não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

Boneco de ventriloquia

Boneco de ventriloquia

Fernandinho era um menino de madeira. Boneco bonzinho, estudioso, que sonhava ser presidente do Reino dos Chongamongas.

O destino implacável pregou-lhe terrível peça: Sua conquista dependia de subjugar-se a um maldito ventríloquo manipulador.

Sua ruína: A cabeça de madeira quase não suportou a mão suja que a manipulava. Fernandinho odiava emprestar sua boca aos movimentos obscuros daquela voz fascinora.

E aquele ventríloquo, rato desprezível, ofertou o lindo sonho ao menino boneco. E todas as possibilidades se fizeram reais. 

Fernandinho agora já não era bonzinho. Havia um mundo para conquistar.

sacharuk


astronave

astronave

atenção tripulantes da nave Ursal
na órbita da terra Carnaval
estejam prontros para o pouso
e não esqueçam da nossa missão

enfrentar militantes do Coiso
detonar aos fiéis ao ladrão
caçar tamanduás sem bandeira
e quem cobra alugel em ocupação

enviar todos eles numa astronave
com algemas e tornozoleira
granada no cu e alarme

nem coroné
nem a besta
nem o doutor
nem o cristão

nem invasor
nem parasita
nenhum machista
sequer elenão

nenhum tucano
ou bolivariano
ou fantoche bobo 
do patrão

enviar todos eles numa astronave
com algemas e tornozoleira
granada no cu e alarme

sacharuk


microcosmo

microcosmo

--Sonia, tu nem sabes quem chegou na favela.

-Quem? Conta logo! O Emicida?

--Não, Sonia, aquele que vai ser presidente, o Andrade. Vamos lá receber ele. Ele é um coroa bem gatinho. Vamos logo. Vai estar todo mundo lá.

-Mas Livinha, ele não é aquele fantoche do lula?

--Acho que é. Eu vou votar nele. 

-Livinha! Como um presidiário poderá mandar no Brasil?

--Que presidiário? O Andrade é detento?

-O lula, mulher!

--Lula é presidiário? Nem sabia. Ué! Mas, não é um presidiário que manda aqui no morro?

sacharuk


meada

meada

estendo o fio de poesia
no percurso até Vênus
para jamais me perder

logo oferto tangerinas
aos pés da tua santinha
já sei orar sem perceber

conta-me
conta-me
se estás pensando algo

ama-me
ama-me
eu quero sempre te sentir

fala-me
fala-me
quando quiseres algo

chama-me
chama-me
eu posso sempre te ouvir

meus versos em rodamoinho
turbilhonam desconexos
para jamais te esquecer

estendo a linha da meada
até teus pés de bailarina
e dançarei até aprender

conta-me
conta-me
se estás pensando algo

ama-me
ama-me
eu quero sempre te sentir

fala-me
fala-me
quando quiseres algo

chama-me
chama-me
eu posso sempre te ouvir

sacharuk