não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

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prece nº 13

prece nº 13

no corredor
passinhos lentos de botinas
o padre e a sua bíblia
o grito seco de Maldonado
que deus o sustente
a mim também
na minha vez
amém

sacharuk



antirrábico

antirrábico

conhece o tom da fala
e o olhar opaco dos justos
modelos da sensatez

olha bem suas caras
ouve os discursos
investiga os porquês
dos que não se envergonham
da própria obscuridade

percebe o entrecorte
que separa as vaidades
dos respiros ociosos
cospe tua cachaça
sobre a estupidez
dos crentes raivosos

não lamentes o desprezo
o negacionismo escroto
bate palmas que os loucos
dançarão orgulhosos

sacharuk

fotografia: divulgação ISTOÉ Independente (istoe.com.br)


cerca viva

cerca viva

flameja sol
decompõe e decanta
o pacote das cores
teu prisma lapida falésias
e saches de pétalas singelas
resguardam o perfume das flores

manhãs de glória ipomeia
cerca viva entre cancelas
azul veneno da exuberância
demarca limite às coisas

sacharuk



Restituição de bagagem

Restituição de bagagem

No saguão do terminal 2 do aeroporto, o casal apressado para diante da grande tela eletrônica que exibe publicidade bancária junto às informações pertinentes ao desembarque dos voos. A mulher veste confortável traje esportivo e traz uma menina de cinco anos pela mão firme. Logo, o homem encaminha-se calado até a esteira de número seis, onde malas de diversas cores e tamanhos desfilam e exibem etiquetas brancas aos seus prováveis proprietários.

A mãe e a criança agora escolhem chocolates na loja próxima ao portão de saída, enquanto o homem acompanha atentamente o passeio caleidoscópio das malas, até que, num súbito, estende a mão esquerda em direção à alça da mala amarela que se exibe logo à sua frente. Ao mesmo tempo, outra mão impetuosa, ornada de anéis delicados e unhas vermelhas, tenta alçar sem sucesso a mesma mala. O disputado objeto escapa às vontades e segue seu trajeto mecânico, ao passo que os olhares surpresos dos dois interessados se entrecruzam. Suas faces sorriem constrangidas. O homem balbucia uma palavra curta e a mulher responde com outra. Andando sem graça, afastam-se alguns poucos metros.

Quando o mecanismo retorna a mala amarela, a mulher decidida a pega com rapidez e se retira guiando-a sobre as rodinhas e batendo ritmadamente os saltos sobre o mármore.  O homem, que já não atenta à esteira, hesita por um instante e depois a segue.

Em frente ao portão de saída, ele a vê abandonar o prédio em direção à curta faixa de pedestres e acena brevemente erguendo a palma da mão. Hesitante ela para e logo retorna até a vidraça do saguão, aproximam-se e olham-se demoradamente. Quando ele parece querer dizer algo, as pontas vermelhas de dois dedos da mulher pousam na vidraça tal quisessem cerrar os seus lábios que, imediatamente, se calam.

Então ela se afasta até o táxi, empurra a mala para dentro, embarca e parte, enquanto ele, através do vidro, a observa partir.

De volta à esteira, ele estático, quase não vê uma única mala amarela passando à sua frente repetidas vezes, enquanto distraídas, a mãe e a menina brincam no saguão.

sacharuk



botão

botão

pequena morte
o corpo festivo
não mais lhe pertence
mãos perdidas
sem cautela tateiam
todos os cantos

verte a seiva
aos olhos encorajados
que sorriem 
quando a veem
desabrochado botão

orvalhado ao toque
se contrai
tremeluzem os dedos
ao abandono
dos seus ais

sacharuk



licença poética

licença poética

licença poética
the cool
is hole

sacharuk




clichê à beira-mar

clichê à beira-mar

os espaços vazios
são falhas
são rasgos
e vãos
teu meio
sangra meu nome
inala meu cheiro
mistura de cor
derramados desenhos
alaranjados

entre luzes
espaços levam
até tua estrada

silhueta deitada
clichê à beira-mar
traçado horizonte
as ondas percutem
se o mar é distante

trazem para mim
versos trôpegos
de doçura e felicidade

sacharuk


A leonina

A leonina

Tão logo a primeira tormenta da primavera deu trégua, a camareira do Hotel Campanile, dessa feita, não desejou voltar para casa e preparar o jantar para Jonathan. Preferiu percorrer a alameda do parque Stanton. Seguiu alternando os passos revestida de tanta verdade que pouco percebeu as adoráveis árvores caprichosamente dispostas à margem ou seus sapatos lamacentos que chafurdavam nas poças. Egocêntrica, Melissa percebia-se pouco capaz de quedar-se à paixão. Confusa, ainda que satisfeita, arqueou o cantinho direito da boca cor-de-rosa desenhando um meio sorriso divertido. Até mesmo aos intuitivos e determinados, essas estranhas malhas que o destino tece envolvem surpresas. Ela que, invariavelmente, reluta em perder seu tempo aos estados depressivos da alma, rende lealdade aos próprios sonhos, somente a eles é devedora. Esse sentimento tão avassalador é artefato muito raro, então soltou os cabelos. Desejou experimentar o vento que mesclou os fios negros e cacheados aos brancos que sobressaiam tal tímidos intrusos. A indiferença é cansativa e Melissa a odeia. Permitiu que a longa saia voasse livre e descobrisse uma deliciosa porção das coxas morenas. Não importaram as consequências. Ela que jamais teme ser impulsiva, não cedeu às duras penas da mentira.

Ao final da alameda há o córrego. Foi lá que a mulher afogou suas razões no calor úmido de uma boca. Sentiu a indiferença dissipada ao aperto firme das mãos que pousaram sobre suas nádegas. Não havia tempo a perder.

sacharuk




poesia primeira

poesia primeira

poesia primeira
parafraseia pássaros
produz palavras pueris
por profissão

prodigioso poeta
pálpebras pesadas
pretas pintadas
piscam por pão
pedacinhos pontuais

poesia primeira
pode pairar prosaica
percorrer parágrafos
paradoxais

poisa plena
pura perplexidade
provê paixão por propósito
plenitude por pertencer

sacharuk

Painting by Ericamaxine Price

O eu outro



O eu outro

Vê o espelho à tua frente. É mágico! Esbelto é o reflexo ao olhar traidor. Quebra-o!

sacharuk

quid pro quo

quid pro quo

cruzou águas imensas
deitada na sua canoa
desenhou com o dedo
mil promessas
riscadas nas nuvens

havia vazio em seu meio
uma vertigem
certa dor um receio
não era medo
horizonte quebrado
esse vazio tinha nome
tinha cor tinha cheiro
abria sombras aladas
para voar com as garças

ela viu de tão perto
que o nada é o nada
e que todo o nada
esvazia repleto
transborda tão cheio
de vazios incompletos

sacharuk




teu toque tua voz

teu toque tua voz

     sou maluco no jeito
que acarinhas minha face
fotografia de enlaces
estéticos efeitos

sei o quanto bem sabes
   meus olhos te falam
       o escuro inunda
           podes ouvir
   o que os sonhos dizem

sinto silêncio em mim
          se me olhas
          tal olhas agora

vasculho vestígios
         distâncias afora
 cheiro de mato
      as linhas doces
      das tuas  mãos
 falam mais que a voz

sacharuk


versos de néctar

versos de néctar

corpo sim
             de dentro para fora
tal orvalho na aurora
sol em luto
amor em palavra
escorre pelos cantos
                dos muros

verte umidade
quando acontece
o líquido fel                   
          desce do céu
derrete os metais

lindo sim
a pegada e a gana
os sussurros fatais
      o assalto das vontades
        desintegração dos poros

e os corpos
               envoltos pela cintura
bailarinas loucas
     serpentinas impuras
              de livre poesia

a língua pronuncia
     versos de néctar
         plenitudes na boca

sacharuk





a mediocridade da obediência

a mediocridade da obediência

o pastor abençoado
cultiva estereótipos
do mundo das criaturas
de boa vontade
onde as coisas  são puras
não admite a diversidade

o pastor abençoado
não foi transformado
pela cultura
sequer convencido
pela ciência
segue os preceitos
da sua crença
dorme decorando
as escrituras
na mediocridade
da obediência

sacharuk

o desejo e a fome

o desejo e a fome

alucina-me no ardor
desse odor tão sublime
absolve minha coragem
e envolve minha face
na profundeza das sombras

quando a bifurcada língua
irrompe e logo blasfema
e como ágil serpente
inocula no teu sexo

entre as coxas me perco
acho que  nunca me acho
onde o desejo é presente
a fome nunca descansa

sacharuk


anel de tucum

anel de tucum

confesso cinzentos medos
ensino-te segredos
do verde chimarrão
do amanhecer ao sereno
e o sol amarelo
a queimar nossos vícios

a noite azul fria
aquece nossa estalagem
quando envolves meu dedo
reluzindo tua graça
na singela inscrição
delicado anel de tucum
para selar compromisso

perpetuo meu nome
no centro da morfologia
que demarca tua nuvem
e depois do café
ainda regas as flores
do meu róseo jardim

e por fim
na lagoa da poesia
eu colho as cores
que te sinto

sacharuk


androfagia de amor

androfagia de amor

isento do egoísmo
morder-se-ia o louco
no antebraço das impossibilidades
o rasgo sangrento
naco de carne
doce exorcismo
de amor violento

sacharuk



nada novo

nada novo

o antigo falou que o novo
tem nada de novo
só muda o escopo do roubo
o antigo enchia a pança
prometia pujança
e só dava esperança
e o novo
provou que tem nada
de novo
só muda o escopo do roubo
junta milícia e militância
pra tomar pirulito de criança

sacharuk


milagre

milagre

os paradigmas estão velhos
só conduzem ao nada
trepamos em tantas escadas
não alcançamos o mistério

se há uma terra prometida
é a evolução traduzida em ciência
e o grande milagre é a experiência
de andar sobre a bosta nessa vida

sacharuk