Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira
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fazer diferente


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fazer diferente

você
que frequenta palcos
os circos edifícios
a alma de favela
a fome de asfalto

desaba dócil no altar
da nossa catedral

você
que abraça ao normal
e aplaude o palhaço
encena cúmplice sarcasmo
no teatro da vida

você
que lambe a ferida
depois lambe o orgasmo
da chaga universal

você
que é como a gente
no dia de natal
vai fazer diferente

sacharuk

bebê


bebê

qual tom cinzento
ousa adentrar
teu céu colorido 
de doces virtudes
e tudo o que
amiúde
tu, bebê borboleta
voando tão fácil
pode inventar?

sacharuk
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fotografia de Andréa Iunes

os anjos tocam falácias



os anjos tocam falácias

jaz o silêncio instintivo
detrás da porta do quarto
jamais pergunte os motivos
jamais sentencie meus atos

arquiteto do mundo quadrado
imperfeito inexato e cativo
jamais me imprima em retratos
jamais tente ser meu alívio

nunca mais

suas leis declinam eficácia
minhas leis são meras promessas
os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas

não conto que você entenda
não espero a sua astúcia
não queira roubar minha graça
não drene a minha energia

suas leis declinam eficácia
minhas leis são meras promessas
os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas

os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas

sacharuk

4059m

Rosa Elétrica - Falácia dos Anjos (Sacharuk-Moskito)

poema paisano


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poema paisano

pendurado perpendicular
parece pacote pendente
pelo precipício
pichando paredes
pincela profanos painéis

poisa pleno
para proferir palavras
pacientemente paridas
pecador perdido
pássaro pagão
pensa pagar pelo pão
pífias promessas
porém prova pobres pratos
pagos por parcas patacas

padece pela peste
perece pela praga
paga pesado preço
pelas pílulas punitivas

parte protegido
pela paisagem
paisano pelos pampas
passa portas
pula pedras
percorre praias
prados
puxado pelas pernas

pesca peixes pictóricos
pelo profundo panorama
percebe passar patos
pelos parques
pelas páginas poéticas

paira pela paixão
paladino pateta
plana por puro prazer
planta papoilas
para penetrar pelas pétalas

permanece poeta
preso por piedade
profere parábolas
previsões profecias

pensa pedaços
pequenas partículas
para pintar poesia

sacharuk

a passarada vista da varanda


a passarada vista da varanda

há gente que teima 
em achar poesia
onde poesia já não existe

escrita sob demanda 
não há chegada
nem despedida
beijo de entrada 
ou até de saída
quase sempre desanda
mas nunca desiste

há gente que teima
que passarinho passa o dia
a ouvir canções tristes
em vez de cantar ciranda

da varanda
vemos a passarada
a jogar sementes de vida
tirar sentido no nada
coisa mais que sabida
isso sempre encanta
e a poesia resiste
                          resiste

sacharuk

luz de amizade


luz de amizade

eu aprendi
bem pequenino
cruzar estradas
cortar caminhos
assim eu cresci

quando aprendi
a rodar moinhos
não sei parar
eu rodo sozinho
estou tão cansado

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade
pelos nossos dias

traduzi em poesia
as coisas confusas
que escutei do silêncio
quando dormi na areia

já morri de amor
e de amor já vivi
conheci os mistérios
contei luas cheias

pronuncio teu nome
e ainda te procuro
pelos cantos do mundo
pela nossa lealdade

me leva pra casa

pai
me leva pra casa

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade

amigo te peço:

pai
me leva pra casa

sacharuk

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problema meu




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problema meu

se amo
problema meu
não abras
um universo fechado

não queiras julgar
não queiras julgar
o que a mim pertence

se amo
nada tens a ver
não persigas
meus passos

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe
quem sou

não queiras saber
não queiras saber
se amo na alvura
ou na escuridão

se amo
estranhezas
certos fracassos
não há o que dizer

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe

se amo
problema meu

sacharuk

bonança


bonança

um vento tranquilo
veio para amainar 
o tempo cruel
e suas correntes

soprou brisa tal consolo
acordou aos crentes
aos idealistas
moralistas
aos tolos

soprou sementes de versos
nos campos dispersos
da nova poesia

soprou sereno
nuvens feitas das águas
do mar das calmarias

Mamilla

 

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www.wasilsacharuk.com

 

Mamilla

Se desejas deixar
a espiral da galáxia
terás de entrar
no centro do bojo central
pelo mesmo duto
que verte leite estelar

decerto sucumbirás
no centro da supermassa
perdido no buraco negro

se desejas deixar
a via láctea
terás de beijar
até que se abra
o disco galáctico
entre as nebulosas
e a poeira estelar.

wasil sacharuk

Bestiário

Bestiário

tão rude, o leão
se fecha as asas
faminto de abstração
ruge por carne
sangue
e compaixão

o leão, sua alteza
esquece a delicadeza
que fala ao coração
se é inútil dizer sim 
se é útil dizer não
reflete a juba nas águas

caça na selva intrépida
pelas terras azuladas
locus das bestas aladas
famintas egoicas
por um tanto de vida
e alguma paixão.

wasil sacharuk



tum tum

tum tum

a vida passa tão rápida
surfa lépida
asas do tempo

o instantâneo
o flash
raro momento

mas
a vida passa 
tão rápida
e passa 
ainda mais rápida
se o coração bate lento

wasil sacharuk


umbrella

umbrella

flor que floresce
da última chuva
nasce flor que parece
flor guardachuva

quando acontece
abre o pedicelo
da frieza das trevas
ao yang amarelo

onde Apolo
o belo
inspira fogos
sopra lascivas ondas
à Afrodite passional

umbrella archangelica
sedutora das sombras
benfeitora do umbral.

wasil sacharuk


onde dorme oceano

onde dorme oceano

onde dorme oceano
o vasto manto
abraça
sou abduzido
na dança
e não nego
quando dizes

te levo

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar

lá enroscam
fios de cabelos
aos cachos
costa do mar

onde dorme oceano
o vasto manto
abraça
sou abduzido
na dança
e não nego
quando dizes

te levo

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar

sacharuk

Cafuné

Cafuné

chegas fagueira
promessa e desvelos
vestes nudez
tu toda inteira
eu todo apelos
a foda que inspira

mas o que espanta a dor
é o timbre da tua lira
dança de dedos
nos meus cabelos.

wasil sacharuk



predestinação

predestinação

enquanto existo
fundo minha essência
absoluto da história
absoluto da sorte
apenas trago memórias
somente elas persistem
à morte

enquanto existo
minhas escolhas me recriam
continuamente
consciência da liberdade
que atesta incessante
a responsabilidade
de sempre escolher

sacharuk


Ato e potência

Ato e potência

sou necessariamente
tudo o que sou
genuíno
ato puro
equivalente
ao divino

eu sou
o poder vir a ser
a totalidade
sou necessário
dispenso causas
para existir

em mim encontro
a razão suficiente
que fundamenta o nada
apriorístico universo
das minhas possibilidades.

wasil sacharuk


enquanto cantam sirenas

enquanto cantam sirenas

fecham-se as cortinas
dos tempos insones
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

escorrido em gotas
na vidraça da janela
sou deserto iluminado
universo alquebrado
enganos do dia

rasgam-se memórias
dos versos infames
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

enterro solene
pássaros mortos
no quintal de terra
arranco a casca leve
das estranhas magias
com sentenças breves
escritas sem letras

e transporto
clichês borboletas 
sobre as asas
da minha poesia

 sacharuk


Xerófila


Xerófila

resta a seca
se a vida
agoniza
sem coragem

resta a seca
após a estiagem
deságuam pingos
esquálidos

resta seca
a seiva dos verdes
as vertentes
dos rios
são versos áridos

wasil sacharuk


presságios escritos nas paredes

presságios escritos nas paredes

insights estranhos
consulta aos arcanos
eco dos tempos
som dos lamentos
vislumbres insanos
junto ao trânsito
na cidade

chamaste meu nome

serena
mataste minha fome
no canto da sala
e recitamos poesia

noutro dia
plantei orquídeas negras
no parapeito da janela
que emoldura o meu vale
e confina em canções
presságios escritos
nas paredes

sacharuk

Labirinto

Labirinto

fui algoz
dos versos cadentes
torrentes
da ansiedade
deslizes do instinto

fui assassino dos versos
sem qualquer piedade
no seu labirinto

ninguém viu
quando cortei o fio
e logo matei Ariadne.

wasil sacharuk

Imagem: Dora Maar and Man Ray- 1936, The Years Lie in Wait for You