não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

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qualquer dia

qualquer dia

desprendo a mim liquefeito
misturado  aos contornos perfeitos
dos teus bancos de areia

desprendo a mim
em vapores de luzes
desnudo dos desadornos
liberto das cadeias

desprendo a mim pelas veias
uma teia flexível e resistente

desprendo a mim tão valente
e a morte empunha a gadanha
à mancheia

desprendo a mim qualquer dia
lançando ideias
na lagoa da poesia

desprendo a mim qualquer dia

qualquer dia

sacharuk

fotografia: Jenifer Amaro


a mente dança

a mente dança

a mente dança
o corpo dói
despencam harmonias
por ladeiras mansas
a mente insiste lembranças
o corpo reclama descanso

morro enquanto danço
minha alma intui
versos de poesia
murmúrios de barganha
pelo sopro do vento
e cruzar as distâncias
com os pés fincados
no chão

enquanto dança a mente
o corpo doente
deságua
desanda
mas a mente canta
enquanto traga o tempo

o corpo lento
cadente
mergulha
afunda
mas a mente nada
enquanto resta a vida

a mente dança
sobre a carne
a moléstia
dolorida
e convida à dança
o corpo reclama o remanso

sacharuk




explodida das veias abertas

explodida das veias abertas

tu és medo em estrofes diretas
quando a sina se torna agonia
tantas letras e um só argumento
a versar lágrimas e ventos

tu que nasces no ventre do dia
enredada nas horas dispersas
quando a luz retorna inquieta
encoberta se torna sombria

tu és verve cingida em lamentos
a acidez que ruiu monumentos
perfilaste ideias cinzentas
em busca da própria alforria

tu tens asas que movem dispersas
e eu te faço sublime poesia
te amparo nua em rebento
plasmo versos no teu firmamento

tu que nasces sem sabedoria
explodida das veias abertas
quando flui a vida repleta
entre as guerras e a calmaria

sacharuk

fotografia: sacharuk

naquele dia

Naquele dia

Lembro quando a natureza, naquele dia tranquilo de fevereiro, derramou a avalanche d'água. Vinha pelo chão a torrente que portava a essência de múltiplos rios, todos misturados, de resíduos e densidades vertentes. 

O destino é inexplicável e parecia imbuído de um fim. Naquele dia eu o amaldiçoei ingrato e injusto.

Na iminência do desastre, os pais procuravam seus filhos, os filhos aos pais, e, por fim, aos melhores amigos. Corriam e nadavam o quanto podiam, mas paravam sempre que suas mãos estendidas se faziam necessárias. Mãos corajosas que salvaram vidas.

Experimentei certa consciência de existência, algo que, até aquele dia, eu desconhecia.

Emanava um signo divino de cada mão voluntariamente estendida. Eu vi as lágrimas a lavar as individualidades e se mesclar ao movimento insano das águas. Mas, as lágrimas sequer interessavam. 

Lembro dos helicópteros a sobrevoar o entorno. Os militares instruiam os populares através dos megafones. Suas vozes embargadas pronunciaram instruções precisas e objetivas. Jogavam cordas em meio àquele oceano quase artificial que se instituiu na zona urbana da cidade. 

Vi um jovem lutar contra a correnteza furiosa enquanto tentava atar uma das cordas ao corpo frágil de sua avó. Vi crianças elevadas ao telhado das casas, junto aos seus cães. Protegiam pequenas sacolas que comportavam os documentos e as economias das suas famílias.

Sobre as telhas, as crianças nada podiam fazer. Apenas aguardavam pelos pais que talvez não voltassem.

Fez-se na arborizada praça central uma grande piscina. O balanço infantil de madeira pintada em vermelho e o escorregador azul, agora boiavam soltos pelas águas. De meros brinquedos, agora serviam de amparo e descanso aos que lutavam pela sobrevivência. 

Naquele dia eu, incrédulo, vi a essência da vida a se destemperar líquida. Eis que a crueza dos fatos enfraquece o dom de prosseguir, de criar. 

Estava tudo lá, tão destruído, enquanto eu observava da janela de vidro do terceiro andar. E hoje lembro do dia que há tempos quero esquecer. 

Todavia, de cada molécula de medo fez-se nova vontade de existir. Pois agora está novamente tudo lá, reconstruído e recomposto, e ainda mais. A praça tem novos brinquedos, mais do que havia antes. As árvores que quedaram deram lugar ao viço de uma nova natureza planejada e linda. Na periferia, uma nova vegetação se insinua, constituída pelo dna estranho trazido pelas águas viajantes que se juntaram. 

Era para ser novamente. E assim é.

Uma força descomunal argumentou com o tempo e recriou vida nos canteiros ameaçados pela morte e pelo medo.

Naquele dia eu soube que das sementes da gratidão, sempre brotará nova coragem para recomeçar. O tempo, invariavelmente, tem a razão.

sacharuk




a dona do pergaminho

A dona do pergaminho

Ela andava pela trilha de areia que desembocava na praia. Todavia, no meio do caminho, encontrou uma caixa.

Dentro da caixa havia um pergaminho enrolado e, a mulher, tanto curiosa quanto insegura, pretendeu abri-lo. E hesitou. Pensou que quiçá a escritura encerrasse segredos de outros tempos. Quiçá o anúncio de respostas há muito esperadas. Podia apenas discernir acerca da antiguidade aparente daquela estranha e bonita caixa. 

Abri-la ou dispensá-la? Considerou afastar-se da caixa e passar a cuidar dos afazeres. E, por fim, resolveu que distanciar-se do objeto a ajudaria a conduzir a decisão.

Voltou para casa. 

Lavou a louça e, logo após, as roupas sujas. Passou a ferro. Dobrou cuidadosamente cada peça. Cada ato marcado por exagerada lentidão. Sua mente teimosa recorria invariavelmente à imagem do objeto encontrado na areia. Não pensava em nada mais. 

Voltou à praia.

Descobriu a caixa. Rompeu cuidadosamente as dobradiças oxidadas e quebradiças. 

Lá repousava a velha escritura, caprichosamente enrolada no pergaminho dos tempos.  Passou a desenrolá-lo com delicadeza. A cada volta, revelavam-se signos e caracteres grandes e claros: 

"Partiste em busca de vida, mas encontraste experiências. Das boas e das más, criaste em ti o dom da coragem. Logo, não te surpreendas se dentro de uma caixa perdida encontres a possibilidade do medo e da incerteza. Saberás que nem todo o anúncio de vida estará expresso nas palavras que tanto queres e procuras. Se aberto o pergaminho, leia-o. Se aberta tua alma, vista-a!  E tenhas o ímpeto da curiosidade que te trouxe até aqui. E agora, retomes teu curso nas areias e não te importes com a direção dos ventos. Sejas apenas a dona do teu pergaminho."

sacharuk


automático

automático

tango
e retângulo
algo estilístico
de plástico
encontrei no meu drama
uma letra de samba
um nó na garganta
dolorido e drástico

falei no pé o momento
tasquei no incremento
movimentos elásticos

samba não é tango
o último é mais performático
nem toda dança é fandango
nem todo tom é enfático

fiz dos versos lamento
e dancei todo tempo
no modo automático

sacharuk

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tsunami

tsunami

eu quis inventar a canção
mas eu tive medo
e quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra

sacharuk

ao Psicopompo

ao Psicopompo

vejo teu semblante
sorriso diamante
gadanha que corta
o breu dos meus medos

conto a ti os segredos
essa vastidão 
dos meus eus
engulo a ti nos calmantes
morfinas e relaxantes
na ausência de deus

e deixo a tio que é meu
poesia irrelevante
o barraco navegante
tudo o que não morreu

sacharuk




delicadamente acetinada

delicadamente acetinada

quero saber das tuas coxas
imperfeitamente 
bem torneadas

mas, precisamente
penso em tua bunda
delicadamente
acetinada

lembro dela
evidente
e redondinha
sob a calcinha
cor de rosa
de algodão
não transparente
eu acho

eu espiava 
os flancos
por baixo
procurando vestígios
de boceta 

sou poeta
sinto gosto da pele
na ponta da língua
pela caneta

tens coxas belas
nem parecem 
desse planeta
mas penso em tua bunda
delicada e redondinha
enchendo a calcinha

e eu de vadiagem
como quem nada quer
transgredindo tua imagem
de linda mulher

sacharuk


escreve Literatura

Escreve Literatura

Desejo que te expresses. Que digas e, não importa o que digas… Escreve, e não importa como o fazes. Mas, desejo que te expresses.

Escolhe as melhores palavras. Aquelas que dizem. As que te significam. As que revelam teus símbolos, escondem teus enigmas e tatuam teus emblemas. Prefere palavras  coloridas, saborosas, cheirosas… que cada qual traga um universo interior plasmado em si.

Não fales na língua geral, usa o teu dialeto, aquele que falas no teu universo imaginário. Garanta-lhe a fineza artística da sutileza e da perspicácia para que seja agradável e não perde o contato com o mundo real.

Ama o dicionário e adora a gramática, mas não te entrega a eles! As letras são livres durante o sonho, logo, permite que algo primordial aconteça.

E, se quiseres que leiam, enfeita! Sejas o artesão das belezas e dos significados.

Deixa que teu fluxo desate na continuidade de um fio, cuja beleza em prosa habite nos meandros do desenredo ou, então, que imprima sua síntese em versos de poesia, tal pequenas pinceladas imbuídas de emoção e subjetividade. Mas, que te elabores no percurso e te faças cadente e musical tal as águas que quedam das pedras.

Veste-te das tuas figuras, das tuas pessoas, incertezas e anseios. Pontua para respirar entre cada emoção e mantém um ritmo. Quebra-o, quando preciso. A estética no palco da beleza é livre para cantar e dançar. É onde a liberdade da criação encontrará a identificação com aquele que lê.

Sensibiliza-te para que saibas sensibilizar.


o sentido da poesia

o que há de belo na poesia?
poucos entendem a sua beleza
ela não segue a um padrão
sequer se conforma à razão

seja clichê de céu turquesa
ou estrelado de idiossincrasia
recorte instantâneo do dia
com alguma ou nenhuma certeza

poesia respira e inspira emoção
trajada na lógica ou na abstração
na sua forma revela a fineza
e até mesmo se acalma na rebeldia

poesia que brilha na ousadia
e nos encantos da delicadeza
no colo sagrado da construção
onde a beleza apreende a lição

mas ser poeta não põe mesa
então, qual o sentido da poesia?
É ser surpreendido algum dia
surpreso com a própria surpresa!

sacharuk

bonança


bonança

um vento tranquilo
veio para amainar 
o tempo cruel
e suas correntes

soprou brisa tal consolo
acordou aos crentes
aos idealistas
moralistas
aos tolos

soprou sementes de versos
nos campos dispersos
da nova poesia

soprou sereno
nuvens feitas das águas
do mar das calmarias

problema meu




solitude-3

problema meu

se amo
problema meu
não abras
um universo fechado

não queiras julgar
não queiras julgar
o que a mim pertence

se amo
nada tens a ver
não persigas
meus passos

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe
quem sou

não queiras saber
não queiras saber
se amo na alvura
ou na escuridão

se amo
estranhezas
certos fracassos
não há o que dizer

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe

se amo
problema meu

sacharuk

sétimo

sétimo

dos rústicos sentidos
desde os despertos
aos adormecidos
há um sétimo
tão cáustico
e drástico
do qual eu não sei

sou apenas humano
portanto uma lástima
tal os outros
para servir de consolo
vivo de enganos
e estou sujeito às leis
dos tolos

algum sentido me faz absorto
em tom grave circunflexo
entre insights desconexos
penso falar com os mortos
monologar a minha loucura

palavras surgem obscuras
não sei se são híbridas
sequer se são puras
provém dos desígnios da noite
e relatos de bruxas

desfilam versos sem roupa
na poesia mais tímida
ou na prosa mais dura
na dor do sétimo açoite
a cortar o dorso da lua

ouço pitonisas loucas
reescrevendo o curso da vida
com promessas de cura
com mensagens urgentes
e nuas

(o sétimo carece sentido)

se solta um grito retido
que suplica pelo lume
ou qualquer sabedoria
serão apenas queixumes
no hades da poesia

sacharuk


esqueletos

esqueletos

naveguei tantos mares
explorei outras terras
remei o dó nas galeras
com dores nas costas
e de olhos tristonhos
em busca do porto
para ancorar alguns sonhos

marés de tantos azares
outras de sorte ou quimeras
abandonei causas velhas
pisei na fama e na bosta
mirei destinos tacanhos
joguei pérolas aos porcos
servi senhores estranhos

separei dos meus pares
fui ovni entre estrelas
ficamos eu e as panelas
pois eu perdi as apostas
que fiz com deus e demônio
vi meus sonhos aos ossos
de esqueletos medonhos

De butuca

de butuca

tavaqui de butuca
entendendo causos
no viés dos percalços
holocaustos
e arapucas

ensimesmado
fundido da cuca
no fogo cruzado
incandescente
e baseado
que chamusca

tavaqui de butuca
entornando tragos
no viés dos estragos
dos descasos
e agruras

enclausurado
esquecido na gruta
num fogo danado
aguardentes
papo fiado
e bitucas

sacharuk


Bairro Renascimento

Bairro Renascimento

Samanta não desalinha nos saltos altos. Anda graciosa e sorridente alternando as longas pernas coroadas pela graciosa minissaia. Absolutamente tudo, em Samanta, transpira certa audácia. 

Segura a bolsa com displicência, não teme os assaltos. Transita livre entre os traficantes e milicianos do bairro Renascimento. 

Lembra sempre do pequeno bairro em que nasceu, na cidade vizinha de Santo Antônio. Foram seus dias mais difíceis. Mas, agora não há mais do que reclamar. Tiago, o filho, nunca mais passou fome e já tem um bom plano de saúde.

Acorda tarde todos os dias para pegar o menino na escola e, depois, o deixa aos cuidados de Dona Diva, a avó, que assume o neto e a casa enquanto a filha trata dos próprios afazeres.

Samanta sempre soube, intimamente, que a beleza que lhe caia muito bem e seria a razão do seu sucesso. Todavia, Samanta é apenas outro clichê urbano.

sacharuk

amor meu


amor meu
puxa a cadeira
senta ao meu lado
fala do dia agitado
do colega, do chefe
sei que o dia
foi sobremaneira

vem, amor
fala qualquer besteira
não fica calado

amor meu
há cerveja na geladeira
sobrou frango assado
do almoço
está tanto insosso
e também mal passado
mas muito gostoso

amor meu
você é formoso
até quando cansado
seu corpo suado
inspira brincadeira

amor meu
puxa a cadeira
e continua sentado
eu me lanço inteira
de joelhos dobrados

sacharuk

seus sais

seus sais

sinto salgados
seu suor
seu sêmem
sua saliva

secretas
sabores solares

sou somente
sua serva
sorvo seus sais
sem segredos

sei sanar
seus sentidos
sabores servidos
sonhos sexuais

sei sumir
seu sabre
saborosamente
sem sacrifícios

sacharuk

segredos de polichinelo

segredos de polichinelo

forjados
mudos inertes
desprezos
e ironias
na cabeça do martelo

cravos paralelos
perfilam versos 
de poesia
e invioláveis segredos
de polichinelo

sacharuk

refrão desenfreado



refrão desenfreado

menina
agora sossega
teus pelos estããão
       tão eriçaaaaados

cada qual do seu lado
apontando a lua
e tu bela
   e nuuua

sentada à jane-e-la

do aviããã-ã-ão

menina
não deixa o refrão
          desenfreaaado

eu que estive acordado
entendendo a razãããão
dos teus pecaaados

cada qual do seu lado
andando nas ruas
       mais escuuuras

da minha cida-a-de...

na contramãããoo

menina
se eu digo que não
     estou erraaado

eu que estive acordado
encondendo a razãããão
dos meus pecaaados

cada qual do seu lado
ofertando a cura
      e eu na amarguuura

enchendo a tela
da televisã-ã-ão...

sacharuk