Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

raimundo o mundo

raimundo o mundo

raimundo o mundo
nao é para os fracos

precisa fel de serpente
uma massa de delinquentes
sob um discurso simulacro

a requenguela acredita
balança o rabo e grita
replicando tal papagaio
pulando feito macaco

sacharuk


calendário

calendário

ela ensina sonhos
percorre meus cabelos
nos seus finos dedos
acolhe ao umbigo
minha cabeça
histórias inteiras
sob bancos de areia

ela imprime mundos
nos olhos redondos
semeia chuva torrencial
colhe a flor casual
e beija as mariposas
no jardim primaveril

poisam pássaros
no calendário tatuado
na sua perna
e ela tão linda
tanto quanto louca
sorri ainda
pelo canto da boca

sacharuk



paradoxo avícola


paradoxo avícola

paradoxal
é cada opinião
comezinha
sobre o tamanho do pinto
quando é normal
a galinha
botar os ovos
e cada pintão
que ninguém acredita

e ainda
a desenpuleirada
penosa crescida
também cisca no chão
traça as minhocas

então
bicho de todo tipo
ela leva no bico
e desentoca

sacharuk


gulosa

gulosa

gulosa boneca
remoendo desejos
gatinhará bem sapeca
e se tiver chance
morderá levemente
apertará minha cabeça
entre os lábios incandescentes
e beijará o meu olho
para que eu
nunca a esqueça

sacharuk



aroma de vento

aroma de vento

prende-me
entre as coxas
meu passo
teu traço
meus dedos
entranham cabelos
ondas vermelhas
farejo
cheiro felino
chorando da carne
aroma de vento
sacharuk


piperina

piperina

ardia malagueta
na ponta da língua
formigava papilas
solvia sob a saliva

hálito
mucusa
ardência em cascatas
que abusa
na boca

sacharuk


martelo

martelo

decerto alguns dias
são mais amargos
noutros vertem
doces fofuras

nos primeiros
tomo uns estragos
nos restantes
é pinga pura

sacharuk


tua geometria

tua geometria
um crop quadrado
o retrato
teus membros oblongos
formavam retângulos
e a perspectiva
revelava ângulos
emparelhados
de bicos eriçados
coroando os redondos
sacharuk


cobra

cobra

a face deitada
sobre o umbigo
fareja a orla
águas de lua
a mata cerrada
modelo atípico

caudalosa
vontade de rio
enrosca tal cobra
inocula e penetra

sacharuk


outro poema sobre o luar

outro poema sobre o luar

sei que a lua
cara aos poetas
rege marés da loucura
o sopro revolto
a vazante do rio
o grito dos poros
as notas ocultas
a noite febril

sacharuk


esperança

esperança

percutem adufes
ao bailado
da marafona
com a rapariga

contam fusos
ao traçado
do encontro da dama
com sua sina

sacharuk


platônico

platônico

habitas a penumbra
dos subterrâneos
de costas ao sol
sequer olhas para fora

porisso não vês
vagalumando no céu
as luzinhas sorridentes
que espocam à orla

sacharuk


afável

afável

deságuam latentes
vertentes de vidas
sucessão gotejante
de lamentos

atravessam os tempos
habitantes do espaço
em plenitude confusa

caminham tortos
na secura obtusa
das mortas flores

percorrem lentos
deitam-se ao conforto
do calor do abraço
nas velhas dores

sacharuk


Maria feita de vida


Maria feita de vida

Maria feita de vida
pele de terra
olhar de saudade
o tempo
desconta o lamento
o tempo
não conta na sua idade
Maria nada tem a perder
faz do dia o intento
e da poesia
a beleza de ser

sacharuk

(para Célia)


caneta cortadeira

caneta cortadeira

Coiso calçou chinelo
colocou camiseta
com casaco cambraia
comandou Constituição
com caneta compactor
cor celeste
criou confusão

conectou celular
convocou chefe culto cristão
convidou co-comandante Courão
chamou conge cearense Chelinha
comparecerem cozinha
curtir comemoração

chiou chaleira
com café coado
comeu cacetinho
colocou condensado

Coiso cortou capital
condenou cartel cultural
comprometido com causas
comunistas
calou cantor continental
calou chupacabras
calou cinemistas

chiou chaleira
com café coado
comeu cacetinho
colocou condensado

sacharuk


de tudo o que te pertence

de tudo o que te pertence

o vento minuano
pronunciou teu nome
soprou leveza em minha face
tua voz contou verdades
minha voz cantou segredos

o vento minuano
ouviu os apelos
embalados no tempo e no espaço
tua mão abriu verdades
minha mão abriu segredos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

o vento minuano
cantou-te em versos
por inspiração e vaidade
tua voz contou vontades
minha voz cantou meus medos

o vento minuano
verteu-te da pele
banhado na luz intensa
teu ventre jorrou vontades
meu ventre vingou meus medos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

sacharuk


a chuva chora

a chuva chora

a menina acorda
na noite de insônia
falando aos santos
das causas impossíveis
ela só pretende
saber o que diz
a voz da mente
que fala ao coração

a menina quer
aprender a simplicidade
nos livros de yoga
nos pratos frugais
já testou os pesos
conferiu as medidas
e lavou a alma
com um tanto de vinho

a menina quer
desvendar os segredos
que roubam seus sonhos
dentre a escuridão
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

ela ainda tem a poesia
que a poesia é o que restou
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

a menina cochila na sua rede
após longas horas
abraçando estrelas
a menina vertida
da inspiração
avança as horas
do novo dia

é preciso estar preparada
para a felicidade
ter as janelas abertas
a alma desvelada
canções antigas aprender cantar
dizer palavras bonitas
e esquecer os erros

ela ainda tem a poesia
que a poesia é o que restou
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

por ela
o universo intercederá
quebrará regras
cessará sacrifícios
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

sacharuk


caótico

caótico

Saturno
por seu turno
procrastinado e soturno
ruminou argumentos
criou os inventos
mais absurdos

bigbang dos tempos
supernova ao vento
um traçado confuso
de trópicos e fusos

organismo caótico
de viventes robóticos
retratos bucólicos
e princípios imundos

sacharuk



cultuar-te

cultuar-te

na queda
o olhar te sequestra
as vozes
dizem teu nome

todas as letras
para cultuar-te
imersas em poesia
tatuadas nos pés
dizem teu nome

ooh - ooh ooh - ooh ooh
vem sorrir amor
entender a tristeza

na queda
a mão te segura
os versos
dizem teu nome

todas as letras
para cultuar-te
peças de artesania
costuradas na pele
dizem teu nome

ooh - ooh ooh - ooh ooh
vem sorrir amor
entender a tristeza

na queda
do abismo da angústia
ao paraíso infinito
os animais e as plantas
todas as coisas
dizem teu nome

todas as letras
para culturar-te

sacharuk


passitos no más

passitos no más

nem todo passito é bailado
no doispracá das inquietudes
doispralá frioleiras e ninharias

nem sempre os cruéis amiúdes
com todas as outras asneiras
se expurgam em versos livres
da mais putaça das poesias

pior que nem sempre se vive
no calor da vaneira trançada
a trançar as línguas e as águas
entre cheiros buracos e matos

mas nem sempre é tão bruta
quando cai da mão dos algozes
um bolsafamília e umas nozes
para um par de poetas sem dentes

nem sempre se dança de frente
às vezes se dança de lado
se o malvado ritmo descamba
dá chilique em letra de fado
faniquito em roda de samba

mas hoje eu apenas queria
ouvir a canção nascer da poesia
dançar com a bugra de rosto colado

sacharuk


todo dia morrer

todo dia morrer
quando pequeno
corria detrás do trem
sou homem velho
já não me convém
certas vezes eu ando
☘️☘️ no encalço da sorte☘️
certas vezes eu sento
💀💀💀 no descanso da morte
🐓 quando canto
eu invento
eu aprendo
☠️ todo dia morrer
certas vezes eu ando
☘️☘️ no encalço da sorte☘️
certas vezes eu sento
💀💀💀 no descanso da morte
sempre digo
o que não entendem
nos remotos espelhos
de olhos vermelhos
certas vezes meus ventos
🌪️🌪️ fazem rodamoinhos🌪️
certas vezes vou lento
🐌 🐌 eu arrasto caminhos
🐓 quando canto
eu invento
eu aprendo
☠️ todo dia morrer
certas vezes meus ventos
🌪️🌪️ fazem rodamoinhos🌪️
certas vezes vou lento
🐌 🐌 eu arrasto caminhos
conheço tantos lugares
já sei ir sem sapatos🐾👟
conheço a rota dos ares
sei saltar oceanos
sei tocar tua mente
e sei abrir um buraco🤯
👍 certas vezes inteligente
👎 certas vezes simulacro
🐓 quando canto
eu invento
eu aprendo
☠️ todo dia morrer
certas vezes
🐓 quando canto
eu invento
eu aprendo
☠️ ☠️☠️ todo dia morrer
sacharuk


a cobra comeu o richard

a cobra comeu o richard

richard mandou matar boto
dormiu com tamanduá
a cobra comeu o richard
no sertão da Paraíba

richard vai abajo
richard vai arriba
richard fez cara de louco
e até comeu um preá

richard é ecologista
richard é natural
richard enche de beijjos
a cabeça do animal

richard mandou matar boto
dormiu com tamanduá
a cobra comeu o richard
no sertão da Paraíba

richard vai abajo
richard vai arriba
a cobra comeu o richard
no sertão da Paraíba

sacharuk


seriema

seriema

canta bonito
seriema avoada
daqui te ouço
flauteando a toada
dos versos compridos

aninha-te em meu peito
árido dolorido
chão de cerrado
daqui te vejo
espectro refletido
do meu firmamento

canta bonito
seriema avoada
anuncia chuvarada
percutindo lamentos
em frases rasgadas

daqui te sinto
esvoaçando ao ventos
desenhando pegadas
no infinito

sacharuk


dos dias imprecisos



dos dias imprecisos

Dei as costas para o dia para que a luz ainda não tocasse meus olhos cansados. Então, me abraçaste e sentiste nas mãos o calor do sol tatuado nas minhas costelas.

Apenas dançaste, sutilmente embalada pelo vento que batia.


Nadaste nos próprios sonhos quando me ouviste falar baixinho. E meu brinco tilintou nos teus dentes que sorriam divertidos, perfazendo longínquos sinos metálicos.

Apenas bailarinaste, tão célebre quanto louca, sobre o meu umbigo.

Meus dedos frios curaram tuas dores. Beijaste-os com carinho e leste na minha testa as tantas histórias dos dias imprecisos.

Assim aprendi a chover no tempo dos amores líquidos.

sacharuk


Cárcere Curitiba 9

Cárcere Curitiba 9

Calamar Cachaceiro condiz com conhecida criatura cuja competência consegue confundir companheiros cumunistas cujas cabeças cheias com cocô colocam criaturas contra criaturas conduzindo cizânia. Cada companheiro comunga com corrupção conduzida com chefe Calamar, compram camisetas com cara criatura carniceira chamada Che, consideram Cuba como continente cujo cumunismo colabora com cidadania... Companheiros concordam com cada coisa cabeluda conduzida com consciência cega, com cara constituída como cedro. Cumunistas conferem com criaturas cujos cérebros confundem com cus. 

Conforme célebre comandante crime corrupção continental chegou cadeia curitibana, conduzido com carcereiros cobertos com coletes contra cravejamento, cara companheira Cusângela comandava carreata colando cartazes contra confinamento. Centenas companheiros cumunistas cooperavam com Cusângela caminhando centro cidade Curitiba clamando contra condução coercitiva, contra condenação chefe Calamar, contra colocação caneleira circuitada, contra causídicos cujas condenações colocaram Calamar Cachaceiro confinado cadeia. 

Calamar chamou:

- carcerero, carcerero, compareça cá. Calamar carece conversar!

- calminha, Calamar. Certamente convém carcereiro conversar com Calamar Cachaceiro, conforme Calamar contribuir com cédulas. 

- certo, carcerero, conta cédulas. Calamar, com coração caridoso cultiva costume colaborar com cidadãos carentes, colabora com caros carcereros colocando centenas cédulas cofrinho. Carcerero conseguirá colocar crianças colégio competente, comprará carro com centenas cavalos, comprará calças couro com chapéu conforme cantores caganejo... contudo, colaboração consiste com carcerero cooperar com casamento Calamar Cachaceiro.

-claro, Calamar. Como carcereiro consegue contribuir?

- carcerero chama Cusângela comparecer cadeia curitibana. Calamar carece casar com Cusângela, contudo, carece confirmar casamento. 

Carcerero contribuirá comprando carne, como condição chamuscar churrasco, comprará champanha, cerveja, canapés, comprará colchão com cobertores.  Calamar com cacete caído, contudo carece consolidar casamento comendo Cusângela. Carece carcerero comprar comprimidos com cor celeste! 

sacharuk

fragmento de um texto censurado

Faltavam-lhe palavras. Ela bem queria que jorrassem de qualquer inesgotável fonte, somente as boas, já que as más ela relegara aos quintos da moralidade. Sabia que as palavras são como aquela poeira reunida semanalmente sobre o raque do televisor, a qual ela limpa com ardor e sofreguidão.

Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala e espiar a rua. Seu pobre gato Divino não fala e nem lê, contudo não é cego. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas e que não lhe dizem respeito desfilando pelo passeio público. Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana. Mas ela também não queria saber que, no fundo, o problema era outro e, novamente, dispensara outra ideia pictórica flamejante de falos e bocetas. As palavras, sempre elas, a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho e eu estou contaminada, justificava ela. Naturalmente, manteve a janela fechada.

Voltou logo ao quarto, recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo e abriu numa passagem qualquer. Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que, todos os dias, a curavam de si mesma.

(fragmento de um texto censurado – sacharuk)


de doer por teu amor

de doer por teu amor

lança-te a mim
demônio
come tudo
mastiga e engole
logo regurgita-me 
por intriga

não importa
se não suportas
o fardo do amor
ainda me fazes
a mais bonita
a mais maldita
a mais mulher

amordaça-me
malfeitor
sacia a fome
que sinto de ti

vivo cansada
de doer por teu amor

monstro cruel
a ti interessa
castigar-me sem pressa
e tua cegueira
te guia ao veneno
do teu fel
se sou o teu fim

lança-te a mim
demônio
o tanto que quiseres
o que for preciso
eu te aguento
estou preparada

estende em mim
tua onda furiosa
de impiedoso inverno
congela-me o ar

vivo cansada
de doer por teu amor

tuas garras 
meus pulsos
o prazer de sangrar

vivo cansada
de doer por teu amor

sacharuk


partículas mágicas

partículas mágicas

a simulação
de alguns versos
reverbera emoção
em rimas toantes
dispersas em sílabas
equidistantes
afinadas no mesmo tom

Cada poema
para ser completo
tem sua prática
calcada no dom
mimético
ou catártico
mas decerto
é repleto
de partículas
mágicas
de som

sacharuk


estive perdida



Estive perdida

Naquele dia tu estavas de costas para mim com teus cabelos castanhos longos e escovados. Como invariavelmente faziam as meninas da tua turma, trocavas ideias com Anelise sobre paixões adolescentes durante o intervalo das aulas da oitava série. Vocês sorriam sem permissão e especulavam acerca de beijos roubados. Confessavam uma à outra os pequenos desejos de consumo e de felicidade. Vocês eram alegres e ilustravam aos bons ventos a doçura colorida dos sonhos e promessas.

No meu voo fulminante, ainda pude ver que o tempo as contemplava e contava sem pressa. Ele é justo e infalível, mas apenas o destino é capaz de interceder.

Logo após a minha chegada, Anelise disse ao repórter que, vez por outra, tu vestias o jaleco branco do teu irmão enfermeiro e, secretamente, brincavas que eras uma grande cirurgiã. Salvavas inúmeras vidas com a presteza das ressuscitações de emergência e com cortes perfeitos, simulando o bisturi com a faquinha de pão.

Verdadeiramente humana e sensível, tu, doutora, fazias a diferença. Disse também que a vida real não era tão mágica assim. Era preciso ter muita sorte para sair da comunidade e ser alguém na vida. Anelise exibiu sua madura lucidez de quatorze anos.

Ocorreu que em meio aos estampidos de fogo, eu cortei rasante pelos ares fétidos do Morro das Vassouras. Não sei ao certo se quem me enviou era mocinho ou bandido, afinal, espoletei-me de dentro daquele tubo de aço e lancei-me furiosa contra qualquer desses corpos que transitam indiferentes. Foi hoje, terça-feira pela manhã, quando insana, risquei linha reta pátio adentro da Escola Fundamental Paulo Freire. Disparei num poderoso súbito e me alojei vitoriosa no pequeno furo que abri no teu cérebro encantado. Eu que andava perdida, fui prontamente achada por ti, doce criatura, que sequer me procuravas.

Ainda foste recepcionada na unidade de pronto atendimento da comunidade pelo teu irmão, mas infelizmente, não resististe ao ferimento. E eu permaneci inerte, num sono nefasto, entranhada nos tecidos dos teus sonhos dissolvidos na fatalidade do nosso breve encontro, até que fui removida pelo pessoal da balística. Causa mortis. Se te conforta saber, tudo acabou ali para mim também.

Antes das férias, em tua homenagem, Anelise e as outras meninas dançarão numa apresentação de hip hop durante o festival escolar pelos direitos humanos.

sacharuk



passaporte

passaporte

as tantas memórias
poeiras e histórias
caras de cinema mudo
pretendem saber tudo
mas estão enganadas

desenho pegadas
nos corredores da sina
encantada na dança
já não sou mais criança
já não sou mais menina
vivo presente no nada

em meio às lembranças
versos resistentes
clamam por esperança
mas suas irmãs prematuras
morreram de amargura
como vadias largadas

eu pego estrada
lanço o futuro à sorte
carimbo meu passaporte
aprendi a ver no escuro
só tenho certeza da morte

sacharuk


pecado algemado

pecado algemado

amado adorado namorado
sonhado dançado bailado
lado traslado exilado

vingado falado metralhado
criticado reclamado acabado
avacalhado desmoralizado espancado

sentado cagado mijado
olhado vidrado calado
ensimesmado cansado esgotado

passado perdoado abraçado
retratado abençoado amigado
renovado desejado tarado

provocado babado molhado
acelerado gritado tresloucado
terminado banhado gozado

sacharuk


dominatrix

dominatrix

te encontro no bar
banha teu corpo imundo
com óleo de caminhão
te farei latir como cão

hoje te deixo ir fundo
mas se preciso
grito que não
se tu me jogas ao chão
dou dez mil voltas no mundo

eu te farei suplicar
no entanto não vou gozar
me guardarei ao segundo

sacharuk


gula 2

gula 2

acaso eu te tome
tomo em goles?

sacharuk

hemisférico

hemisférico

se eu tirar o teu norte
tu me dás o teu sul?

sacharuk

pegada

pegada

não escapas
se te viras
tem rabo

sacharuk


poda

poda

tudo posso
caso possa
te poder

sacharuk

elétricos

elétricos

tu me fase
eu te fio
tu me terra

sacharuk

gula

gula

miro-te os olhos
quando engoles
versos sementes

sacharuk



há uma dor que me tenta
tal pimenta que arde
alguma dor tem verdade
de qualidade violenta

há uma dor que cativa
tal dor que me invade
alguma dor traz saudade
sintática e substantiva

que dói pulsar feminina
dói doer só
que dói ser subjetiva
dói de dar dó

sacharuk



pelas quimeras

pelas quimeras

quimeras
serão teus segredos
na chuva diluídos
quiçá esquecidos

livrar-te-iam dos medos
quem dera!
ouvirias o grito da terra
acordarias mais cedo

lembrarias dos idos
dos belos adormecidos
feitiços e engendros
quisera!

livrar-te-iam do efeito
da humana miséria
das imagens etéreas
em seus mundos perfeitos

sacharuk


pensa o que quiser

pensa o que quiser

metro quadrado
quatro lajotas no chão
quatro pés ensapatados
dois para cada lado
rodopios apressados

quadrilha de saltos
dois baixos
dois altos
bicos encaixados
no vão
entre os sapatos
e o chão

movimentos ritmados
música de motel
espirais para o céu
qualquer promessa
que aqueça a festa

quatro mãos
entrelaçadas
bocas pegadas
baile a dois

maldita aflição
vergonha que passo
ah! pensa o que quiser
dormi a noite no braço
de uma outra mulher

sacharuk


previsível e previsto

previsível e previsto

poesia
de versos jumentassílabos
aprumada medição
tijolos de construção

análise de dados
topografia
astrologia
movimento dos astros

régua na mão
martelo formão
compasso esquadro
forma de padaria

alfaiataria
de versos alinhavados
lisos como sabão
dentro da previsão

poemas contaminados
com ideias vadias
dançam pela alforria
do poeta escravizado

sacharuk


poema urgente

poema urgente

queria ser poema urgente
inspirado nas flores do quintal
estrofes em gotas
contra a sede
essência de versos
contra o mal

queria ser poeta da rede
vislumbrar prestígio nacional
meu argumento ninguém entende
e o formato não é sempre igual

queria traçar poema al dente
queimar os beiços
num verso quente
apimentado com muito sal

queria saber fazer diferente
ponta-cabeça
detrás para frente
achar razão
sentido e final

sacharuk


poeta nu - acróstico

poeta nu - acróstico

Pelado!
O maldito poeta
Esteta
Trafegava
Alamedas e anseios

Na alma trajava
Um verso livre

sacharuk


ao meu censor

ao meu censor

o povo comenta
que contratei o diabo
não digo que sim
nem digo que não
lavo minhas mãos
e deixo em aberto

não faço promessas
eu me acho esperto
vivo no inverso do avesso
fico do lado que presta
a tribo do meu apreço
é indiada xucra do rincão

desconheço o capeta
não assino contrato
não faço juras
não faço tratos
nada que me comprometa

entorno um trago
enquanto escorrego a caneta
e sacramento o ócio

boa noite e até outro dia
entende que meu negócio
é vasculhar alguns troços
para achar alguma poesia

sacharuk


porta entreaberta

porta entreaberta

ela saiu
deixou a porta entreaberta
a intenção encoberta
do retorno
noutra oportunidade

não admitiu
que não estava certa
nossa vida incompleta
um transtorno
uma desumanidade

e mentiu
julgou-se esperta
agora a saudade
já não aperta
o que era morno
agora é só caridade

sacharuk




Preliminares

Preliminares

Lá no tempo das certezas
Lambia enternecida o sorvete
que pingando no corpete
desenhava achocolatadas belezas

Lá no tempo dos devaneios
Voando por mil e uma madrugadas
as estrelas, na camisola desenhadas,
faziam vibrar as notas dos anseios

Lá no tempo das purezas
A paixão era tanto mais quente
trocávamos nossos chicletes
e outras carícias sob a mesa

Lá no tempo daqueles rodeios
num baile de línguas enroscadas
a nossa espera foi saciada
depois do toque em meus seios.

Marisa Schmidt & sacharuk


Elba e Valdir - acróstico

Elba e Valdir

E lba de sol e malmequer
L ançou pétalas pelos canteiros
B ravia dama tal fosse o cardeiro
A mãe-natureza disposta em mulher

E m rara beleza viveu seu amor

V aldir nutriu-lhe calor em luzeiro
A primavera do seu bem querer
L ume de sonhos em pleno esplendor
D essa magia de amor verdadeiro
I ncandescências fizeram irromper
R ebentos tão lindos da sua flor

sacharuk



presente grego

presente grego

chama os viventes
as pitonisas
os consulentes
ao casamento da nereida

chama os imortais
hierofantes
o soberano de Atenas

Afrodite entregou Helena
ludibriou Menelau
Páris ganhou a guerra
e Tróia
seu cavalo de pau

sacharuk


princesa de areia

princesa de areia

ela era a princesa
do reino da freguesia
e seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa

eu a observava de cima
sobre castelos de areia
e sempre lá estava ela
a mais linda donzela
de toda a aldeia

eu a olhava disperso
entre o dia e a ceia
e ela lia meus versos
entre a ceia e o dia
trocávamos poesia

quisera jogasse tranças
tal a linda Rapunzel
eu teria mais esperança
de tirá-la dessa cadeia
da mente que devaneia
em mundos de papel

sempre a vejo
como a Cinderela
ou a princesa Bela
aguardando adormecida
que o meu beijo
restitua sua vida

sacharuk



qualquer distinto poeta

qualquer distinto poeta

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
bater em retirada
    que ninguém se preocupe

não é mais que nada
quando há coisas mais
notoriamente importantes
com o que se preocupar

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
inventar de fazer revoada
    que ninguém se perturbe

vem de asa quebrada
novamente na busca da paz
sempre tão distante
que nunca consegue alcançar

sacharuk