapariga perdão

rapariga perdão 

 rapariga 
concede-me o perdão 
por tantas brigas 
por tanto enguiço 
pelos meus caprichos 
por pouca razão 

 ainda que eu siga 
pela contramão 
revirando lixo 
colhendo intrigas 
achando rabichos
 não digas que não 

 sacharuk

Malcolm T. Liepke, flores no cabelo dela, 2014



porraloca

porraloca

oculta o reduto
sob o chapéu
da mente insana
contra os insultos
contra o beleléu
contra as tramas
repara que a aba
protege expressa
contra o orvalho
mas nada ampara
a doida cabeça
do caralho

sacharuk



caboca

caboca

caboca sabe que o mar
apaga o fogo da terra
que a lua que brilha na serra
também movimenta maré

caboca tem pé jenipapo
e tem outro pé canindé
carnaúba cerrado banana
tem coco tem sede tem fé

caboca tem nome de ana
alice francisca maria 
tem maracatu tem poesia
na festa de são josé

sacharuk

Paróquia Menino Deus - Itatira CE


imperfeito

imperfeito

uma falta parida
dentro do peito
me faz tão tristonha
e ando estranha
tanto sem jeito
e as cores do sonho
não enfeitam a vida
fica a angústia dolorida
de achar tudo imperfeito

sacharuk
Soledad Fernandez, 1949 | Figurative paint