Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

poeta nu - acróstico

poeta nu - acróstico

Pelado!
O maldito poeta
Esteta
Trafegava
Alamedas e anseios

Na alma trajava
Um verso livre

sacharuk


Elba e Valdir - acróstico

Elba e Valdir

E lba de sol e malmequer
L ançou pétalas pelos canteiros
B ravia dama tal fosse o cardeiro
A mãe-natureza disposta em mulher

E m rara beleza viveu seu amor

V aldir nutriu-lhe calor em luzeiro
A primavera do seu bem querer
L ume de sonhos em pleno esplendor
D essa magia de amor verdadeiro
I ncandescências fizeram irromper
R ebentos tão lindos da sua flor

sacharuk



presente grego

presente grego

chama os viventes
as pitonisas
os consulentes
ao casamento da nereida

chama os imortais
hierofantes
o soberano de Atenas

Afrodite entregou Helena
ludibriou Menelau
Páris ganhou a guerra
e Tróia
seu cavalo de pau

sacharuk


princesa de areia

princesa de areia

ela era a princesa
do reino da freguesia
e seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa

eu a observava de cima
sobre castelos de areia
e sempre lá estava ela
a mais linda donzela
de toda a aldeia

eu a olhava disperso
entre o dia e a ceia
e ela lia meus versos
entre a ceia e o dia
trocávamos poesia

quisera jogasse tranças
tal a linda Rapunzel
eu teria mais esperança
de tirá-la dessa cadeia
da mente que devaneia
em mundos de papel

sempre a vejo
como a Cinderela
ou a princesa Bela
aguardando adormecida
que o meu beijo
restitua sua vida

sacharuk



qualquer distinto poeta

qualquer distinto poeta

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
bater em retirada
    que ninguém se preocupe

não é mais que nada
quando há coisas mais
notoriamente importantes
com o que se preocupar

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
inventar de fazer revoada
    que ninguém se perturbe

vem de asa quebrada
novamente na busca da paz
sempre tão distante
que nunca consegue alcançar

sacharuk

quem dera

quem dera

a fome persevera
tramo o novo cortejo
na ansiedade da espera
de bater à tua porta

tua dor de menina
não é dor de mulher morta
quando teu corpo inclina
tu te convertes em fera

devoras e desatinas
tu mandas e eu obedeço
sou de natureza torta
teu castigo me ensina

tua boca exaspera
dentes lábios desejo
tolo espero um beijo
mas não me pertence
quem dera

sacharuk




sementes irresponsáveis

sementes irresponsáveis

existo enquanto escolho o significado dos meus feitos
a mim não compete determinar

coisas prontas fogem às mãos
pertencem ao mundo das percepções
minha existência aufere significado
nenhuma viagem nenhuma passagem ou lapso de tempo pode evitar

jogo sementes irresponsáveis pela janela do avião
vingam apenas as que quedam sobre o estrume das vacas
mas as restantes não caem em vão

imitam pó de estrela grudam com o orvalho
que deita sobre os telhados e derretem ao sol do meio-dia

sacharuk


vitruviano

vitruviano

vitruviano cânone
da proporção áurea
e linhas harmônicas

tua beleza clássica
perfaz matemática
dos corpos torneados

vitruvianos ângulos
da perfeita estética
dos traços formosos

a ti
e aos homens nus
o inverno impiedoso
chegará outra vez

sacharuk