não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas tu podes treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

OFICINA DE ESCRITA LITERÁRIA INSPIRATURAS - Repaginada para 2020 - novos desafios - inscreve-te! Integra conceitos, técnicas e inspiração em desafios lúdicos e escreve poesia, crônicas e contos

sacharuk escreve em inspiraturas.org

2019-12-21

pele de terra olhar de saudade

pele de terra olhar de saudade

maria
pele de terra
olhar de saudade
bem sabes
poesia é sequência de partos

nasce
renasce
tal flor
pelos campos
insistente no tempo

pari o intento
no signo dos dias
porque és poeta
engendra alquimia da dor
transmuta tudo em poesia

sacharuk

foto: Ana Sacharuk

2019-12-15

parafuso frouxo

parafuso frouxo

queria saber escrever um soneto
do tipo perfeito e metrificado
mas não sou mais que poeta de gueto
tudo que escrevo é desqualificado

sou só criador de lirismo obtuso
quem dera saber o rigor do riscado
meu falso soneto beira o abuso
inda bem que o leitor é muito educado

tento escrever em versos concretos
mas o talento é muito discreto
tudo que escrevo é posto de lado

eu quis um soneto de versos difusos
mas minha cabeça afrouxou o parafuso
e criou algum troço desorganizado
sacharuk


Pessoa pessoas passos

Pessoa pessoas passos

Pessoa, como eu queria
encantar-te com o que invento
seria o que eu faria
acaso tivesse talento
ouviria som de poesia
até quando sopra o vento

pessoas, como eu queria
encantá-los com meu intento
seria o que eu tentaria
acaso eu não fosse tão lento
ofuscado pela melodia
atada a um novo rebento
será quando chega esse dia?

passos, estradas que enfrento
ao encalço da alegria
será que haveria o momento?
será que eu não desistiria?
ousaria outro passo sedento?
só preciso ter garantias

sacharuk


intertropical

intertropical

vinte e três graus da linha
mais vinte e sete minutos
e cruzas a vida minha
no equilíbrio absoluto

abaixo de Câncer te vejo
sobre Capricórnio ficas
trópicos do puro desejo
onde moram rimas ricas

a bordo do nosso cometa
fazemos fatias
do imenso planeta
e recriamos as utopias

acima e abaixo do Equador
nosso intertropical amor
percorre a rota da poesia

sacharuk


alvorada

alvorada

se a alvorada
de mansidão silencia
sê romance
e mais nada

veste-te de poesia
e não desencantes
a noite passada

sacharuk


2019-12-03

verde de limo



verde de limo

tenho sido titubeio
entre vontade e destino
não sou florbelo
também não sou feio
hades com flores no meio
ou apenas poeta menino

sou pedra verde de limo
inerte seguro no freio
desorientado
e com receio

tenho sido o vacilo
precipício e desatino
poeta preso no estilo
tal cavalo no arreio
hoje acabou o passeio
mas ainda sou peregrino

procuro o talento divino
acertar sempre em cheio
descomplicado
e sem rodeio

sacharuk

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chove



Chove

Pingam os pingos
labirintos

caem as águas
maremotos

mortos os mortos
afogamento

chove e chovo junto...

Singram os vincos
malabaristas

vertem as mágoas
mares mortos

correm os córregos
sentimento

chove e choro muito.

Márcia Poesia de Sá & sacharuk

Chasque dominical



Chasque dominical

Voa nesta poesia
Cortando os pagos
Pois tua parceria
É honra sábio mago

Já larguei da rebeldia
depois de uns tragos
comecei cedo do dia
que o domingo é vago

A friagem entra na noite
Arrepia até o candeeiro
O zinco já aponta um corte
Só o poema de companheiro

A TV só fala em morte
e político traiçoeiro
a rodada dos esportes
e jeitinho brasileiro

Talvez eu tenha sorte
De trocar versos com o parceiro
São Lourenço lá no sul do potreiro
E Cruz Alta quase rumo ao norte
O vento minuano chega matreiro
Enquanto o potro relincha sem sorte

E decerto o amigo vate
pajador de verso ligeiro
vai passar o domingo faceiro
com vinho, costela e mate
pois é um poeta altaneiro
do mais bagual dos quilates

Durante a manhã, no costado da casa
Caiu um passarinho, morto pela geada
Enquanto o poeta almejava ter sua asa
O ser livre morria na fria madrugada

Essa vida algoz tanto cria quanto mata
vivente saido do ninho e caido na vala
poeta não é imune igual diplomata
carrega uma rima na cueca e na mala

No silêncio de um pensamento
Cerro idéias puras e nítidas de amizade
Agradeço ao amigo pelo intento
De replicar tal poesia com sinceridade

Que o pensamento seja o momento
de traduzir nossa cumplicidade
com estrofes cruzadas no vento
e hermana certeza de continuidade.

Decimar Biagini & sacharuk

a interpretar sinais

a interpretar sinais

andei a ler marcas
signos e pegadas
formas de lua rasgada
ora eram curvas
os traços da sorte

flertei com a morte
bicha faminta e parca
vida que não vale nada
uma parte embriagada
a outra de ressaca

catei bosta de vaca
no percurso da caminhada
riscos de sinas traçadas
cegas tal faca
ora sem ponta
ora sem corte

procurei por algum norte
condescendência escrava
igual poesia rimada
e a vida velhaca e folgada
apenas pensava e andava

sacharuk

no final do túnel deve haver alguma luz

no final do túnel deve haver alguma luz

apaguei indícios
de histórias
de vidas
varri resquícios
desnutri as esperanças

a vida decerto é dança
aloprada
e requebrada
levanta poeira
e afasta cadeiras
para os cantos da sala

quando cala
despede os vícios
a foda
a fauna
e a flora
na última hora
isso tudo
não vale nada

a alma esvaziada
se livra das lutas
do amor
do dinheiro
da dor
das putas
dos puteiros
para morrer
na contemplação

o que é a vida, então?

sacharuk