não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

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Branca coberta de andrajos

"Grimm Fairy Tales" - Gregory - Gunderson - Ruffino


Branca coberta de andrajos 

Branca coberta de andrajos
a tez reluzente porcelana
disfarce de musa no parnaso
não era promessa soberana 

Branca mimava aos farrapos
desenbaraçadores das minas
a donzela cozia os trapos
atraia animais nas campinas 

Branca sequer foi princesa
seu algoz esqueceu a frieza
e pousou a faca na bainha 

Branca renegou a nobreza
entregou sua vida à pobreza
para ser uma eterna rainha

sacharuk

essencial

Essencial

Essencial é teu sorriso aberto
tua alma num frasco
nosso encontro em versos
em qualquer direção, tempo
[ou espaço

Natural como o afeto
que acalma em seu laço
recôncavo e reconvexo
qualquer conjugação, momento
[ou lapso

Necessário feito o ar
é tua musa em cadência
o lastro direito de sonhar
em qualquer estação, luz
[ou frequência

Que flua em teu mar
vocábulos na correnteza
e o desejo de nadar
na argumentação, no som
[na eloquência .

Rogério Germani & sacharuk



além das tolas certezas

além das tolas certezas

se andar ao teu lado
fico ensimesmado
no teu riso absurdo

se andar ao teu lado
fico fundamentado
nos teus juízos sem prumo

leio placas na estrada
que não dizem mais nada
além das tolas certezas

leio traços da tua beleza
e minha tristeza arraigada
vai embora indefesa

sacharuk



embate


embate

andei por aí
de cueiros pandos
tascando pontos e vírgulas
no fiofó dessa vida

ela que vive perdida
provocando enganos
propondo hipóteses absurdas
coisas que nunca vi

a gente vende
e revende
jamais se arrepende
prossegue na luta
escravizado na labuta
disso o poeta não entende

sempre alguém diz
o quanto é desumano
chutar a bunda
de gente arrependida

já escutei fera ferida
já assisti garganta profunda
percebi um mundo estranho
nele sou só aprendiz

mas o que bate rebate
logo termina no empate
quando eu sair da gruta
chamo outro filho da puta
para um novo combate

sacharuk
Foto0207

noite misteriosa dos mitos


noite misteriosa dos mitos

na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por Ana
no espaço vazio
mas nada emana
no vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

na noite passada 
morri em lençõis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
que me faça libertado
de um encanto
que me faça libertado
de um desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

sacharuk


Papão

Papão

bicho Papão?
sei não
se é bicho bonito
ou se é bicho feio
se assusta com grito
gigante ou anão
herói ou vilão
ou se tem algum cheiro

mas comeu tanto pirulito
esqueceu da escovação
perdeu os dentes do meio

então onde mora o papão?
talvez no espaço infinito
maior que o mundo inteiro
vive lá com outros mitos
das tramas de ficção
no mundo da imaginação
papão não é brasileiro

não precisa ficar aflito
é só um bicho bobão
ele nem é verdadeiro

sacharuk



Vermelho


Vermelho 

Meu último gole no chá de flores na cantina do mercado público e consultei, em vão, o relógio do smartphone. Bastou perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorecia. Só isso me interessou no momento. Os afazeres estavam esgotados. 

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio à multidão. Aguardei a melhor oportunidade para cruzar a rua. É sempre assim! A espera, bem acomodada no cotidiano, já não cansa mais, e dizem: “o seguro, de tão velho, morreu”. 

Seu Ademir, da padaria, ergueu o corpanzil por detrás do balcão frigorífico e me passou o pacote de pães, mas não perdeu de vista a senhora baixinha que saía do estabelecimento em direção a banca 26. O padeiro bradou: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar, minha amiga. 

Aquelas palavras portavam uma estranha certeza. As coisas seriam novamente como planejadas, Seriam como ontem e como será durante a semana inteira. E, mais uma vez, Dona Edith acenou com a cabeça ostentando um sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante. 

─ É excelente senhora essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Disse o homem com simpatia bem adestrada enquanto terminava de fechar um pacote. 

Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas vendidas ali são livres de química agressiva, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arte e os apelos do marketing. Por fim, de certa forma, quase todas as imagens são ignoradas no caleidoscópico mercado público. 

Dona Edith escolheu maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisou cada uma antes de encaixá-las pacientemente nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas eram suas preferidas. Também dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escutou pacientemente a velhinha, enquanto catava vistosas peras importadas fragilmente empilhadas no compartimento vizinho ao das maçãs. 

Sempre que os administradores do mercado acendem as grandes lâmpadas brancas, religiosamente às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas passam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas eram muito vermelhas. 

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, toco a vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos longe de minha velha e, ainda, meu pai teve a desfaçatez de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez tivesse a intenção de não me ver andar, afinal, coisas que se movimentam sempre causam algum incômodo. 

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste no discurso duvidoso sobre reciclagem profissional. Enquanto acomodava as peras, metabolizou com contrição as lamentações de Dona Edith sobre Pedro e sobre ossos descalcificados. Deixou evidente no semblante o cansaço e a paciência que já lhe faz falta. Em breve esse pobre vai, tal os outros, padecer nas garras da previdência social. 

A velha, deslumbrada com a rara oportunidade de interação social, acabou por encher o seu cesto de maçãs. Um exagero. Ficou pesado e vermelho... bem vermelho. Queixou-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido minha ajuda. Hoje não se confia em mais ninguém e isso me constrange e intimida. 

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro, disse Edith a quem quisesse a ouvir. 

Ela abraçou aquele cesto de plástico como quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Percebi seus olhinhos marejados por ocasião do esforço ou, quiçá, tenha percebido a amargura que saltava da boca do meu colega Flávio. Palavras ditas ou silenciadas poderiam tê-la deprimido. Discursar sobre as lembranças distantes nem sempre consiste em boa ideia. Não é sequer assunto inteligente ou produtivo. Não entendo a razão dos velhos que perdem tanto tempo com isso. Depois, eis o resultado: tristeza, olhos marejados e vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. Elas só existem no pensamento de algumas pessoas. Há tanta gente nesse mundo respirando o passado. O curioso é que sobrevivem, tal quem bete os braços vigorosamente num mar revolto de lembranças. 

A velha de fisionomia enigmática tateou nervosamente a niqueleira lilás e espalhou um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. Notei a menina ensaiando a caricatura pintada com um sorriso amarelo enquanto contava as malditas moedinhas. Mas, não pude deixar de notar que Dona Edith desculpava-se em baixo tom e abusava de uma educação admirável. Os jovens contemporâneos abandonaram esse senso de urbanidade. A menina nada respondeu, e assim, não deu margem a qualquer conflito. 

Edith tomou para si a bolsa de plástico com suas frutas acondicionadas e despediu-se da moça, gentil e elegantemente, isentando-se de qualquer inconveniente que pudesse ter causado. O dinheiro tem suas peculiaridades. Por seu valor fazem-se as guerras. Por isso devem-se contar as moedas pacientemente sem esquecer que o cliente tem sempre razão. Aprendi no curso o que a menina aprendeu na sua rotina no mercado. Emprego não está fácil de conseguir. 

A velha valeu-se de ambas as mãos e juntou a bolsa de maçãs ao seu peito e, com as pernas curtinhas e sobrecarregadas, desceu a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, logo em frente aos portões do mercado. Era hora do rush e, como acontece todos os dias, ao fim da jornada de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas, ciclovias e rodovias. 

Tudo aconteceu tão rapidamente. A bolsa de plástico fino, com a logomarca gigantesca da 26 impressa em cores gritantes, não suportou o peso das maçãs e rompeu-se. Ocorre sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente e somente sobram as consequências para contar as histórias. 

Fiquei desorientado diante de tanta confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e o som ensurdecedor. 

E toda aquela gente com pressa? Todos os dias a história se repete: quando chegamos ao nosso destino só encontramos as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. São resquícios de um rio que já era. O filósofo tem razão. 

Uma maçã, apenas uma maçã... a única que despencou caprichosamente pelas escadarias, machucada, alcançou o tráfego e rolou tal uma bola, quicando um degrau por vez até cessar seu curso junto aos meus sapatos pretos de camurça. Olhei em volta e sequer cogitei recolhê-la. A sobra. 

Desde então, a lua não se escondeu mais de mim e fez as minhas noites mais longas, depois de esgotados os afazeres. 

sacharuk 





moldando a água


moldando a água

lavei tristezas
moldando a água
segurei as belezas
para que não fugissem
pelos vãos

se foram as mágoas
as incertezas
numa correnteza
fez com que sumissem
quando abri as mãos

na vida espalmada
fatalmente molhada
de dentro da pia
de água moldada
escrevi poesia

sacharuk

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Shinichi Maruyama

Capuchinho

Capuchinho

rubro era o seu pecado
tingido na vã inocência
passeava só sem licença
com docinhos confeitados
de sabores atávicos

trazia o cesto de enlaces
com sonhos de chocolates
deleites aos vícios
com poemas riscados
de versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

perseguia auspícios
cordeiros em pele de lobos
seduzidos aos sonhos
de comê-la

e ela pequena
melindrada cobria a cabeça
com rubros panos
para que o dó dos enganos
jamais lhe apareça

sacharuk



poema de água de rio

poema de água de rio

poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia

poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras mais feias

sacharuk

A Centopeia Dividida




A Centopeia Dividida

Tatuzinho era bruxo malvado 
e discutiu com a centopeia 
daí teve a péssima ideia 
de fazer um feitiço irado

Ficou escondido na areia 
praticou o ato mais feio 
seu feitiço dividiu ao meio 
e fez duas cinquentopeias

A abelha testemunhou tudo 
da porta da sua colmeia 
e convocou uma assembleia 
para tratar desse absurdo

Aquele tatuzinho era insano 
muito famoso em toda aldeia 
esperava a noite de lua cheia 
para traçar os seus planos

As cinquentopeias medrosas 
decidiram permanecer unidas 
mas estavam muito perdidas 
e nem se entendiam na prosa

Sob as penas de uma galinha 
o Piolho Velho era a liderança 
comentou que havia esperança 
se chamasse a dona Joaninha

Joaninha era boa feiticeira 
e talentosa na matemática 
decerto conhecia a prática 
de fazer centopeia inteira

Então a bruxinha competente 
com toque de magia esperta 
refez a centopeia completa 
e os bichos ficaram contentes

E o malvado do tatuzinho? 
Ah! Ele é muito teimoso 
em vez de ser mais amoroso 
prefere viver sempre sozinho

sacharuk

Beatriz

Beatriz

Seu rosto, branca tela em nu semblante,
Beatriz que, a mim, seu Dante, fez omisso.
Mostrou-se em todo o viço e o torturante
Requebro serpenteante a torna aquela

De olhares de gazela e seus rompantes
Com brilho de diamantes, de silícios.
Em frestas e interstícios balbuciantes,
Segreda-nos desplantes, minha bela,

O deus que me acautela e é tão gigante
Que faz mirabolantes meus suplícios
E remete-me aos vícios, oh, donzela:

Mulher que se revela e, ofegante,
Se dá exorbitante em sacrifício.
Se faz meu precipício, minha cela...

Magmah & Sacharuk



verdades e mentiras - acróstico


verdades e mentiras - acróstico

Verdade seria mentira?
Ensinada? Adquirida?
Revelada? Proferida?
Dominando o fermento da ira
Acobertando a realidade
Distraída? O que é real nessa vida?
E a palavra mentida?
Sucumbiria a verdade?

Entre polos, há dualidades...

Mentira seria verdade?
Escondida? Rebuscada?
Negligenciada? Disfarçada?
Tradução da falsidade
Incrustada nos mitos
Revelações retocadas
Argumentos não silogísticos
Seria verdade a mentira velada?

sacharuk

quebradas as certezas

quebradas as certezas

restarão absurdos
quando se partirem
minhas santas certezas

abraçarei-me sozinho
embriagado de vinho
barato tinto de mesa
com manufaturados salgadinhos
flavorizados com anilinas

contarei tristes histórias
sobre verdades divinas
verei idiotas memórias
num desfile de vento

meus dias não terão horas
e sequer um intento

sacharuk
 

as flores mantenho n'água

as flores mantenho n'água

dos que me foram caros
sumidos ou consumidos
tal os prazeres raros
perecíveis como as flores
não foram mais que amores
todos perdidos
depois de usados

foram amores frustrados
dilacerados rendidos
sutilmente escravos
da alcova de horrores
não foram mais que invasores
pretensiosos perigos
fatalmente enganados

seduzidos e fascinados
foram heróis e bandidos
no íntimo apenas atores
canastrões amadores
parasitas nocivos
patrocínio
das subvenções e agrados

as flores mantenho n'água
só para vê-las murchar
em seu vaso de mágoa
catando a luz pelo ar

sacharuk
Elena Markova Art



mão e contramão

mão e contramão

vieste na senil insistência
alvorotado na malícia
ofereci resistência
sou dessas não
fico armada na razão
não dou beijos sequer carícias
sem coesão sem coerência
nem ponto de referência
na contramão

vieste febril de demência
embasbacado nas delícias
adorando minha opulência
tal menino babão
salivaste como um cão
não dei ração sequer carniça
sem conclusão, sem premissas
nenhum pingo de inteligência
então vai ficar na carência
na contramão
só na mão

sacharuk

da lógica estrambótica incompreensiva das coisas

da lógica estrambótica incompreensiva das coisas

entro e saio da metafísica
chego pertinho da ética
vislumbro o traçado na lógica
insana cruel estrambótica

logo

tuas manhas são coisas
que minha cabeça não toca
a ti são moedas de troca
terror versus racionalidade
colagem de alguns fragmentos
inventam qualquer verdade

eu queria um apelo holístico
sensível e também silogístico
mas só revirei sentimento
enxaqueca gastrite lamento
e a maldita incompreensão
escambo entre o sim e o não

eu queria ir além da razão
sobre-humano divino ou ético
com premissa e conclusão
um lampejo profético
de inconformismo dialético
a fé numa puta falácia

também queria eficácia
saber juntar os caquinhos
e enquanto vivo sozinho
lerei versos de alegria
talvez eu cometa a audácia
e risque uma nova poesia

sacharuk


poema dos erros

poema dos erros meus olhos desenham letras do teu nome poesia de amor minha língua prova o gosto da tua boca poesia de amor portanto escrevi para ti o poema dos erros falei dos degredos do desvelo também sobre naufrágios no dia que leres ouvirás minha voz até posso te ver lendo meus versos com meu sorriso favorito tão divertido teu rosto iluminado até posso te ouvir dizendo meus versos num tom desconexo depois indagando o que resta a nós dois? tu podes saber eu posso sentir oh ohoh ohoh sinto o toque, linda ouço a tua voz oh ohoh ohoh sinto o toque, linda ouço a tua voz sacharuk



da nova beleza

da nova beleza

perderam a beleza das canções
nos clichês e gritos aparvalhados
dançarinas sacodem os melões
e cantores aflitos tresloucados

esqueceram a beleza da poesia
diluída em signos despirocados
que indistinguem amargura e azia
entre motes sacais e martelados

desprezaram a beleza da oração
no templo que vende absolvição
forjam milagres por uns trocados

esconderam a beleza da empatia
o certo agora é saber da quantia
que rende um crânio esfacelado

sacharuk


a beleza é o reflexo da alma - acróstico

a beleza é o reflexo da alma - acróstico

Ah, ninguém tem certeza

Beleza põe mesa
E não põe
Leva na cara a impureza
E consome
Zomba da realeza
Ao espelho nega e some

E quando pega de assalto

O preço é mais alto

Ri da imagem no espelho
Enaltece a ironia
Fala do que é desparelho
Louva a psicologia
Evita os olhos vermelhos
X-raio na luz do dia
Oculta a poesia

Descobrimos no ato
A lógica do inexato

Alma que traz alegria
Liberdade e felicidade
Manufatura da iguaria
A beleza de verdade

sacharuk