não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

Bairro Renascimento

Bairro Renascimento

Samanta não desalinha nos saltos altos. Anda graciosa e sorridente alternando as longas pernas coroadas pela graciosa minissaia. Absolutamente tudo, em Samanta, transpira certa audácia. 

Segura a bolsa com displicência, não teme os assaltos. Transita livre entre os traficantes e milicianos do bairro Renascimento. 

Lembra sempre do pequeno bairro em que nasceu, na cidade vizinha de Santo Antônio. Foram seus dias mais difíceis. Mas, agora não há mais do que reclamar. Tiago, o filho, nunca mais passou fome e já tem um bom plano de saúde.

Acorda tarde todos os dias para pegar o menino na escola e, depois, o deixa aos cuidados de Dona Diva, a avó, que assume o neto e a casa enquanto a filha trata dos próprios afazeres.

Samanta sempre soube, intimamente, que a beleza que lhe caia muito bem e seria a razão do seu sucesso. Todavia, Samanta é apenas outro clichê urbano.

sacharuk

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