não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas tu podes treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

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2020-01-01

pelas quimeras

pelas quimeras

quimeras
serão teus segredos
na chuva diluídos
quiçá esquecidos

livrar-te-iam dos medos
quem dera!
ouvirias o grito da terra
acordarias mais cedo

lembrarias dos idos
dos belos adormecidos
feitiços e engendros
quisera!

livrar-te-iam do efeito
da humana miséria
das imagens etéreas
em seus mundos perfeitos

sacharuk


previsível e previsto

previsível e previsto

poesia
de versos jumentassílabos
aprumada medição
tijolos de construção

análise de dados
topografia
astrologia
movimento dos astros

régua na mão
martelo formão
compasso esquadro
forma de padaria

alfaiataria
de versos alinhavados
lisos como sabão
dentro da previsão

poemas contaminados
com ideias vadias
dançam pela alforria
do poeta escravizado

sacharuk


poema urgente

poema urgente

queria ser poema urgente
inspirado nas flores do quintal
estrofes em gotas
contra a sede
essência de versos
contra o mal

queria ser poeta da rede
vislumbrar prestígio nacional
meu argumento ninguém entende
e o formato não é sempre igual

queria traçar poema al dente
queimar os beiços
num verso quente
apimentado com muito sal

queria saber fazer diferente
ponta-cabeça
detrás para frente
achar razão
sentido e final

sacharuk


ao meu censor

ao meu censor

o povo comenta
que contratei o diabo
não digo que sim
nem digo que não
lavo minhas mãos
e deixo em aberto

não faço promessas
eu me acho esperto
vivo no inverso do avesso
fico do lado que presta
a tribo do meu apreço
é indiada xucra do rincão

desconheço o capeta
não assino contrato
não faço juras
não faço tratos
nada que me comprometa

entorno um trago
enquanto escorrego a caneta
e sacramento o ócio

boa noite e até outro dia
entende que meu negócio
é vasculhar alguns troços
para achar alguma poesia

sacharuk


porta entreaberta

porta entreaberta

ela saiu
deixou a porta entreaberta
a intenção encoberta
do retorno
noutra oportunidade

não admitiu
que não estava certa
nossa vida incompleta
um transtorno
uma desumanidade

e mentiu
julgou-se esperta
agora a saudade
já não aperta
o que era morno
agora é só caridade

sacharuk




Preliminares

Preliminares

Lá no tempo das certezas
Lambia enternecida o sorvete
que pingando no corpete
desenhava achocolatadas belezas

Lá no tempo dos devaneios
Voando por mil e uma madrugadas
as estrelas, na camisola desenhadas,
faziam vibrar as notas dos anseios

Lá no tempo das purezas
A paixão era tanto mais quente
trocávamos nossos chicletes
e outras carícias sob a mesa

Lá no tempo daqueles rodeios
num baile de línguas enroscadas
a nossa espera foi saciada
depois do toque em meus seios.

Marisa Schmidt & sacharuk




há uma dor que me tenta
tal pimenta que arde
alguma dor tem verdade
de qualidade violenta

há uma dor que cativa
tal dor que me invade
alguma dor traz saudade
sintática e substantiva

que dói pulsar feminina
dói doer só
que dói ser subjetiva
dói de dar dó

sacharuk



2019-12-21

pele de terra olhar de saudade

pele de terra olhar de saudade

maria
pele de terra
olhar de saudade
bem sabes
poesia é sequência de partos

nasce
renasce
tal flor
pelos campos
insistente no tempo

pari o intento
no signo dos dias
porque és poeta
engendra alquimia da dor
transmuta tudo em poesia

sacharuk

foto: Ana Sacharuk

2019-12-15

parafuso frouxo

parafuso frouxo

queria saber escrever um soneto
do tipo perfeito e metrificado
mas não sou mais que poeta de gueto
tudo que escrevo é desqualificado

sou só criador de lirismo obtuso
quem dera saber o rigor do riscado
meu falso soneto beira o abuso
inda bem que o leitor é muito educado

tento escrever em versos concretos
mas o talento é muito discreto
tudo que escrevo é posto de lado

eu quis um soneto de versos difusos
mas minha cabeça afrouxou o parafuso
e criou algum troço desorganizado
sacharuk


Pessoa pessoas passos

Pessoa pessoas passos

Pessoa, como eu queria
encantar-te com o que invento
seria o que eu faria
acaso tivesse talento
ouviria som de poesia
até quando sopra o vento

pessoas, como eu queria
encantá-los com meu intento
seria o que eu tentaria
acaso eu não fosse tão lento
ofuscado pela melodia
atada a um novo rebento
será quando chega esse dia?

passos, estradas que enfrento
ao encalço da alegria
será que haveria o momento?
será que eu não desistiria?
ousaria outro passo sedento?
só preciso ter garantias

sacharuk


intertropical

intertropical

vinte e três graus da linha
mais vinte e sete minutos
e cruzas a vida minha
no equilíbrio absoluto

abaixo de Câncer te vejo
sobre Capricórnio ficas
trópicos do puro desejo
onde moram rimas ricas

a bordo do nosso cometa
fazemos fatias
do imenso planeta
e recriamos as utopias

acima e abaixo do Equador
nosso intertropical amor
percorre a rota da poesia

sacharuk


alvorada

alvorada

se a alvorada
de mansidão silencia
sê romance
e mais nada

veste-te de poesia
e não desencantes
a noite passada

sacharuk


2019-11-29

agrimensura

agrimensura

teu corpo
sinuoso caminho
de tantas imagens
complexas vontades
ao meu vislumbre
embasbacado

ora abstrato
a piscar vagalumes
ensandecidos
meu olhar dividido
entre os peitos
amaldiçoados
e as coxas benditas
mulher poesia
alquimia
renascentista

dorso decúbito
do jeito
calibrado nas rimas
morte do pensamento
pensando na língua
dos versos

reinvento
tua agrimensura
aos avessos
do meu ego
e entrego
o que é teu
por direito
sacharuk


2019-11-28

observa absorve

observa absorve

observa
absorve
o picho
não comove
é baboseira vazia
não é brincadeira
sequer poesia

a voz das ruas
não se cala
mas não diz nada
não tem proveito
não tem sentido
sequer eloquência
sem apelo instrutivo
sem apelo a ciência

observa
absorve
o picho
não comove
pichador é artífice
da deselegância
da própria imundície
e da ignorância

sacharuk


liberdade

liberdade

a alma
o corpo
a pessoa
pedem acalanto
querem libertar
as queixas do pranto

a alma
o corpo
a pessoa
cantam de cor
carícias amenas
até a dor ensinar
quebrar as algemas

sacharuk


cunhã

cunhã

cunhã tez tatuada
verde vestido ao vento
pedala a bicicleta velha
pelo fogo da terra

cunhã aos passos lentos
entrecruza as queimadas
voz que encanta toada
embala os lamentos

cunhã pé de serra
dança sina sertaneja
palha de coco cimento
sol carnaúba e estrada

cunhã alma rendada
a paciência dos tempos
forjada nas incertezas
resignação e espera

cunhã dos sacramentos
das marias abnegadas
que a vida não lhe cobre nada
além dos próprios tormentos

sacharuk


encontrei poesia

encontrei poesia

na realidade
fui caótico
fiz acrósticos
das penúrias
na luxúria
e na calmaria
procurei liberdade
mas prendi poesia

na realidade
mais retórica
tão pernóstica
coisa espúria
tanto ilusória
quase magia
procurei a verdade
mas menti poesia

na realidade
estrombótica
a diabólica
vida puta
tão simplória
sem serventia
procurei castidade
mas comi a poesia

sacharuk

2019-11-08

raimundo o mundo

raimundo o mundo

raimundo o mundo
nao é para os fracos

precisa fel de serpente
uma massa de delinquentes
sob um discurso simulacro

a requenguela acredita
balança o rabo e grita
replicando tal papagaio
pulando feito macaco

sacharuk


2019-11-05

calendário

calendário

ela ensina sonhos
percorre meus cabelos
nos seus finos dedos
acolhe ao umbigo
minha cabeça
histórias inteiras
sob bancos de areia

ela imprime mundos
nos olhos redondos
semeia chuva torrencial
colhe a flor casual
e beija as mariposas
no jardim primaveril

poisam pássaros
no calendário tatuado
na sua perna
e ela tão linda
tanto quanto louca
sorri ainda
pelo canto da boca

sacharuk




2019-10-25

paradoxo avícola


paradoxo avícola

paradoxal
é cada opinião
comezinha
sobre o tamanho do pinto
quando é normal
a galinha
botar os ovos
e cada pintão
que ninguém acredita

e ainda
a desenpuleirada
penosa crescida
também cisca no chão
traça as minhocas

então
bicho de todo tipo
ela leva no bico
e desentoca

sacharuk