não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas tu podes treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

OFICINA DE ESCRITA LITERÁRIA INSPIRATURAS - Repaginada para 2020 - novos desafios - inscreve-te! Integra conceitos, técnicas e inspiração em desafios lúdicos e escreve poesia, crônicas e contos

sacharuk escreve em inspiraturas.org

2019-12-21

pele de terra olhar de saudade

pele de terra olhar de saudade

maria
pele de terra
olhar de saudade
bem sabes
poesia é sequência de partos

nasce
renasce
tal flor
pelos campos
insistente no tempo

pari o intento
no signo dos dias
porque és poeta
engendra alquimia da dor
transmuta tudo em poesia

sacharuk

foto: Ana Sacharuk

2019-12-15

parafuso frouxo

parafuso frouxo

queria saber escrever um soneto
do tipo perfeito e metrificado
mas não sou mais que poeta de gueto
tudo que escrevo é desqualificado

sou só criador de lirismo obtuso
quem dera saber o rigor do riscado
meu falso soneto beira o abuso
inda bem que o leitor é muito educado

tento escrever em versos concretos
mas o talento é muito discreto
tudo que escrevo é posto de lado

eu quis um soneto de versos difusos
mas minha cabeça afrouxou o parafuso
e criou algum troço desorganizado
sacharuk


Pessoa pessoas passos

Pessoa pessoas passos

Pessoa, como eu queria
encantar-te com o que invento
seria o que eu faria
acaso tivesse talento
ouviria som de poesia
até quando sopra o vento

pessoas, como eu queria
encantá-los com meu intento
seria o que eu tentaria
acaso eu não fosse tão lento
ofuscado pela melodia
atada a um novo rebento
será quando chega esse dia?

passos, estradas que enfrento
ao encalço da alegria
será que haveria o momento?
será que eu não desistiria?
ousaria outro passo sedento?
só preciso ter garantias

sacharuk


intertropical

intertropical

vinte e três graus da linha
mais vinte e sete minutos
e cruzas a vida minha
no equilíbrio absoluto

abaixo de Câncer te vejo
sobre Capricórnio ficas
trópicos do puro desejo
onde moram rimas ricas

a bordo do nosso cometa
fazemos fatias
do imenso planeta
e recriamos as utopias

acima e abaixo do Equador
nosso intertropical amor
percorre a rota da poesia

sacharuk


alvorada

alvorada

se a alvorada
de mansidão silencia
sê romance
e mais nada

veste-te de poesia
e não desencantes
a noite passada

sacharuk


2019-12-03

verde de limo



verde de limo

tenho sido titubeio
entre vontade e destino
não sou florbelo
também não sou feio
hades com flores no meio
ou apenas poeta menino

sou pedra verde de limo
inerte seguro no freio
desorientado
e com receio

tenho sido o vacilo
precipício e desatino
poeta preso no estilo
tal cavalo no arreio
hoje acabou o passeio
mas ainda sou peregrino

procuro o talento divino
acertar sempre em cheio
descomplicado
e sem rodeio

sacharuk

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chove



Chove

Pingam os pingos
labirintos

caem as águas
maremotos

mortos os mortos
afogamento

chove e chovo junto...

Singram os vincos
malabaristas

vertem as mágoas
mares mortos

correm os córregos
sentimento

chove e choro muito.

Márcia Poesia de Sá & sacharuk

Chasque dominical



Chasque dominical

Voa nesta poesia
Cortando os pagos
Pois tua parceria
É honra sábio mago

Já larguei da rebeldia
depois de uns tragos
comecei cedo do dia
que o domingo é vago

A friagem entra na noite
Arrepia até o candeeiro
O zinco já aponta um corte
Só o poema de companheiro

A TV só fala em morte
e político traiçoeiro
a rodada dos esportes
e jeitinho brasileiro

Talvez eu tenha sorte
De trocar versos com o parceiro
São Lourenço lá no sul do potreiro
E Cruz Alta quase rumo ao norte
O vento minuano chega matreiro
Enquanto o potro relincha sem sorte

E decerto o amigo vate
pajador de verso ligeiro
vai passar o domingo faceiro
com vinho, costela e mate
pois é um poeta altaneiro
do mais bagual dos quilates

Durante a manhã, no costado da casa
Caiu um passarinho, morto pela geada
Enquanto o poeta almejava ter sua asa
O ser livre morria na fria madrugada

Essa vida algoz tanto cria quanto mata
vivente saido do ninho e caido na vala
poeta não é imune igual diplomata
carrega uma rima na cueca e na mala

No silêncio de um pensamento
Cerro idéias puras e nítidas de amizade
Agradeço ao amigo pelo intento
De replicar tal poesia com sinceridade

Que o pensamento seja o momento
de traduzir nossa cumplicidade
com estrofes cruzadas no vento
e hermana certeza de continuidade.

Decimar Biagini & sacharuk

a interpretar sinais

a interpretar sinais

andei a ler marcas
signos e pegadas
formas de lua rasgada
ora eram curvas
os traços da sorte

flertei com a morte
bicha faminta e parca
vida que não vale nada
uma parte embriagada
a outra de ressaca

catei bosta de vaca
no percurso da caminhada
riscos de sinas traçadas
cegas tal faca
ora sem ponta
ora sem corte

procurei por algum norte
condescendência escrava
igual poesia rimada
e a vida velhaca e folgada
apenas pensava e andava

sacharuk

no final do túnel deve haver alguma luz

no final do túnel deve haver alguma luz

apaguei indícios
de histórias
de vidas
varri resquícios
desnutri as esperanças

a vida decerto é dança
aloprada
e requebrada
levanta poeira
e afasta cadeiras
para os cantos da sala

quando cala
despede os vícios
a foda
a fauna
e a flora
na última hora
isso tudo
não vale nada

a alma esvaziada
se livra das lutas
do amor
do dinheiro
da dor
das putas
dos puteiros
para morrer
na contemplação

o que é a vida, então?

sacharuk

2019-11-29

agrimensura

agrimensura

teu corpo
sinuoso caminho
de tantas imagens
complexas vontades
ao meu vislumbre
embasbacado

ora abstrato
a piscar vagalumes
ensandecidos
meu olhar dividido
entre os peitos
amaldiçoados
e as coxas benditas
mulher poesia
alquimia
renascentista

dorso decúbito
do jeito
calibrado nas rimas
morte do pensamento
pensando na língua
dos versos

reinvento
tua agrimensura
aos avessos
do meu ego
e entrego
o que é teu
por direito
sacharuk


2019-11-28

observa absorve

observa absorve

observa
absorve
o picho
não comove
é baboseira vazia
não é brincadeira
sequer poesia

a voz das ruas
não se cala
mas não diz nada
não tem proveito
não tem sentido
sequer eloquência
sem apelo instrutivo
sem apelo a ciência

observa
absorve
o picho
não comove
pichador é artífice
da deselegância
da própria imundície
e da ignorância

sacharuk


liberdade

liberdade

a alma
o corpo
a pessoa
pedem acalanto
querem libertar
as queixas do pranto

a alma
o corpo
a pessoa
cantam de cor
carícias amenas
até a dor ensinar
quebrar as algemas

sacharuk


cunhã

cunhã

cunhã tez tatuada
verde vestido ao vento
pedala a bicicleta velha
pelo fogo da terra

cunhã aos passos lentos
entrecruza as queimadas
voz que encanta toada
embala os lamentos

cunhã pé de serra
dança sina sertaneja
palha de coco cimento
sol carnaúba e estrada

cunhã alma rendada
a paciência dos tempos
forjada nas incertezas
resignação e espera

cunhã dos sacramentos
das marias abnegadas
que a vida não lhe cobre nada
além dos próprios tormentos

sacharuk


encontrei poesia

encontrei poesia

na realidade
fui caótico
fiz acrósticos
das penúrias
na luxúria
e na calmaria
procurei liberdade
mas prendi poesia

na realidade
mais retórica
tão pernóstica
coisa espúria
tanto ilusória
quase magia
procurei a verdade
mas menti poesia

na realidade
estrombótica
a diabólica
vida puta
tão simplória
sem serventia
procurei castidade
mas comi a poesia

sacharuk

2019-11-08

raimundo o mundo

raimundo o mundo

raimundo o mundo
nao é para os fracos

precisa fel de serpente
uma massa de delinquentes
sob um discurso simulacro

a requenguela acredita
balança o rabo e grita
replicando tal papagaio
pulando feito macaco

sacharuk


2019-11-05

calendário

calendário

ela ensina sonhos
percorre meus cabelos
nos seus finos dedos
acolhe ao umbigo
minha cabeça
histórias inteiras
sob bancos de areia

ela imprime mundos
nos olhos redondos
semeia chuva torrencial
colhe a flor casual
e beija as mariposas
no jardim primaveril

poisam pássaros
no calendário tatuado
na sua perna
e ela tão linda
tanto quanto louca
sorri ainda
pelo canto da boca

sacharuk




2019-10-25

paradoxo avícola


paradoxo avícola

paradoxal
é cada opinião
comezinha
sobre o tamanho do pinto
quando é normal
a galinha
botar os ovos
e cada pintão
que ninguém acredita

e ainda
a desenpuleirada
penosa crescida
também cisca no chão
traça as minhocas

então
bicho de todo tipo
ela leva no bico
e desentoca

sacharuk


2019-10-23

gulosa

gulosa

gatinhando sapeca
por atrevidos desejos
uma gulosa boneca
jamais perde a chance
de morder levemente
apertar minha cabeça
nos lábios incandescentes
beijar meu olho
para que eu
nunca a esqueça

sacharuk



2019-10-21

aroma de vento

aroma de vento

prende-me
entre as coxas
meu passo
teu traço
meus dedos
entranham cabelos
ondas vermelhas
farejo
cheiro felino
chorando da carne
aroma de vento

sacharuk


2019-10-12

piperina

piperina

ardia malagueta
na ponta da língua
formigava papilas
solvia sob a saliva

hálito
mucusa
ardência em cascatas
que abusa
na boca

sacharuk

2019-10-11

martelo

martelo

decerto alguns dias
são mais amargos
noutros vertem
doces fofuras

nos primeiros
tomo uns estragos
nos restantes
é pinga pura

sacharuk


2019-10-09

tua geometria

tua geometria
um crop quadrado
o retrato
teus membros oblongos
formavam retângulos
e a perspectiva
revelava ângulos
emparelhados
de picos eriçados
coroando os redondos
sacharuk


2019-10-02

cobra

cobra

a face deitada
sobre o umbigo
fareja a orla
águas de lua
a mata cerrada
modelo atípico

caudalosa
vontade de rio
enrosca tal cobra
inocula e penetra

sacharuk


outro poema sobre o luar

outro poema sobre o luar

sei que a lua
cara aos poetas
rege marés da loucura
o sopro revolto
a vazante do rio
o grito dos poros
as notas ocultas
a noite febril

sacharuk


2019-09-25

esperança

esperança

percutem adufes
ao bailado
da marafona
com a rapariga

contam fusos
ao traçado
do encontro da dama
com sua sina

sacharuk


platônico

platônico

habitas a penumbra
dos subterrâneos
de costas ao sol
sequer olhas para fora

porisso não vês
vagalumando no céu
as luzinhas sorridentes
que espocam à orla

sacharuk


2019-09-13

afável

afável

deságuam latentes
vertentes de vidas
sucessão gotejante
de lamentos

atravessam os tempos
habitantes do espaço
em plenitude confusa

caminham tortos
na secura obtusa
das mortas flores

percorrem lentos
deitam-se ao conforto
do calor do abraço
nas velhas dores

sacharuk


2019-09-03

eu falo do mundo

eu falo do mundo

ignoro-te
catarse poética
pois o poema
quando arrebenta
irrompe epiléptico
canais entrecruzados
fumaça de orégano rosa
influência de boa prosa
e memórias da alucinação

sou vivente
de bom coração
mas não carrego
alma bucólica
provo da náusea
do cotidiano
com natural sofreguidão
risco versos cibernéticos
ensaio virtual estrambótico
de fundamento insano
e algum desfecho caótico

improviso o intento
de confessa manipulação
fantasia sofismo retórica
travestido de argumento
de umbigocêntrica sedução

meu poema tem rubrica
e não é isento
de posição

sacharuk

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a bifurcação

a bifurcação

a noite mal começara
da estrada
ouvi o chamado

cruzei atalhos de capim alto
até vislumbrar a campina
ampla tal lua cheia
à mancheia
fartei-me de atmosfera

 interceptada pelo sol
a montanha

risquei a viela de pedras
passo acima
uma a uma

ao ponto crítico
da bifurcação

da trilha estreita
vi a ponta da plataforma
um furo na pedra
uma gruta

na rocha
o reino de fogo
e tal lótus
o homem velho
o contemplava

apanhei uma acha de lenha
joguei na boca da chama
o clarão iluminou a face do velho
e o espírito da terra
ardeu em seus olhos

sua boca cuspiu signos

nessa noite
ouvi sobre o fluido da vida
que foi derramado
no solo sagrado
das dores enterradas
das verdades mal contadas

refiz tantos caminhos
investido da alma do mundo
daí me fiz poeta

e o velho
ainda contempla a vida de lá
da bifurcação
ouvindo os signos
ecoarem nas rochas

sacharuk


meu intento

meu intento

não estou para falar de amor
se ele ainda não dói
nem rói
nem pede flor

não há flores na minha poesia
as arrancadas são mortas
são decoração de sepultura
meu poema é heresia

conheço esse tal de amor
não encontrei deus algum
e amor e deus
até podem ser compatíveis
mas não dependem um do outro
o único ponto em comum
eles não são invencíveis

não falarei de coisas
que desconheço
pois o meu apreço
é pelo amor que sinto
e não devo a uma criatura
que o senso comum insinua
e minha cabeça não atura

minha escrita é a riqueza
que colho do meu presente
mesmo que seja inventado
pois poeta mente
mas não se faz ausente
e eu não vivo de passado
nem me dedico à tristeza
só quando fico parado

grito contra o que abomino
e não suporto determinismo
minha ferramenta é o poema
e meu alvo é o sistema

sou tipo existencialista
meio insano
meio analista
falso moralista
talvez sartreano
tenho a marca da história
todo gaúcho é artista
e sou pampeano
com muita honra e glória

sou amigo da filosofia
e esta não é feita de fadas
nem gnomos e crenças
nem de almas penadas
ou universais desavenças

eu vim aqui escrever poesia
e isso para mim
não é só brincadeira
pois no fim
o que consome energia
é o abre e fecha
da porta da geladeira

sacharuk

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planalto

planalto

aquela bacia
e a torre ao alto
demarcam a ilha
que separa a Brasília
de música e poesia
e concreto e asfalto
daquela quadrilha

não há como crer
no viés do poder
do executivo
do legislativo
ou judiciário

pois vão nos foder
sem escrúpulo ou motivo
nos fazer de otários

longe da democracia
que rola no planalto
o cidadão se humilha
desconhece a alegria
e sobrevive ao assalto
da dita quadrilha

o que resta fazer
é não reeleger
os petistas
os maricas
os tiriricas
e paspalhos

que vão se valer
de sua própria justiça
e dar mais trabalho

sacharuk

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Maria feita de vida


Maria feita de vida

Maria feita de vida
pele de terra
olhar de saudade
o tempo
desconta o lamento
o tempo
não conta na sua idade
Maria nada tem a perder
faz do dia o intento
e da poesia
a beleza de ser

sacharuk

(para Célia)


2019-09-01

caneta cortadeira

caneta cortadeira

Coiso calçou chinelo
colocou camiseta
com casaco cambraia
comandou Constituição
com caneta compactor
cor celeste
criou confusão

conectou celular
convocou chefe culto cristão
convidou co-comandante Courão
chamou conge cearense Chelinha
comparecerem cozinha
curtir comemoração

chiou chaleira
com café coado
comeu cacetinho
colocou condensado

Coiso cortou capital
condenou cartel cultural
comprometido com causas
comunistas
calou cantor continental
calou chupacabras
calou cinemistas

chiou chaleira
com café coado
comeu cacetinho
colocou condensado

sacharuk


domador



domador

andei a colher alguns bons motivos
de amor colhe flor plantador colhe rosa
nos campos férteis de um recomeço
andei a sentir o espírito travesso

estive inclinado a riscar uma prosa
plantaflor colhe amor colhedor lenitivo
que tivesse um enfoque mais positivo
estive a buscar a essência poderosa

andei a esgueirar de qualquer tropeço
de medo arremedo arredor arremesso
em meio ao ciclone dessa rebordosa
andei a tentar ser mais digno e altivo

estive a pensar no valor de estar vivo
pensa amor sabedor pensador polvorosa
para relembrar o que sempre esqueço
estive ocupado em pensar ao avesso

assim descobri que a vida é curiosa
catamor cataflor catador e cativo
que basta um contato mais sensitivo
andei a domar minha alma teimosa

sacharuk

2019-08-31

de tudo o que te pertence

de tudo o que te pertence

o vento minuano
pronunciou teu nome
soprou leveza em minha face
tua voz contou verdades
minha voz cantou segredos

o vento minuano
ouviu os apelos
embalados no tempo e no espaço
tua mão abriu verdades
minha mão abriu segredos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

o vento minuano
cantou-te em versos
por inspiração e vaidade
tua voz contou vontades
minha voz cantou meus medos

o vento minuano
verteu-te da pele
banhado na luz intensa
teu ventre jorrou vontades
meu ventre vingou meus medos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

sacharuk


2019-08-26

a chuva chora

a chuva chora

a menina acorda
na noite de insônia
falando aos santos
das causas impossíveis
ela só pretende
saber o que diz
a voz da mente
que fala ao coração

a menina quer
aprender a simplicidade
nos livros de yoga
nos pratos frugais
já testou os pesos
conferiu as medidas
e lavou a alma
com um tanto de vinho

a menina quer
desvendar os segredos
que roubam seus sonhos
dentre a escuridão
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

ela ainda tem a poesia
que a poesia é o que restou
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

a menina cochila na sua rede
após longas horas
abraçando estrelas
a menina vertida
da inspiração
avança as horas
do novo dia

é preciso estar preparada
para a felicidade
ter as janelas abertas
a alma desvelada
canções antigas aprender cantar
dizer palavras bonitas
e esquecer os erros

ela ainda tem a poesia
que a poesia é o que restou
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

por ela
o universo intercederá
quebrará regras
cessará sacrifícios
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

sacharuk


2019-08-15

pampa de terra e areia

pampa de terra e areia

noite de lua velhaca
trapaça de doce afago
abraço envolvente no dia
espalhado pela cercania

hermanos em outro trago
costela na ponta da faca
piquete bambu e estaca
laguna arroio ou lago

pajada na pescaria
para acolherar poesia
um verso por um pescado
uma rima pela ressaca

fogueira frente a barraca
silêncio reina no pago
chaleira eterna que chia
enlace com a ventania

parceiros no mate amargo
rebrilham a vida opaca
fazem a tristeza mais fraca
nas prosas de índios vagos

sacharuk


coordeno orações

coordeno orações

procuro-te
logo te acho
entregas-te
depois me escapas
chamo-te
então te despacho
enrolas-te
assim me desatas

peço paixão
ofereces motivos
queres um cristão
e eu sou herético
peço-te vírgula
tu dás conetivo
pedes ação
entrego-me sindético

leio tuas rimas
somente as bonitas
finjo que entendo
deixo-te aflita
e caio em subordinação

o que te escrevo
foge a tradição
faço amor
relevo a estilística
tua língua é padrão
falo sociolinguística
emendas períodos
coordeno orações

a ti morena
tenhas certeza
que escrevo rimas
para te possuir
provar tua beleza
sacharuk


2019-08-09

caótico

caótico

Saturno
por seu turno
procrastinado e soturno
ruminou argumentos
criou os inventos
mais absurdos

bigbang dos tempos
supernova ao vento
um traçado confuso
de trópicos e fusos

organismo caótico
de viventes robóticos
retratos bucólicos
e princípios imundos

sacharuk



2019-07-26

naked art


naked art

esqueci de tolos preceitos
e pintei diluídas temáticas
foste tu recoberta de tintas
sem a fatalidade realista

pincelei manchas fálicas
com cores primárias do peito
capturas de formas e gestos
linguagens nuas sem retóricas

desprezei paisagens cinzentas
as mortes brancas e as pretas
descrevi a cena mais drástica
em teus lábios vermelhos sedentos

transmutei em cores meus restos
com minhas vontades pictóricas
fiz suave o atrito das cerdas
a lamber tuas entranhas malditas

e te fiz assim tão impúdica
nas orgias do meu manifesto
do teu ventre aberto e impresso
donde surge a mulher magnífica

sacharuk


2019-07-25

hipotenusa

hipotenusa

o traço da mi'a vida hipotenusa
nas rimas mal inclusas nos sonetos
que passa por quartetos dor difusa
na rota que recusa o ângulo reto

e no vértice aberto está intrusa
a escrita que desusa o obsoleto
quadrado dos catetos soma escusa
a linha que acusa o longe e o perto

nem sempre que aperto parafusa
sequer encontro musa nos tercetos
nem sempre que eu tento sou esperto

nos versos encobertos jaz confusa
a letra inconclusa pelos ventos
traduz seu comprimento em dialeto

sacharuk

2019-07-20

a lua e mais nada

foto: W Sacharuk

a lua e mais nada

vejo novembro
sob foco de lua
íris de ouro e prata
e tom nostalgia
luz que ecoa
na noite calada
em mim só encontro a lua
e mais nada

vejo novembro
sob prisma de poesia
corpo coberto com véu
 seduz e insinua
toma brilho do sol
e oferece à rua
espelha a face de Apolo
em calor e ousadia

vejo novembro
sob facho na estrada
 eloquência das marés
verves alteradas
nas danças insanas
nos saraus da geologia
morre distante dos olhos
quando a noite recua

vejo novembro dormir
quando dorme a lua

sacharuk

2019-07-18

cultuar-te

cultuar-te

na queda
o olhar te sequestra
as vozes
dizem teu nome

todas as letras
para cultuar-te
imersas em poesia
tatuadas nos pés
dizem teu nome

ooh - ooh ooh - ooh ooh
vem sorrir amor
entender a tristeza

na queda
a mão te segura
os versos
dizem teu nome

todas as letras
para cultuar-te
peças de artesania
costuradas na pele
dizem teu nome

ooh - ooh ooh - ooh ooh
vem sorrir amor
entender a tristeza

na queda
do abismo da angústia
ao paraíso infinito
os animais e as plantas
todas as coisas
dizem teu nome

todas as letras
para culturar-te

sacharuk


2019-07-17

sobre a cama

sobre a cama

no dia em que eu acordar
coberto de águas azuis
com teu olhar diamante
presente
na fronte

jogarás sobre a cama
a minha fotografia

se eu acordar algum dia
e não enredar tuas tramas
meus olhos fechados
não verão
nenhuma mágoa

eu vou sentir as águas
lavarem enganos
deixarei ao oceano
as minhas amarras

eu vou pedir às águas
perdão pelos danos
deixarei ao oceano
o meu intento

no dia em que eu acordar
e não sentir o vento
a lua, o sol, o chão
choverá um lamento
numa canção
que te chama

e jogarás sobre a cama
a minha poesia

eu vou sentir as águas
lavarem enganos
deixarei ao oceano
as minhas amarras

eu vou pedir às águas
perdão pelos danos
deixarei ao oceano
o meu intento

sacharuk



2019-07-15

pampas

pampas

na superfície
há muitos pampas
planaltos
planícies
fronteiras tortas
de muitas estampas

sinto-me artífice
do chão que eu amo
se isso é fato
ou crendice
pouco importa
se eu me engano

sacharuk


para ver transcendências

para ver transcendências

já sei dormir
de olhos abertos
quando sombras noturnas
adornam as ideias
com vestes soturnas

de olhos abertos
já sei onde ir
sem medo de cair
correr desertos de areia
experimentar retrocessos

naufrago escunas
atrás das fortunas
de olhos abertos
sem a luz da candeia
eu já sei dirigir

vejo o karma fluir
de olhos abertos
preencho lacunas
sei urdir uma teia
com minhas escusas

de olhos abertos
faço o mundo ruir
para depois ressurgir
nos elos de uma cadeia
na prenhez doutros versos

sacharuk


2019-07-12

passitos no más

passitos no más

nem todo passito é bailado
no doispracá das inquietudes
doispralá frioleiras e ninharias

nem sempre os cruéis amiúdes
com todas as outras asneiras
se expurgam em versos livres
da mais putaça das poesias

pior que nem sempre se vive
no calor da vaneira trançada
a trançar as línguas e as águas
entre cheiros buracos e matos

mas nem sempre é tão bruta
quando cai da mão dos algozes
um bolsafamília e umas nozes
para um par de poetas sem dentes

nem sempre se dança de frente
às vezes se dança de lado
se o malvado ritmo descamba
dá chilique em letra de fado
faniquito em roda de samba

mas hoje eu apenas queria
ouvir a canção nascer da poesia
dançar com a bugra de rosto colado

sacharuk


2019-07-08

cantilena ao socialismo aquático


cantilena ao socialismo aquático

os peixes traíras
naturalmente nefastos
a poucos pés da complexidade
dos nossos mares tão trágicos
rodamoinho de imbroglios
quintanamente bicudos

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para curtir
a própria perplexidade

e com o peixe-povo?
nada novo
só nada para servir
a sua lulossantidade

os peixes traíras
são só alguns poucos
e nadam muito à vontade
num menage sabático
caviar no antepasto
borbulham vinho do porto

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para comer
chorume e esgoto

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para cheirar
peido e arroto

sacharuk

lula-peixe 
Lula (Foto: Divulgação)

2019-07-07

autoclisma da retrete

autoclisma da retrete

a escrita que de mim lês
trata de coisas inexistentes
se é que me entendes...

revelo nuanças holográficas
empreendo reações anormais
escapulidas multidimensionais
entre saídas acrobáticas

sou broto de vida na internete
jamais floresce e nem rende

meus emblemas são lanças fálicas
acertam alvos desiguais
gritam versos abissais
escarros acesos sem temática

ao tocar o autoclisma da retrete
dos meus versos só resta o aceno
é tão bruto ter verve carente

minhas estrofes são cenas trágicas
milhões de ideias e os mesmos finais
de enredos utópicos virtuais
que declamam peças mágicas

sacharuk

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2019-07-06

sabes...

sabes...

gosto de ti
deliciosa
e toda
das formas que és

trazes a rosa
para o vento beijar

te gosto assim
quando te pões a soprar
despencar pétalas
em verso e em prosa
sobre as águas do mar

donde chegas sereia
a rabiscar movimentos
com raios de lua cheia

e tu danças
serpenteias
venenosa
depois cantas
fazes das letras
doces cirandas
para rodar
em volta da casa

tua canção desanda
as minhas tristezas
se me mandas deitar
ao teu colo

enquanto me encantas
com indecorosas
delicadezas

sacharuk



mana


mana

mana, algo tão diferente
saiu de dentro de mim
pela noite silente
na tocaia da lua minguante
um fiat lux no meu abrigo

e creias no que te digo
hoje todos viram luzes
por detrás das cruzes
iluminando as pedras
e criaturas estranhas
vindas de outras eras

mana, minhas ideias
são meras quimeras
ou tolices tamanhas
que apenas em outras esferas
poderiam ser entendidas

em nossas distintas vidas
cruzamos as mesmas estradas
paramos nas mesmas paradas
trilhando o curso dos amantes
tão livres
tão claros
e distantes

hoje vi os caminhantes
andando depressa
carregando pastas negras
e via de regra
vi os meninos da vila
que fica aqui ao lado
queimando uma vela
dançando sem camisa
no estacionamento 
do supermercado

mana, um dia ensolarado
estará chamando por nós
com seus raios energizados
quentinhos de felicidade
a secar as poças nas ruas

mas se chegar nova lua
nesse canto da cidade
por onde eu ando sozinho
te direi da necessidade
de contar com teu carinho

sacharuk

das artes manuais

das artes manuais

nas mãos trago o signo
registros do destino
a história das sinas
estigma raio ametista
e o corte diamante
dedos e falanges
de emanações quentes

nelas reside a febre
revolução incontida
o enlace da corda
senso e sentimento
a sorte e o lamento
a passagem e a porta

as mãos têm a voz
fachos exatos da luz
veredas do argumento
que implodem muros
entre guerra e paz

tenho nas mãos
nuvem branca de sonhos
bálsamo das dores
espinhos de flores
feridas calejadas

delas verte a verve
da criação inaudita
sutileza do corte
extenso e profundo
do louco até o mundo
a viagem e a morte

sacharuk

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