não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

A leonina

A leonina

Tão logo a primeira tormenta da primavera deu trégua, a camareira do Hotel Campanile não desejou voltar para casa e preparar o jantar para Jonathan. Preferiu percorrer a alameda do parque Stanton. Seguiu alternando os passos revestida de tanta verdade que pouco percebeu as adoráveis árvores caprichosamente dispostas à margem ou seus sapatos lamacentos que chafurdavam nas poças. Egocêntrica, Melissa percebia-se pouco capaz de quedar-se à paixão. Confusa, ainda que satisfeita, arqueou o cantinho direito da boca cor-de-rosa desenhando um meio sorriso divertido. Até mesmo aos intuitivos e determinados, essas estranhas malhas que o destino tece envolvem surpresas. Ela que, invariavelmente, reluta em perder seu tempo aos estados depressivos da alma, rende lealdade aos próprios sonhos, somente a eles é devedora. Esse sentimento tão avassalador é artefato muito raro, então soltou os cabelos. Desejou experimentar o vento que mesclou os fios negros e cacheados aos brancos que sobressaiam tal tímidos intrusos. A indiferença é cansativa e Melissa a odeia. Permitiu que a longa saia voasse livre e descobrisse uma deliciosa porção das coxas morenas. Não importaram as consequências. Ela que jamais teme ser impulsiva, não cedeu às duras penas da mentira. 

Ao final da alameda há o córrego. Foi lá que a mulher afogou suas razões no calor úmido de uma boca. Sentiu a indiferença dissipada ao aperto firme das mãos que pousaram sobre suas nádegas. Não havia tempo a perder. 

sacharuk



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