não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

clichê à beira-mar

clichê à beira-mar

os espaços vazios
são falhas
são rasgos
e vãos
teu meio
sangra meu nome
inala meu cheiro
mistura de cor
derramados desenhos
alaranjados

entre luzes
espaços levam
até tua estrada

silhueta deitada
clichê à beira-mar
traçado horizonte
as ondas percutem
se o mar é distante

trazem para mim
versos trôpegos
de doçura e felicidade

sacharuk


A leonina

A leonina

Tão logo a primeira tormenta da primavera deu trégua, a camareira do Hotel Campanile não desejou voltar para casa e preparar o jantar para Jonathan. Preferiu percorrer a alameda do parque Stanton. Seguiu alternando os passos revestida de tanta verdade que pouco percebeu as adoráveis árvores caprichosamente dispostas à margem ou seus sapatos lamacentos que chafurdavam nas poças. Egocêntrica, Melissa percebia-se pouco capaz de quedar-se à paixão. Confusa, ainda que satisfeita, arqueou o cantinho direito da boca cor-de-rosa desenhando um meio sorriso divertido. Até mesmo aos intuitivos e determinados, essas estranhas malhas que o destino tece envolvem surpresas. Ela que, invariavelmente, reluta em perder seu tempo aos estados depressivos da alma, rende lealdade aos próprios sonhos, somente a eles é devedora. Esse sentimento tão avassalador é artefato muito raro, então soltou os cabelos. Desejou experimentar o vento que mesclou os fios negros e cacheados aos brancos que sobressaiam tal tímidos intrusos. A indiferença é cansativa e Melissa a odeia. Permitiu que a longa saia voasse livre e descobrisse uma deliciosa porção das coxas morenas. Não importaram as consequências. Ela que jamais teme ser impulsiva, não cedeu às duras penas da mentira. 

Ao final da alameda há o córrego. Foi lá que a mulher afogou suas razões no calor úmido de uma boca. Sentiu a indiferença dissipada ao aperto firme das mãos que pousaram sobre suas nádegas. Não havia tempo a perder. 

sacharuk



poesia primeira

poesia primeira

poesia primeira
parafraseia pássaros
produz palavras pueris
por profissão

prodigioso poeta
pálpebras pesadas
pretas pintadas
piscam por pão
pedacinhos pontuais

poesia primeira
pode pairar prosaica
percorrer parágrafos
paradoxais

poisa plena
pura perplexidade
provê paixão por propósito
plenitude por pertencer

sacharuk

Painting by Ericamaxine Price

O eu outro



O eu outro

Vê o espelho à tua frente. É mágico! Esbelto é o reflexo ao olhar traidor. Quebra-o!

sacharuk

quid pro quo

quid pro quo

cruzou águas imensas
deitada na sua canoa
desenhou com o dedo
mil promessas
riscadas nas nuvens

havia vazio em seu meio
uma vertigem
certa dor um receio
não era medo
horizonte quebrado
esse vazio tinha nome
tinha cor tinha cheiro
abria sombras aladas
para voar com as garças

ela viu de tão perto
que o nada é o nada
e que todo o nada
esvazia repleto
transborda tão cheio
de vazios incompletos

sacharuk




teu toque tua voz

teu toque tua voz

     sou maluco no jeito
que acarinhas minha face
fotografia de enlaces
estéticos efeitos

sei o quanto bem sabes
   meus olhos te falam
       o escuro inunda
           podes ouvir
   o que os sonhos dizem

sinto silêncio em mim
          se me olhas
          tal olhas agora

vasculho vestígios
         distâncias afora
 cheiro de mato
      as linhas doces
      das tuas  mãos
 falam mais que a voz

sacharuk


versos de néctar

versos de néctar

corpo sim
             de dentro para fora
tal orvalho na aurora
sol em luto
amor em palavra
escorre pelos cantos
                dos muros

verte umidade
quando acontece
o líquido fel                   
          desce do céu
derrete os metais

lindo sim
a pegada e a gana
os sussurros fatais
      o assalto das vontades
        desintegração dos poros

e os corpos
               envoltos pela cintura
bailarinas loucas
     serpentinas impuras
              de livre poesia

a língua pronuncia
     versos de néctar
         plenitudes na boca

sacharuk





a mediocridade da obediência

a mediocridade da obediência

o pastor abençoado
cultiva estereótipos
do mundo das criaturas
de boa vontade
onde as coisas  são puras
não admite a diversidade

o pastor abençoado
não foi transformado
pela cultura
sequer convencido
pela ciência
segue os preceitos
da sua crença
dorme decorando
as escrituras
na mediocridade
da obediência

sacharuk

o desejo e a fome

o desejo e a fome

alucina-me no ardor
desse odor tão sublime
absolve minha coragem
e envolve minha face
na profundeza das sombras

quando a bifurcada língua
irrompe e logo blasfema
e como ágil serpente
inocula no teu sexo

entre as coxas me perco
acho que  nunca me acho
onde o desejo é presente
a fome nunca descansa

sacharuk


anel de tucum

anel de tucum

confesso cinzentos medos
ensino-te segredos
do verde chimarrão
do amanhecer ao sereno
e o sol amarelo
a queimar nossos vícios

a noite azul fria
aquece nossa estalagem
quando envolves meu dedo
reluzindo tua graça
na singela inscrição
delicado anel de tucum
para selar compromisso

perpetuo meu nome
no centro da morfologia
que demarca tua nuvem
e depois do café
ainda regas as flores
do meu róseo jardim

e por fim
na lagoa da poesia
eu colho as cores
que te sinto

sacharuk


androfagia de amor

androfagia de amor

isento do egoísmo
morder-se-ia o louco
no antebraço das impossibilidades
o rasgo sangrento
naco de carne
doce exorcismo
de amor violento

sacharuk



nada novo

nada novo

o antigo falou que o novo
tem nada de novo
só muda o escopo do roubo
o antigo enchia a pança
prometia pujança
e só dava esperança
e o novo
provou que tem nada
de novo
só muda o escopo do roubo
junta milícia e militância
pra tomar pirulito de criança

sacharuk


versos de viés enfadonho

versos de viés enfadonho

pelos dias esquisitonhos
perpassa grande alegrura
de sabonetar-te inteira
baunilha e laranjeira

liberto das lagrimaduras
viajante eu parto no sonho
escrevente de versos bisonhos
na tua púbis de capinadura

quando percorro tuas cadeiras
subo dos pés até as cumeeiras
a poetar pela tua textura
alguns versos de viés enfadonho

abraço aos desejos medonhos
mergulhados nas tuas farturas
a brincar nas delícias faceiras
balbuciantes palavras rameiras

e quando a coisa fica mais dura
quer entrar e sair sem estrondo
nos recantos de encantos redondos
a jorrar os fluidos da cura

sacharuk

poema dos erros

poema dos erros meus olhos desenham letras do teu nome poesia de amor minha língua prova o gosto da tua boca poesia de amor portanto escrevi para ti o poema dos erros falei dos degredos do desvelo também sobre naufrágios no dia que leres ouvirás minha voz até posso te ver lendo meus versos com meu sorriso favorito tão divertido teu rosto iluminado até posso te ouvir dizendo meus versos num tom desconexo depois indagando o que resta a nós dois? tu podes saber eu posso sentir oh ohoh ohoh sinto o toque, linda ouço a tua voz oh ohoh ohoh sinto o toque, linda ouço a tua voz sacharuk



milagre

milagre

os paradigmas estão velhos
só conduzem ao nada
trepamos em tantas escadas
não alcançamos o mistério

se há uma terra prometida
é a evolução traduzida em ciência
e o grande milagre é a experiência
de andar sobre a bosta nessa vida

sacharuk


da nova beleza

da nova beleza

perderam a beleza das canções
nos clichês e gritos aparvalhados
dançarinas sacodem os melões
e cantores aflitos tresloucados

esqueceram a beleza da poesia
diluída em signos despirocados
que indistinguem amargura e azia
entre motes sacais e martelados

desprezaram a beleza da oração
no templo que vende absolvição
forjam milagres por uns trocados

esconderam a beleza da empatia
o certo agora é saber da quantia
que rende um crânio esfacelado

sacharuk


a beleza é o reflexo da alma - acróstico

a beleza é o reflexo da alma - acróstico

Ah, ninguém tem certeza

Beleza põe mesa
E não põe
Leva na cara a impureza
E consome
Zomba da realeza
Ao espelho nega e some

E quando pega de assalto

O preço é mais alto

Ri da imagem no espelho
Enaltece a ironia
Fala do que é desparelho
Louva a psicologia
Evita os olhos vermelhos
X-raio na luz do dia
Oculta a poesia

Descobrimos no ato
A lógica do inexato

Alma que traz alegria
Liberdade e felicidade
Manufatura da iguaria
A beleza de verdade

sacharuk


sabedoria secular

sabedoria secular

nada tão obscuro
tal abismo profundo
nasce na pupila dos olhos
dos nossos cus

disse um velho
acerca do ego

sacharuk


veneno

veneno

a 🙏crença🙏
é 🏴‍☠️veneno🐉 da vida
a crença te ensina
a criar desavença
a crença se serve
tua casa e comida
a crença te 💰engana
se te vende esperança
paranoia💊 insana🔧
na tua cabeça🥁🐮

sacharuk


poema reto

poema reto

tragicômico 
congresso nacional 
questiona condutas distintas

a indigência da raça
desse animal
reside na inabilidade 
de ver o próprio cu

todo termo
que irrompe do reto
deve ser grafado correto
não como cu de xingamento
mas como cu certo
sem acento

usa um dedo
para fechar a conexão
fazer terra
e a intercomunicação 
entre os três olhos
será o ensejo
do apocalipse

eis que um profeta
revelou o segredo
nos anais dos arcanos
'a humanidade 
perecerá pelo anus'

sacharuk


pífano perdido

pífano perdido

pronto! pachorra paz
perdia ponto
perdia prumo

perseguia prudência
pedia providência
pedia perdão
pelos pecados

precisava paciência
passos perseverantes
parcimônia planejada
para partir paradigmas
para provar perspectivas

perspicaz
prescindia pensamentos
profundamente peculiares
particularidades pueris
palavras pescadas
para parir poesia

possuia
plenas prerrogativas
planejava propósitos
perseguia prodígios
porquanto procrastinava
produções pragmáticas

pretendia persuadir
provar pleno poder
preconizando premissas
pronunciando paradoxos

por pura pressa
produzia pensamentos
promíscuos
palavras portavam
perfídias perdidas

pronunciava
preditivas prosas
pareciam presságios
perversos
pessimistas
perplexos

pedia pela paz
pedido porém
pairava pretérito
ponderava preceitos
parecia pífano perdido
propagando pífios prelúdios

sacharuk


mosaico

mosaico

os nós da realidade
mosaico displicente
nunca será compreendido
holisticamente

se a consciência reflete
pequena parte
do corpo o átomo
da fala o grito
do tempo o momento
soltos fragmentos
da complexidade

realidade não é existente
real é a verdade que bate
no peito da gente

sacharuk


minete

minete

              a vida se apraz
                         na preciosidade do ínfimo
               no espaço onde a língua
docemente anima
pontos aleatórios 
          eletricamente iluminados
         e espocam faíscas belas    
    humores orvalhados       

a vida se apraz          
no lugar onde os fins
       convidam aos meios     
            a uma angústia que corre
                contorce sem freio            
maneja sem corte
lambidas amenas
às múltiplas mortes
    pequenas

sacharuk



mãos dadas

mãos dadas

Alice estava certa
dez graus nessa manhã
esfrego as mãos geladas
deixo as portas abertas
nossa cidade ainda dorme
o  velho trem corta a estrada

os bentevis no poste
quebram a calada da aurora
dizem canções tão bonitas
contam heroísmos ao sol
e nós colhemos bergamotas
entre tantas outras coisas
na árvore do nosso amor

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe
que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

com a bênção do padre
e da senhora mãe das águas
até penso nesses tempos
em repensar minhas crenças
talvez quebrar paradigmas
escrever novas histórias

e se ela disser sim
aos pedidos do mar
percorrerei plenitude
pelo sol iluminado
assim serei mais humano
abrirei as janelas
para a rua de pedra

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe
que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

Alice estava certa
a ressaca tomou a praia
céu nublado em Rio Grande
mas o amor acalenta
e seus alofones de mel
cantam ao minuano

no sul do extremo sul
o outono leva as flores
nosso povo isolado
reinventa a sociedade
precisamos morrer com amor
à orla da eternidade
Alice sorri para mim

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe
que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

sacharuk


bar acadêmico das letras

bar acadêmico das letras

no bar
bêbados velhos
arrotavam poemas escrotos
não comiam ninguém
mas caíam de boca
lambiam os ovos
uns nos outros
uma sebenta troca

dos poetas novos
morriam de raiva e inveja
ao barman pediam cerveja
mas queriam pedir é piroca

sacharuk



pisa com dó
marcha lenta
não revolve o pó
que compacta o chão
que te sustenta

sacharuk

enquanto passa boiada



enquanto passa boiada

caguei
pras fotos de bolo de rolo
e receitas de sobremesa
pras fakes e rolos do bozo
e pros ridículos robos
do gabinete do ódio
bolsomínio

caguei
para o teu nojo da globo
e as fofocas da realeza
pro lula gastando o roubo
querendo botar pau na mesa

caguei
pro bozo enchendo os bolsos
do centro dos ratos de esgoto
lavando de perdigotos
a cara do povo
a cara de tolo
a cara de gado

caguei
pros otários cagados
que pagam o ágio
que pagam o dízimo
que pagam milícia
em troca de nada

enquanto passa boiada
vou viver das delícias
no curso do meu destino

sacharuk


mágica nuança

mágica nuança

ainda que o narizinho
de delineadas finezas
apontasse as nuvens
repletas de petulâncias
o olhar se encontrava
distante e perdido
no campo de algodão

os traços revestidos
derramavam vestígios
introspectiva suavidade

raro vê-la assim
tal preciosidade
outra mágica nuança
dentre tantas belezas

sacharuk


novo habitante

novo habitante

quero dar os abraços
do tipo que jamais dei
agora sei
agora posso
encurtar o espaço
que a incerteza
aumentou entre nós
que ficamos distantes
estivemos tão sós
do mesmo lado
da mesma guerra

agora está tudo mudado
agora terei minha chance
de ser um novo habitante
na nossa velha terra

sacharuk


tuas bichas

tuas bichas

no dia em que te conheci
pulaste como uma foca
desfilaste tal pata
trombaste como elefoa
tramaste feito aranha
correste feito pantera

no dia em que te comi
rebolaste tal cobra
miaste tal gata
rugiste feito leoa
mordeste feito piranha
gozaste como uma égua

sacharuk


benção

benção

bento
o vivente dizia
cuspindo versos de poesia
a vida vale a pena
se a garrafa não for pequena
e proclamava todos os dias
tem gente que é a viagem
da gota serena
e outras que não valem
uma cibalena

sacharuk


vive teu isolamento

vive teu isolamento

vive teu isolamento
as feridas de dentro
o lixo toma o mundo
isso é tão duro

abdica ao poder
essa é a hora
é preciso amor
querer olhar para fora
dividir para socorrer

conhece a penúria
compartilha do medo
dos homens simples
sabem que a sina
qualquer dia
sem demora
espreitará da esquina

vive teu isolamento
pratica poesia
oferta ao teu corpo
luz do sol
pandemia de ficar  só
para amanhã estar junto

vive teu isolamento
faz de ti instrumento
de conforto

sacharuk


desambiguação

desambiguação

 "demônio" substantivo
é vocábulo divino
se evocado
na língua maldita
das bruxas

sacharuk

centúria

centúria

      reverenciai              
aos pés da coroa
triste sina
vosso tributo
vergonha e coragem

portos sem ancoragem
desertos nas esquinas
e a noite ecoa            
surdez dos afetos

deitai-vos aos campos
destinos perplexos
donde o obsoleto
na fome da terra  
exultará à tona

suplicai aos ídolos     
aliciai aos árbitros
que nessa nova era
não tenhais vivido
outra vida à toa

sacharuk

seis minutos

seis minutos

a mão espalmada
tem a linha que marca
a passagem
que durou seis minutos
para seiscentos
e sessenta e seis
diamantes brutos
Incrustados poemas
enfeitiçados

sacharuk


colcha de margaridas

colcha de margaridas

teu umbigo
é um ótimo abrigo
para querer ir morar
e teus mamilos
são equidistantes
aos teus olhos de mar
que acusam marés
desinteressadas

teus cabelos
quase assanhados
confessam os cachos
quedam florindo
a sorrir divertidos

eu te desadorno
eu te desenfeito
desrascunho
e desescrevo
cada pedaço de ti

e tu aí
tão linda
nudez em relevo
sobre o plano
da velha colcha
de margaridas

sacharuk


magia do campo

magia do campo

sob pena de castigo
pago o preço da sina
seja ele qual for
trago raridades botânicas
na palma da minha mão

quando os jovens contarem
histórias do nosso amor
dirão sobre o campo de orquídeas
que fiz florescer em teu meio

por séculos e séculos
farão morada nas estrelas
alcançarão o teu céu
germinarão tuas vontades

e eu
banhado de aromas
serei gentil jardineiro

sacharuk


âmago

âmago

sou tua presa
demônio
soltaste teu hálito vermelho
na minha boca
contra minhas vontades
não tive defesa
e da textura que me veste
ao âmago das incorporeidades
a tudo fizeste teu
tudo!
meu útero é teu!

sacharuk


fagulhas de chuva

fagulhas de chuva

trago-te
aos meus pulmões
sopro espirais
de inspiração
enquanto danças
fagulhas de chuva
sobem sobem sobem

sacharuk


perdidos

perdidos

atemporais
somos nós
escondidos em portais
além da morte e da vida
do futuro e do agora

sacharuk


quisera eu ser chuva

quem dera eu ser chuva

ela faz cócegas
rola comigo
no gramado do jardim

beijo as pontas
dos seus dedos finos
mergulho suas cores
no meu desatino
ela se derrama
em amores
e me molha

a mim ela é chuva
quisera eu ser chuva
quisera
quisera

sacharuk


expressão

expressão

veste poesia
nos encantos dos teus olhos
nas partituras da tua boca
nos acordes do teu nariz

sacharuk


quadro urbano


quadro urbano

desatou temporal
caíram os butiás
dentro fora fora dentro
nos fundos do terreiro

o sabiá satisfeito
flanou do marmeleiro
e poisou dedicado
cantou leve bem afinado
na viga da construção

na esquina do supermercado
chegou de soslaio
o bandido lacaio
foragido da justiça
executou sem perdão
um vivente sem noção
e fugiu da polícia

sacharuk


esfria o ímpeto

esfria o ímpeto

esfria o ímpeto
Madalena
pendura a ira
no cabide dos versos

escuta algum disco
ou vai fazer sexo
nutre as orquídeas
as gramíneas
e as verbenas

ainda que sejas maria
distinta madame
ou qualquer helena
derrama café no tapete
da tua falsa aristocracia

espera o dia
Madalena
que ninguém mais terá culpa
dos teus próprios problemas
a sina perdoará tuas multas
e a vida valerá a pena

sacharuk


crônica com c

Crônica com C

Calamar Cachaceiro considerou consumir cachaça com certo comedimento, como critério chegar continente chamado Canovaticínio, comparecendo como célebre convidado criatura conhecida como Cardeal Cisplatino, chefe central Comando Comunista Católico (CCC). Contudo, coube Calamar Cachaceiro comparecer Casa Causídicos Comprometidos, chamar caríssimo companheiro Cofroli, com certeza conseguir carta contracondenatória chancelada com carimbo chefe causídico:

-- Cumpanhero Cofroli, careço comparecer Canovaticínio conhecer Cardeal Chico. Careço conceder conselhos. Chico culpado com Cristo! Cardeais com certo comportamento condenável, comendo criancinhas, cheirando cola, comprando cocaína, cocacola, cheirando cu, consumindo coquetel cachaça com combustível... Cardeais com consciência católica condenada. Calamar Cachaceiro conduzirá chefe Chico Cisplatino com certa compreensão como conquistar coração cristão. Caridoso Calamar colaborará com Canovaticínio consolidando capitalização considerável conta corrente Conselho Cardeais Canovaticinenses. Contudo, cumpanhero Cofroli carece comandar confecção carta contracondenatória. Cumpanhero comprometido com consciência comunista certamente comandará corte caneleira circuitada. Causa coceira canela. Como Calamar chegará Canovaticínio, caracara com Chico, como condenado comum calçando caneleira? Cara caramba cara caraô, caralho.


-- Claro, claro, chefia. Cabe companheiro Calamar chefiar, cabe Cofroli cumprir. Comandarei confecção carta, comandarei corte caneleira circuitada. Convocarei conselho com colegas causídicos: Chinelandowski Cunaboca, Chupaurélio, Carmen, Careca Covardão... Certamente Calamar conversará com Cardeal conquistando consciência cristã. Caridade companheiro Calamar colaborará com causa continental. Compete companheiro chamar cobertura cronistas colaboradores com Carta Capital, Correio Caradepaulo...


sacharuk

charge: Nani

é preciso tomar banho de sol

é preciso tomar banho de sol

é preciso
renovar o tubo do oxigênio
andar na esteira
no caminho do meio
apagar as cismas
enricar as rimas
com cheiro e sabor

é preciso
tomar banho de sol
ter a alma pelando
viver o inferno do amor
viver no céu flutuando

é preciso
aprender a ter dó
reparar os efeitos
cuidar dos defeitos
cada qual com os seus
com consciência
e verdade

é preciso
redescobrir a lealdade
desistir de errar
e culpar a vontade
de deus

é preciso
tomar banho de sol
ter a alma pelando
viver o inferno do amor
viver no céu flutuando

sacharuk

foto por Ana Sacharuk

meu desassossego

 meu desassossego

 acorda agora menina
 derrama a cachoeira
 dos cabelos teus
alavanca as ancas
depois vem por cima
e engole meus beijos

faz a exótica dança
que revela o trejeito
que atrai e me lança
sobre teus peitos
destrói a fronteira
do meu desassossego

agora senta menina
naquela cadeira
abocanho-te a nuca
mosdisco o queixo
minha verve aguda
na ponta dos dedos

tua nudez é o segredo
da minha ancoragem
 te faço em minha pele 
 em cor e em pelos
és em mim tatuagem

sacharuk


ela pode de tudo

ela pode de tudo

parece até frágil
ela pode ir fundo
mas não é fácil

se sofre
das dores do mundo
amores escassos
e ri do fracasso
ri dos absurdos

se pode
ela pode de tudo
mergulha profundo
nos lagos mais rasos

e morre
no viés obtuso
do próprio espaço
entregue ao abraço
da normalidade
e do cansaço

sacharuk


o belo é simples

o belo é simples

anel do interesse
de puro dinheiro
e pedras divinas
no teu dedo de musa
promessa de casamento
do ofício das artes
com a exaltação
de desvendar-te

amor que insinua
do qual não preciso
pétalas meninas
às vontades cruas

tuas mãos ofertam flores
aos curiosos colibris
enquanto choro os ais
escreves meu nome
na tua árvore

e os esquilos têm fome
pedem amor e amendoins
pois o belo é simples
tal colher maçãs
e poesia no parque
das perspectivas existenciais

sacharuk






estrelinha

estrelinha

estrelinha brilhava
plena de encantos
entretanto
não era pequena
mas era só uma

então ela pairava
tão leve flanava
estrelinha amena
tal uma pluma

sacharuk






dasdores dasdor

dasdores dasdor

esqueci da numerologia
das gemas que curam
dasdores ocultas
fui viver de poesia

a guerra
está diferente
vai na trilha da luz
para deitar sobre a paz
dasdores dasdor
e da mente

tudo ficou cemporcento

esqueci dos arquétipos
grimórios da bruxaria
ouvi a mim mesmo
recitando versos
rimas de amores
e das putarias

esqueci meu tarô
o anjo metatron
na gaveta das velharias
e viajei no sonho
de viver na boemia

a guerra
está diferente
vai na trilha da luz
para deitar sobre a paz
dasdores dasdor
e da mente

tudo ficou cemporcento

sacharuk

foto: Ana Sacharuk

ventilador


ventilador

a brisa do pacífico 
soprou-te os cabelos
balouçou as conchinhas
enredou os cachinhos
despencou cachoeira
revirou nosso ninho
de amor estrelado

o colibri
da minha tatuagem
fez magnífica viagem
pelo destino fátuo
poisou na miragem
do meu dilema
desenhado em poemas
escrito nas fotos

frente ao moinho
das pás de vento
tu cantas cigana
tu danças sereia
e tua face incendeia
enquanto enganas
a marcha do tempo

sacharuk