não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

Restituição de bagagem

 Restituição de bagagem

No saguão do terminal 2 do aeroporto, o casal apressado para diante da grande tela eletrônica que reveza publicidade bancária com as informações pertinentes ao desembarque dos voos. A mulher veste confortável traje esportivo e traz uma menina de cinco anos pela mão firme. Logo, o homem encaminha-se calado até a esteira de número seis, onde malas de diversas cores e tamanhos desfilam e exibem etiquetas brancas aos seus prováveis proprietários.

A mãe e a criança agora escolhem chocolates na loja próxima ao portão de saída, enquanto o homem acompanha atentamente o passeio caleidoscópio das malas,  até que no súbito, estende a mão esquerda em direção à alça da mala amarela encardida que se exibe logo à sua frente. Ao mesmo tempo, outra mão impetuosa, ornada de anéis delicados e unhas vermelhas, tenta alçar sem sucesso a mesma mala. O disputado objeto escapa às vontades e segue seu trajeto mecânico, ao passo que os olhares surpresos dos dois interessados se entrecruzam. Suas faces sorriem constrangidas. O homem balbucia uma palavra curta e a mulher responde com outra.

Andando sem graça, afastam-se alguns poucos metros.

Quando o mecanismo retorna a mala encardida, a mulher decidida a pega com rapidez e se retira guiando-a sobre as rodinhas e batendo ritmadamente os saltos sobre o mármore.  O homem, que já não atenta à esteira, hesita por um instante e depois a segue.

Ele não demora a reencontrá-la frente ao táxi, ao fim de uma curta faixa de pedestres. Ainda distante, parece chamá-la dizendo algo e acenando brevemente. Aproximam-se e olham-se demoradamente. Quando ele quer iniciar a dizer algo, as pontas vermelhas de dois dedos pousam sobre seus lábios que, imediatamente, se calam.

Ela empurra a mala para dentro do táxi, embarca e parte, enquanto ele a observa se afastar.

 De volta à esteira, ele observa estático uma única mala passando à sua frente repetidas vezes. A mãe e a menina brincam no saguão.

sacharuk

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