Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Carta à Eva

Carta à Eva


Tanto me impressiona a engenharia natural das palavras! Cada bloco compõe fundação e soergue paredes, ora, é o abandono estendido sobre as mesmas ruinas que plasmarão novas existências. É mágica, bem sabemos!

Escolhemos conspirar contra as fatalidades ao dedicarmos pequenas frações semanais à alquimia da palavra. Provamos do ímpeto da motriz criadora de cada vocábulo vertido sobre uma página branca. Emprestamos vozes à beleza e à sabedoria que brotam da nascente da existência e ao exercício do tempo. Assim, cara escritora, é nobre minha tarefa, dada a paixão que emana ao pousar meus sentidos sobre escrituras artísticas repletas de energia vital. Não declino do prazer e da força suspensos sobre cada texto que bebe na fonte da beleza e amor pelo grato ofício. E a arte, em sua pedagogia, afirma-se em espírito criador, quando irrompe da página para ser ouvida, provada, sentida e, sobretudo, para cumprir a sina de ser compartilhada e confiada aos auspícios do apreciador.

Saibas, escritora, já vi a palavra romper fortalezas, sarar chagas tantas, aproximar espíritos e dirimir distâncias. Vi as coisas complexas transmutadas ao acorde da sua lira. Quando a palavra canta, será sempre ouvida. Tal o abraço da natureza que abriga e das centelhas que dela se desprendem. Dela se extrai o fluido que traduz o amálgama de todas as artes. Por isso a escolhi como signo do meu sacerdócio.

Sempre encontrarás refrigério ao colo sensível das escrituras que compões com tanto esmero e amor. Elas conversam diretamente com teu coração. Não há diálogo mais sincero e bonito. E sempre permitas que o olhar da arte ilumine a vertente. Que todos conheçam o poder de quem projeta beleza em prosa ou versos.

A gratidão é uma reciprocidade entre nós, que aprendemos a viajar com segurança sobre as asas um do outro.

Paz profunda

sacharuk


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último arcano

último arcano mais uma dose de fé uma dose de fel dose de céu de ré de dó dose de sorte uma dose de morte mais uma dose de...