Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

pelas quimeras

pelas quimeras

quimeras
serão teus segredos
na chuva diluídos
quiçá esquecidos

livrar-te-iam dos medos
quem dera!
ouvirias o grito da terra
acordarias mais cedo

lembrarias dos idos
dos belos adormecidos
feitiços e engendros
quisera!

livrar-te-iam do efeito
da humana miséria
das imagens etéreas
em seus mundos perfeitos

sacharuk


pensa o que quiser

pensa o que quiser

metro quadrado
quatro lajotas no chão
quatro pés ensapatados
dois para cada lado
rodopios apressados

quadrilha de saltos
dois baixos
dois altos
bicos encaixados
no vão
entre os sapatos
e o chão

movimentos ritmados
música de motel
espirais para o céu
qualquer promessa
que aqueça a festa

quatro mãos
entrelaçadas
bocas pegadas
baile a dois

maldita aflição
vergonha que passo
ah! pensa o que quiser
dormi a noite no braço
de uma outra mulher

sacharuk


previsível e previsto

previsível e previsto

poesia
de versos jumentassílabos
aprumada medição
tijolos de construção

análise de dados
topografia
astrologia
movimento dos astros

régua na mão
martelo formão
compasso esquadro
forma de padaria

alfaiataria
de versos alinhavados
lisos como sabão
dentro da previsão

poemas contaminados
com ideias vadias
dançam pela alforria
do poeta escravizado

sacharuk


poema urgente

poema urgente

queria ser poema urgente
inspirado nas flores do quintal
estrofes em gotas
contra a sede
essência de versos
contra o mal

queria ser poeta da rede
vislumbrar prestígio nacional
meu argumento ninguém entende
e o formato não é sempre igual

queria traçar poema al dente
queimar os beiços
num verso quente
apimentado com muito sal

queria saber fazer diferente
ponta-cabeça
detrás para frente
achar razão
sentido e final

sacharuk


poeta nu - acróstico

poeta nu - acróstico

Pelado!
O maldito poeta
Esteta
Trafegava
Alamedas e anseios

Na alma trajava
Um verso livre

sacharuk


ao meu censor

ao meu censor

o povo comenta
que contratei o diabo
não digo que sim
nem digo que não
lavo minhas mãos
e deixo em aberto

não faço promessas
eu me acho esperto
vivo no inverso do avesso
fico do lado que presta
a tribo do meu apreço
é indiada xucra do rincão

desconheço o capeta
não assino contrato
não faço juras
não faço tratos
nada que me comprometa

entorno um trago
enquanto escorrego a caneta
e sacramento o ócio

boa noite e até outro dia
entende que meu negócio
é vasculhar alguns troços
para achar alguma poesia

sacharuk


porta entreaberta

porta entreaberta

ela saiu
deixou a porta entreaberta
a intenção encoberta
do retorno
noutra oportunidade

não admitiu
que não estava certa
nossa vida incompleta
um transtorno
uma desumanidade

e mentiu
julgou-se esperta
agora a saudade
já não aperta
o que era morno
agora é só caridade

sacharuk




Preliminares

Preliminares

Lá no tempo das certezas
Lambia enternecida o sorvete
que pingando no corpete
desenhava achocolatadas belezas

Lá no tempo dos devaneios
Voando por mil e uma madrugadas
as estrelas, na camisola desenhadas,
faziam vibrar as notas dos anseios

Lá no tempo das purezas
A paixão era tanto mais quente
trocávamos nossos chicletes
e outras carícias sob a mesa

Lá no tempo daqueles rodeios
num baile de línguas enroscadas
a nossa espera foi saciada
depois do toque em meus seios.

Marisa Schmidt & sacharuk


Elba e Valdir - acróstico

Elba e Valdir

E lba de sol e malmequer
L ançou pétalas pelos canteiros
B ravia dama tal fosse o cardeiro
A mãe-natureza disposta em mulher

E m rara beleza viveu seu amor

V aldir nutriu-lhe calor em luzeiro
A primavera do seu bem querer
L ume de sonhos em pleno esplendor
D essa magia de amor verdadeiro
I ncandescências fizeram irromper
R ebentos tão lindos da sua flor

sacharuk



presente grego

presente grego

chama os viventes
as pitonisas
os consulentes
ao casamento da nereida

chama os imortais
hierofantes
o soberano de Atenas

Afrodite entregou Helena
ludibriou Menelau
Páris ganhou a guerra
e Tróia
seu cavalo de pau

sacharuk


princesa de areia

princesa de areia

ela era a princesa
do reino da freguesia
e seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa

eu a observava de cima
sobre castelos de areia
e sempre lá estava ela
a mais linda donzela
de toda a aldeia

eu a olhava disperso
entre o dia e a ceia
e ela lia meus versos
entre a ceia e o dia
trocávamos poesia

quisera jogasse tranças
tal a linda Rapunzel
eu teria mais esperança
de tirá-la dessa cadeia
da mente que devaneia
em mundos de papel

sempre a vejo
como a Cinderela
ou a princesa Bela
aguardando adormecida
que o meu beijo
restitua sua vida

sacharuk



qualquer distinto poeta

qualquer distinto poeta

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
bater em retirada
    que ninguém se preocupe

não é mais que nada
quando há coisas mais
notoriamente importantes
com o que se preocupar

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
inventar de fazer revoada
    que ninguém se perturbe

vem de asa quebrada
novamente na busca da paz
sempre tão distante
que nunca consegue alcançar

sacharuk

quem dera

quem dera

a fome persevera
tramo o novo cortejo
na ansiedade da espera
de bater à tua porta

tua dor de menina
não é dor de mulher morta
quando teu corpo inclina
tu te convertes em fera

devoras e desatinas
tu mandas e eu obedeço
sou de natureza torta
teu castigo me ensina

tua boca exaspera
dentes lábios desejo
tolo espero um beijo
mas não me pertence
quem dera

sacharuk




sementes irresponsáveis

sementes irresponsáveis

existo enquanto escolho o significado dos meus feitos
a mim não compete determinar

coisas prontas fogem às mãos
pertencem ao mundo das percepções
minha existência aufere significado
nenhuma viagem nenhuma passagem ou lapso de tempo pode evitar

jogo sementes irresponsáveis pela janela do avião
vingam apenas as que quedam sobre o estrume das vacas
mas as restantes não caem em vão

imitam pó de estrela grudam com o orvalho
que deita sobre os telhados e derretem ao sol do meio-dia

sacharuk


vitruviano

vitruviano

vitruviano cânone
da proporção áurea
e linhas harmônicas

tua beleza clássica
perfaz matemática
dos corpos torneados

vitruvianos ângulos
da perfeita estética
dos traços formosos

a ti
e aos homens nus
o inverno impiedoso
chegará outra vez

sacharuk


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véu do mistério

véu do mistério despencadas brumas das cúmplices estrelas luz de lua e velas falseadas penumbras sob o véu do mistério do olhar do abutre o ...