não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

amores líquidos🎼🎻

amores líquidos🎼🎻

amores líquidos
sabem ouvir silêncios
são cera que percorre
as cordas dos violinos
derramam seu opus
sobre as águas turvas

amores líquidos
desafiam a secura
que parece os corpos
não temem a chuva
que alastra em ondas
de tantos capítulos

amores líquidos
donos da própria vontade
fluem mares indômitos
na corrente da liberdade
emergem à superfície
para beber poesia

amores líquidos
banhados nas mágoas
onde se juntam as águas
onde não há calmaria

sacharuk

fotografia por Ellen Cuylaerts




das alturas


das alturas

enfrento as forças que ameaçam
desvio de ondas que não banham
das razões
a que eu desconheço
morro nas tramas que me apanham

são tantos ares
eu nem respiro
em tantos lares
eu já não entro
invado espaços que nem habito
moro em zonas que não frequento

viajo alturas que não alcanço
trago loucura para o remanso
sou prisioneiro da liberdade

de asas seguras
eu não canso
a vida é dura
eis o encanto
não é utopia a felicidade

sacharuk

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um desejo me consome

um desejo me consome

um desejo me consome
do beijo da fome
pressentir tua alma

do desejo animal
do sonho
tanto sensual
outro tanto bisonho

não é isso somente
o que me motiva

plantei uma semente
de sempreviva
no fundo do canteiro
do meu quintal
entre a arruda
o jasmim e a sativa
e espero o fim
do ciclo outonal

sacharuk

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quatro duos e tua boca


quatro duos e tua boca

tenhas dileto cuidado
com o estranho poema

paira passivo
para ser aniquilado

vista-te das escolhas
das minhas das tuas das todas

na nuvem risquei quatro duos
transmutei beijo fátuo

em tua boca

sacharuk

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até a noite voltar a ser sol

até a noite voltar a ser sol

passeio os dedos
dentre teus cabelos
expiro sobre tua pele
faço soprar brisa leve

cantarolo para teu sono
uma cantiga sem razão
acerca de amores bandidos
e o canto navega perdido
tal eco na arrebentação
para distante do farol

seguro na tua mão
te levo ao fundo do oceano
até a noite voltar a ser sol

sacharuk


terraplanismo

terraplanismo

  chato
          pensar plano
  na terra que acaba
       no final do ano
   na ponta do rumo
       de pedra batida
  e some onde cruza
   o fio do horizonte
com a linha da vida

pior que chato
                é vexame
 da ideia desnutrida
    do olhar obsceno
      tonto e calhorda
    que vê só a borda
           do terrapleno

sacharuk



lixo urbano

lixo urbano

declarei meu amor
na lista do supermercado
sem peso sem vida
cruelmente lançado
no jardim suburbano
rola bosta na terra
como cachorro abandonado

morreu sufocado
rimando daninhas ervas
com baganas de cigarro
musa reclusa na vagem
tapada de mato

sacharuk



flores de sexta-feira

flores de sexta-feira

falo com paredes
escuto as palavras
observo impressões
e nessa à direita
uma passagem estreita
leva ao jardim encantado

onde colhes orquídeas
e as flores esquizofrênicas
de sexta-feira

se a lua incide faceira
ilumina a câmara pela janela
emoldurada pela cortina
a parede branca é a tela
e as nossas mãos
imitam o voo das aves meninas

sacharuk



interlúdio do tempo

interlúdio do tempo

no relógio atemporal
seis ou sete minutos
para apenas viver
não querer nada mais
o amor é o conforto
transparência é a cor

os egos em paz
a vaidade sem império
deus está morto
e os corpos sem dor
entrecruzados olhares
vibrações em espectro
induzem mistérios

sacharuk

painting by Alicea Simone


Branca coberta de andrajos

"Grimm Fairy Tales" - Gregory - Gunderson - Ruffino


Branca coberta de andrajos 

Branca coberta de andrajos
a tez reluzente porcelana
disfarce de musa no parnaso
não era promessa soberana 

Branca mimava aos farrapos
desenbaraçadores das minas
a donzela cozia os trapos
atraia animais nas campinas 

Branca sequer foi princesa
seu algoz esqueceu a frieza
e pousou a faca na bainha 

Branca renegou a nobreza
entregou sua vida à pobreza
para ser uma eterna rainha

sacharuk

espelho cego

espelho cego

vidro estilhaçado
perpassa sua laringe
ela engole o espelho
treina cuspir os cacos
na cara da cidade

criva sem piedade
o que está entalado
nos gorgomilos
expõe os seus fatos
ao impiedoso inverno

engole por teimosia
remete aos infernos
todos os dias
rechaça verdades
repleta de ego

reflexo engasgado
sequer na calmaria
consegue se ver

sacharuk

Pablo Picasso – Girl Before Mirror

roda-viva


roda-viva

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

sacharuk

rodaviva


essencial

Essencial

Essencial é teu sorriso aberto
tua alma num frasco
nosso encontro em versos
em qualquer direção, tempo
[ou espaço

Natural como o afeto
que acalma em seu laço
recôncavo e reconvexo
qualquer conjugação, momento
[ou lapso

Necessário feito o ar
é tua musa em cadência
o lastro direito de sonhar
em qualquer estação, luz
[ou frequência

Que flua em teu mar
vocábulos na correnteza
e o desejo de nadar
na argumentação, no som
[na eloquência .

Rogério Germani & sacharuk



além das tolas certezas

além das tolas certezas

se andar ao teu lado
fico ensimesmado
no teu riso absurdo

se andar ao teu lado
fico fundamentado
nos teus juízos sem prumo

leio placas na estrada
que não dizem mais nada
além das tolas certezas

leio traços da tua beleza
e minha tristeza arraigada
vai embora indefesa

sacharuk



na rota do estupor

na rota do estupor

Dona Quifêrva está velha 
pela casa insalubre
arrasta esfarrapadas pantufas 
com odor de cachorro molhado

o seu grande legado
a essas alturas da existência 
é o aprendizado
de que comer e dormir
talvez dormir e comer
evita medidas drásticas

introjeta emoções homeopáticas 
nas novelas televisivas 
e nos programas de auditório
quanto mais pobres de utilidade
melhores serão
resguardam a sensibilidade 
do cansado coração
que lá essas coisas
já não anda

eis que troca as demandas 
por um café reforçado
dois ou três pães franceses 
quentinhos e estufados 
com presuntos e queijos

seu único desejo
habita entre a cama e a mesa
na rota do estupor
donde tem a certeza
se um dia desses ela vai
nesse dia vai sem dor

sacharuk





piperina

piperina

ardia malagueta
na ponta da língua
formigava papilas
solvia sob a saliva

hálito
mucusa
ardência em cascatas
que abusa
na boca

sacharuk




martelo

martelo

decerto alguns dias
são mais amargos
noutros vertem
doces fofuras

nos primeiros
tomo uns estragos
nos restantes
é pinga pura

sacharuk


margarita

margarita

margarita das ancas
redondas
madrepérola pele
opaca leitosa
pérola esfera
lúcida curva
a virgem translúcida
de concha e alcova

sacharuk

ostra

opus 54

opus 54

lira e arpejo
gotejam desejos
diluído gelo
dos segredos
da noite

a ponte o plano
o recanto
o semblante
a lembrança
vive num canto
do horizonte

declinam dedos
a sentença
e o açoite
valsam enredos
dos segredos
da noite

lira e arpejo
recital ao piano
pingam desvelos
dos segredos
da noite

sacharuk


casal-schumann

dois dedos

dois dedos

articuladas mãos finas
encenam a coreografia
a destra arranha sem medo
a sinistra dispensa sentido
saliva dois longos dedos
e prova o anel proibido

sacharuk

clichê à beira-mar

clichê à beira-mar

os espaços vazios
são falhas
são rasgos
e vãos
teu meio
sangra meu nome
inala meu cheiro
mistura de cor
derramados desenhos
alaranjados

entre luzes
espaços levam
até tua estrada

silhueta deitada
clichê à beira-mar
traçado horizonte
as ondas percutem
se o mar é distante

trazem para mim
versos trôpegos
de doçura e felicidade

sacharuk


cobra

cobra

a face deitada
sobre o umbigo
fareja a orla
águas de lua
a mata cerrada
modelo atípico

caudalosa
vontade de rio
enrosca tal cobra
inocula e penetra

sacharuk


onde vive o amor


onde vive o amor

espero algo de ti
mas nunca sei 
dizer o que é

sei que espero algo de ti
sequer imagino 
que nome isso tem

espero algo de alguém
minha alma 
percorre desterros

sempre espero algo de alguém
sempre espero 
alguma coisa 

procuro nos jardins
na casa de verão
entre teus cabelos
entre os vãos
bem dentro
onde vive o amor

eu sei que vejo uma cor
não sei dizer
que cor é

minha mente mente sempre 
sempre visita um lugar
e não sei ao certo
onde é

procuro nos jardins
na casa de verão
entre teus cabelos
entre os vãos
bem dentro
onde vive o amor

bem dentro
onde vive o amor

sacharuk




embate


embate

andei por aí
de cueiros pandos
tascando pontos e vírgulas
no fiofó dessa vida

ela que vive perdida
provocando enganos
propondo hipóteses absurdas
coisas que nunca vi

a gente vende
e revende
jamais se arrepende
prossegue na luta
escravizado na labuta
disso o poeta não entende

sempre alguém diz
o quanto é desumano
chutar a bunda
de gente arrependida

já escutei fera ferida
já assisti garganta profunda
percebi um mundo estranho
nele sou só aprendiz

mas o que bate rebate
logo termina no empate
quando eu sair da gruta
chamo outro filho da puta
para um novo combate

sacharuk
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Metade


Metade

Tenho pra ti meio poema
escrito meio sem jeito
sobre as pernas meio abertas
meio suando entre as letras
de uma escrita meio atrevida
a espera de uma linha para se esparramar
meio vestida...ou totalmente despida

e por meio do meu meio
que tu me chegas inteiro
murmurando meias palavras
meio sem meias medidas
com intenções meio incertas
metendo a metade a me completar
em versos de poesia
meio proibida...ou totalmente perdida

Angela Mattos & sacharuk



para saber-te

para saber-te

espero ler-te
numa autobriografia
percorrer tuas horas
deitar sobre as folhas
da tua caligrafia

espero ver-te
nua e perdida
no labirinto obscuro
da minha poesia
onde faces sombrias
são jogadas ao mundo

espero entender-te
meus olhos intrusos
pousam fotografias
nas porções coloridas
nos poemas silentes
nas imagens da vida

sacharuk



Não há limites no amor

não há limites no amor

diz que não há limites no amor
até quando ele vive longa espera
supera os ranços da adversidade
impera sem distância e sem idade

amor rasga a carne feito fera
amor clichê premiado feito flor
amor reflexivo feito o amor
amor giro incontido feito Terra

diz que não há limites no amor
quando ele desconhece a verdade
é sentimento livre que encerra
o intento genuíno ou impostor

amor pinta a libido feito cor
amor corta o peito feito serra
amor pedra tão dura feito jade
amor rebrota em viço feito verde

diz que não há limites no amor
se ele tanto quer felicidade
o amor vê fagulhas nas quimeras
amor que vive paz e vive guerra

sacharuk

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merdolato de cloroquina

 merdolato de cloroquina


máscaras caíram

a pandemia desnudou

o  farto egoísmo

a  hipocrisia

a idiotia asinina

feita de negacionismo

ivermectina

e merdolato de cloroquina


contra o obscurantismo

ainda não há vacina


sacharuk


herbalização

 herbalização


quando medito

 maldigo o mal

enquanto cultivo

jogo sementes

alecrim camomila

calêndula verbena

na terra urgente

cantarolo o canteiro

entre bárbaros desafinos

e o limoeiro

quedam frutinhos

sobre as ervas perenes

no  fundo do terreiro


sacharuk



não uses guardachuva

não uses guardachuva

Se queres aqui estar, é isso o que importa. Qualquer sentido aguça a existência e, não fosse assim, inócuo seria viver.

Maculamos tudo o quanto tocamos, contestamos as verdades, não somos divinos e sequer divindades. 

Coisas divinas são precárias, não têm a semente de ser, são vazias de ser. Tal os deuses que, superiores, jamais foram nada

e habitam o universo dos mitos. São enigmas ou signos da farsa de existir para além do que aqui está.

Portanto te digo: Se fores à chuva, não te escondas.

sacharuk


qualquer dia

qualquer dia

desprendo a mim liquefeito
misturado  aos contornos perfeitos
dos teus bancos de areia

desprendo a mim
em vapores de luzes
desnudo dos desadornos
liberto das cadeias

desprendo a mim pelas veias
uma teia flexível e resistente

desprendo a mim tão valente
e a morte empunha a gadanha
à mancheia

desprendo a mim qualquer dia
lançando ideias
na lagoa da poesia

desprendo a mim qualquer dia

qualquer dia

sacharuk

fotografia: Jenifer Amaro


halo de lua 🌒

halo de lua 🌒

aos sussurros
rasgou-me o ouvido
clichês sobre a lua
e odor de perfume barato

aquele olhar excêntrico
å renuncia da lucidez
contornou a auréola
revelou a insensatez
do meu mamilo

sacharuk

painting by Lilian Patrice


a mente dança

a mente dança

a mente dança
o corpo dói
despencam harmonias
por ladeiras mansas
a mente insiste lembranças
o corpo reclama descanso

morro enquanto danço
minha alma intui
versos de poesia
murmúrios de barganha
pelo sopro do vento
e cruzar as distâncias
com os pés fincados
no chão

enquanto dança a mente
o corpo doente
deságua
desanda
mas a mente canta
enquanto traga o tempo

o corpo lento
cadente
mergulha
afunda
mas a mente nada
enquanto resta a vida

a mente dança
sobre a carne
a moléstia
dolorida
e convida à dança
o corpo reclama o remanso

sacharuk




explodida das veias abertas

explodida das veias abertas

tu és medo em estrofes diretas
quando a sina se torna agonia
tantas letras e um só argumento
a versar lágrimas e ventos

tu que nasces no ventre do dia
enredada nas horas dispersas
quando a luz retorna inquieta
encoberta se torna sombria

tu és verve cingida em lamentos
a acidez que ruiu monumentos
perfilaste ideias cinzentas
em busca da própria alforria

tu tens asas que movem dispersas
e eu te faço sublime poesia
te amparo nua em rebento
plasmo versos no teu firmamento

tu que nasces sem sabedoria
explodida das veias abertas
quando flui a vida repleta
entre as guerras e a calmaria

sacharuk

fotografia: sacharuk

naquele dia

Naquele dia

Lembro quando a natureza, naquele dia tranquilo de fevereiro, derramou a avalanche d'água. Vinha pelo chão a torrente que portava a essência de múltiplos rios, todos misturados, de resíduos e densidades vertentes. 

O destino é inexplicável e parecia imbuído de um fim. Naquele dia eu o amaldiçoei ingrato e injusto.

Na iminência do desastre, os pais procuravam seus filhos, os filhos aos pais, e, por fim, aos melhores amigos. Corriam e nadavam o quanto podiam, mas paravam sempre que suas mãos estendidas se faziam necessárias. Mãos corajosas que salvaram vidas.

Experimentei certa consciência de existência, algo que, até aquele dia, eu desconhecia.

Emanava um signo divino de cada mão voluntariamente estendida. Eu vi as lágrimas a lavar as individualidades e se mesclar ao movimento insano das águas. Mas, as lágrimas sequer interessavam. 

Lembro dos helicópteros a sobrevoar o entorno. Os militares instruiam os populares através dos megafones. Suas vozes embargadas pronunciaram instruções precisas e objetivas. Jogavam cordas em meio àquele oceano quase artificial que se instituiu na zona urbana da cidade. 

Vi um jovem lutar contra a correnteza furiosa enquanto tentava atar uma das cordas ao corpo frágil de sua avó. Vi crianças elevadas ao telhado das casas, junto aos seus cães. Protegiam pequenas sacolas que comportavam os documentos e as economias das suas famílias.

Sobre as telhas, as crianças nada podiam fazer. Apenas aguardavam pelos pais que talvez não voltassem.

Fez-se na arborizada praça central uma grande piscina. O balanço infantil de madeira pintada em vermelho e o escorregador azul, agora boiavam soltos pelas águas. De meros brinquedos, agora serviam de amparo e descanso aos que lutavam pela sobrevivência. 

Naquele dia eu, incrédulo, vi a essência da vida a se destemperar líquida. Eis que a crueza dos fatos enfraquece o dom de prosseguir, de criar. 

Estava tudo lá, tão destruído, enquanto eu observava da janela de vidro do terceiro andar. E hoje lembro do dia que há tempos quero esquecer. 

Todavia, de cada molécula de medo fez-se nova vontade de existir. Pois agora está novamente tudo lá, reconstruído e recomposto, e ainda mais. A praça tem novos brinquedos, mais do que havia antes. As árvores que quedaram deram lugar ao viço de uma nova natureza planejada e linda. Na periferia, uma nova vegetação se insinua, constituída pelo dna estranho trazido pelas águas viajantes que se juntaram. 

Era para ser novamente. E assim é.

Uma força descomunal argumentou com o tempo e recriou vida nos canteiros ameaçados pela morte e pelo medo.

Naquele dia eu soube que das sementes da gratidão, sempre brotará nova coragem para recomeçar. O tempo, invariavelmente, tem a razão.

sacharuk




contos com cloroquina 1

contos com cloroquina 1

Chechele chegou como criança concebida cidade Ceilândia, contudo criada cidade cearense chamada Crato. Chechele, cresceu comunada com conhecidas criaturas clonadoras cartão crédito, chamados comumente como cartaozeiros. Cartaozeiro consiste com carreira concorrida, cuja característica confere com cooptar certas criaturas cearenses, cachaceiros comuns com cabeça confusa, com chance conhecer célebre ciência criminosa condizente com clonagem cartões. 

Clonando cartões, Chechele conheceu certo cidadão cafajeste, chefe comandante chinelícias cariocas. Cristão convicto, capitão Coisonauro cuidava carreira como congressista cangaceiro, colaborando com crime continentalmente conhecido como "cortadinha". 

Coisonauro casou com Chechele.

Conforme Coisonauro considerou confirmar casamento, consumiu cinco comprimidos celestes, composto com cloridrato cloroquina. Concentrado, centralizou cabeça cacete centro coxas cônjuge Chechele. Contudo, cacete colapsado caiu como coisa chocha, cuja cabeça continuava cabisbaixa, conquanto corpo Chechele contorcia clamando coisa chamuscante. Coisonauro, culpou China comunista.

Coisonauro comandou Chechele colocar camisola cinzenta cobrindo calcinha, cujo chefe culto cristão consagrou conquanto conversava com Cristo. 

Carente carinho, Coisonauro carecia certo consolo. Com celular, chamou camarada coronel Courão.

Conforme Courão chegou, Coisonauro, com cueca caída, convidou coronel comer.

-Come Courão, come! Contudo, come com calma, calkey? Conquanto cheiro cloroquina.

sacharuk

curso

curso

da nascente cristalina
jorra curso caudaloso
segue o leito da sina
sangra dor escarlate
coloriza seus líquidos
em afluências límpidas
vertentes em uníssono
entre a ganga embrutecida

sacharuk


a dona do pergaminho

A dona do pergaminho

Ela andava pela trilha de areia que desembocava na praia. Todavia, no meio do caminho, encontrou uma caixa.

Dentro da caixa havia um pergaminho enrolado e, a mulher, tanto curiosa quanto insegura, pretendeu abri-lo. E hesitou. Pensou que quiçá a escritura encerrasse segredos de outros tempos. Quiçá o anúncio de respostas há muito esperadas. Podia apenas discernir acerca da antiguidade aparente daquela estranha e bonita caixa. 

Abri-la ou dispensá-la? Considerou afastar-se da caixa e passar a cuidar dos afazeres. E, por fim, resolveu que distanciar-se do objeto a ajudaria a conduzir a decisão.

Voltou para casa. 

Lavou a louça e, logo após, as roupas sujas. Passou a ferro. Dobrou cuidadosamente cada peça. Cada ato marcado por exagerada lentidão. Sua mente teimosa recorria invariavelmente à imagem do objeto encontrado na areia. Não pensava em nada mais. 

Voltou à praia.

Descobriu a caixa. Rompeu cuidadosamente as dobradiças oxidadas e quebradiças. 

Lá repousava a velha escritura, caprichosamente enrolada no pergaminho dos tempos.  Passou a desenrolá-lo com delicadeza. A cada volta, revelavam-se signos e caracteres grandes e claros: 

"Partiste em busca de vida, mas encontraste experiências. Das boas e das más, criaste em ti o dom da coragem. Logo, não te surpreendas se dentro de uma caixa perdida encontres a possibilidade do medo e da incerteza. Saberás que nem todo o anúncio de vida estará expresso nas palavras que tanto queres e procuras. Se aberto o pergaminho, leia-o. Se aberta tua alma, vista-a!  E tenhas o ímpeto da curiosidade que te trouxe até aqui. E agora, retomes teu curso nas areias e não te importes com a direção dos ventos. Sejas apenas a dona do teu pergaminho."

sacharuk


tua geometria

tua geometria
um crop quadrado
o retrato
teus membros oblongos
formavam retângulos
e a perspectiva
revelava ângulos
emparelhados
de picos eriçados
coroando os redondos
sacharuk


autofake

autofake

sou autofake de mim
e por fim
eu sou eu por si só

então uso pó
botox e photoshop
eu quero ser pop
e ficar bem bonito
último grito
da moda

meu autofake é foda
e eu amo my selfie

sacharuk



nos anais

Nos anais

Reger o continente depravado
É missão de sinistros animais,
Assassinos, ladrões e generais,
No parlamento esplêndido do Estado!

Organizam discípulos desleais...
A vil conspiração do Consulado
Por homens de respeito invalidado
Em quartéis, ministérios, catedrais

São bestas que figuram nos anais
Presidentes, senadores, deputados
E os juízes, assessores e cardeais

E o povo indolente e seviciado
Dá de costas, de frente e de lado
E vez por outra ainda pede mais.

David Moura & Sacharuk


almas de vento

Almas de Vento

E de que metade nos assemelha o sabor?
a coloração tácita do cérebro
um elo entre o visível e o invisível

- Quem somos nós?

Prendemos versos entre anéis do infinito
onde o fogo arde a dança néscia
um alimento ao irreal impossível

Não estamos sós!

Poetas das entranhas benignas
malditos seres com almas de vento...

- Quem somos nós, rastejantes?
ou voadoras flechas do intelecto?

Somos os prestiditadores dos signos
bardos confinados às letras e cantos
não estamos sós, mesmo distantes
nas sonhadoras curvas do dialeto

Inquietamo-nos sem saber...
aquietamo-nos por preguiça!
somos o raio que simboliza
e a dor que agoniza
inocência e malícia
de escrever.

Márcia Poesia de Sá & Sacharuk

noite misteriosa dos mitos


noite misteriosa dos mitos

na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por Ana
no espaço vazio
mas nada emana
no vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

na noite passada 
morri em lençõis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
que me faça libertado
de um encanto
que me faça libertado
de um desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

sacharuk