Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

de tanto voar criou asas



de tanto voar criou asas

ele brincou sozinho
com palitos de fósforo
e embalagens vazias
legítimo arquiteto
do seu mundo disperso

acompanhou passarinhos
de um helicóptero
com hélice de polia
e girou torvelinho
sobre uma cobertura
feita de papel

do alto do céu
estudou a geografia
inventou a arquitetura
das praias e das casas
da cidade e suas ruas

de tanto voar criou asas
planou na envergadura
no último voo rasante
espatifou-se na poesia

sacharuk

de água elemento


de água elemento

confesso à lua azul
insólitos desejos
se nenhum segredo
meu mar desconhece

sou fluido nas águas
deságuo pela afluência
ao encalço das revoadas
se nada
meu mar desconhece

passeio pelo céu
deitado numa canoa
a espelhar as gaivotas
se nenhuma resposta
meu mar desconhece

navego à margem
do mundo inteiro
as águas envolvem
bolinam montanhas
nos desfiladeiros

onde banhas teus seios
para soltar a areia
logo que amanhece

sequer teus anseios
meu mar desconhece

sacharuk

leonardo ramos
fotografia de Leonardo Ramos


escombros

escombros

o que restou
do nosso universo
não enche um verso
o que importa?

na velha casa
não há mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

tudo o que vemos
distante uma milha
da janela vazia
é a árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita

nela amarrei a razão
para viver da lembrança
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei
e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora

sacharuk




livre poesia ao luar



livre poesia ao luar

morena
percorre os dias
na encosta verde dos rios
que o assovio da ventania
e o impulso bravo das águas
levarão tristezas sem trégua
a outros quintos sombrios

ondas batem nas pedras
espocam incertas
vertem lençóis pelas noites
livre poesia ao luar

logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces amantes

quero andar contigo
num voo cego
pelas rotas perdidas
colorir tuas asas lindas
com a minha poesia

morena
o sol sempre brilha
durante as madrugadas
descalço anda na areia
e logo quebra as regras
descansa o raio na pedra
na cidade da sabedoria

deixa portas abertas
as janelas floridas
coloca amor e dá vida
cor às coisas cinzentas

logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces amantes

quero andar contigo
num voo cego
pelas rotas perdidas
colorir tuas asas lindas
com a minha poesia

sacharuk



a fertilidade das ideias

540828666
a fertilidade das ideias

plantarei sementes em teu crânio
que vingarão flores belas
visto que adubo já tem


sacharuk

golpe de ar

golpe de ar

há simbologia
nas portas abertas
também nas fechadas
pode dar poesia
pode ser coisa incerta
especulada

eu insisto
em ler linhas tortas
buscar os vestígios
colar os indícios
do que eu não sei

acontece
se fico possesso
escrevo em versos
mas penso em prosa

universo cor-de-rosa
rabiscado de preto
mancha de vício
precipício
arremedo

é cedo
para abrir a janela
deixar entrar
um golpe de ar
ventilar a mobília
soprar teus resquícios

de volta ao início
há simbologia
nas portas abertas
também nas fechadas
tudo é fantasia
só a morte é certa
e mais nada

sacharuk

dos tempos de crise

dos tempos de crise

já cutucou a língua
num canto da lua
aveludada de amor
hoje lambe o amargo
das correntes de aço
intrincados elos

a cruz forma vértices
ângulos retos
aos braços
e os tímpanos
tilintam silêncio
espocam incertos

pende o corpo
carne esqueleto
mas não é morto
apenas repleto

sacharuk

sobre os tempos de crise

jardineiro pássaro

jardineiro pássaro

na terra generosa
cultiva flores extraviadas
frescor e viço
ao feitiço
dos beijos do sol

jardineiro pássaro
deglute significados
de poesia

aos campos silentes
seu trinado lírico
chuvisca raras sementes
que lhe voam do bico

sacharuk

papacapim-dinho-kapp-460x294

urdidura


urdidura

contaste segredos em versos
universo onde mora
teu medo
anverso dos teus
arremedos
degredo dos risos dispersos

largaste a mão
nos teus nexos
sem aviso nem dó nem senão
improviso ou sequer
escansão
canção dos destinos perplexos

costuraste remendo ao avesso
enredo em tecido espesso
sem ritmo sem tino nem rima

perdeste a razão em protesto
clamando atenção nesse gesto
ridículo e de baixa autoestima

sacharuk

colírio

colirio

se desejas ver poesia
cata um pingo da próxima chuva
              numa garrafinha de vidro
deixa lá
      ‎luzindo tal vagalume
      ‎junto ao luar
  ‎
  ‎logo após
verte gotinhas faiscantes
      ‎na secura do teu olhar

sacharuk

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louco da poesia


louco da poesia

no silêncio dessa noite
a lagoa dança tão calma
e faz repousar o açoite
que corta as estradas
que entorta as almas
até despertar a cidade
adormecida ao meu lado

espero a luz do dia
na certeza de estar louco
e partido
um louco varrido
louco da poesia

quero ser inundado
pela maré das verdades

nesse instante da vida
tomo nuanças desumanas
a desvendar os motes
dessas luzes embriagadas
no teto sobre a cama
até encerrar as vontades
no meu mundo quadrado

espero a luz do dia
na certeza de estar louco
e partido
um louco varrido
louco da poesia

quero ser tocado
pela minha insanidade

nessa fase da lua
as dores são soberanas
e desafiam a morte
com lágrimas e gargalhadas
essas paixões tão insanas
a romper a estabilidade
do meu mundo inventado

espero a luz do dia
na certeza de estar louco
e partido
um louco varrido
louco da poesia

quero ser enganado
pela minha obviedade

sacharuk

doula

Imagem: The Nurtured Way

doula

doula
que hoje és minha mãe
sagrada companheira
que douta
te fazes parteira
na comunhão
da santa maternidade

doula
que hoje és verdade
e estendes tua mão
para o evento de outra
fatal liberdade
hoje a vida volta
a pedir teu afeto

doula
de ternos sujeitos
e não objetos
dona de coração
e amor caridade
tão forte que és
doula da minha coragem
da massagem
da mensagem
e da minha fé

sacharuk

ponte para o retiro

ponte para o retiro

quero cruzar pela ponte
que interliga horizontes
leva ao céu tal escada
enrosca na crosta do mundo
lá no fim disso tudo

e lá encontro o início do nada

quero planar nas estradas
asfaltos, vielas e trilhos
verei sedentários e andarilhos
nos cantos das ruas
sob a mesma lua

com a mente resignada

quero alma elevadiça
visão privilegiada
ver de longe a injustiça
as mentiras e a cobiça
a dignidade ultrajada

decerto vi isso antes

quero montar elefantes
não deixar minhas pegadas
gravadas pelos caminhos
para evitar emboscadas
dos espíritos dissonantes

e trilhar o universo sozinho

sacharuk
Imagem: Sonho Causado Pelo Voo De Uma Abelha Ao Redor De Uma Romã Um Segundo Antes De Acordar, Salvador Dalí, 1944

Pura


Pura

Cada palavra, perplexo
Cada cume um uno
Palpita tesão dislexo
Cada desejo uma fome
Cada estrofe desforme
Cada respiro
Engolindo
Seu suspiro

cada vão desconexo
cada escolha um rumo
que valha um amor sem nexo
em cada nó que consome
cada palavra de fome
naquilo que inspiro
subtraindo
tuas defesas

sua forma
seu trejeito
aquele desejo
nunca deforma
toma forma
toma a mim
toma
e toma
em coma

meu mundo perfeito
entre um beijo
e o que me toma
e retoma
como um fim

e tuas
tão tuas
são minhas
e fome
vai
me engole

nua
tão crua
nas manhas
que se come
que se bebe
que se fode
a loucura
mais pura.

Dani Maiolo & sacharuk

Lusofonia de um poema


poeta Emanuel Lomelino

Lusofonia de um poema

As minhas palavras de Fado 
gostam de cantar continentes
e dançar carnavais de funaná.
As minhas palavras de bacalhau
têm fome de cachupa e funje
e sede de água de côco.
As minhas palavras de Tejo
navegam pelo Amazonas
e banham-se no Zambeze.
Quem as quiser encontrar
tem de ter na mão um planisfério
e descobrir onde fica Lusofonia

Digo alguns versos de samba
às ruas de Trás-os-Montes
com os Pauliteiros de Miranda.
Digo alguns versos de feijoada
com um tanto de óleo de palma
e uma garrafa de vinho do Dão.
Digo versos de pedra da Mina
que ecoam na Montanha do Pico
e são ouvidos no alto do Binga.
E quem os quiser escutar
tem que sucumbir aos mistérios
e as belezas da Língua Portuguesa.

Emanuel Lomelino & sacharuk

eu não queria ser poeta


eu não queria ser poeta

sabe, eu não queria ser poeta
mas carrego a sina
que me azucrina
de tratar as letras
tal fosse um esteta

assim faço tudo errado
são ruins meus poemas
vazios meus dilemas
não há um que se salve
pois afinal
sou um escriba boçal
e não o Castro Alves

meu chefe reclama
que não penso em grana
mas somente poesia
e talvez chegue o dia
de ficar desempregado

mas sou um tipo danado
fugitivo da vida dura
bem longe da amargura
no meu reduto encantado

e de tudo o que gosto
não é do poema que posto
mas do fato que me amas
e que me esperas na cama
enquanto me dizes poeta

mas não queria ser poeta
contudo tenho a sina
que ainda me azucrina
de tratar as letras
tal esteta

o pensamento redunda rimas
jamais digo as coisas certas

sacharuk

ao meu menino


ao meu menino

no sábado te beijei enquanto dormias
para sonhares sob proteção
trocarmos raciocínios e poesias
que eu possa sempre pegar tua mão

então eu quis 
beijar meu amigo
e que tenha toda 
a força da canção
e terei certeza que consigo
e que nunca mais 
volto a crer que não

eu quero que tu ames as coisas simples
que todos sintam o transe do teu vinho
que entendam as essências dos teus males
para que aprendas a não andar sozinho

e pela manhã, o sol 
te aqueça a fronte
e jamais te falte 
o poder de decisão
que tenhas sempre 
nortes e horizontes
e o dom de ver
além da visão

e tu então serás para sempre meu menino
para muito além do fim dos meus dias
nutrido com o melhor do meu amor infinito
embalado nos desafinos das nossas melodias

então eu quis
te ver dormindo
e descansar
mais um segundo
então eu vou 
te ouvir sorrindo
o sorriso mais lindo
do meu mundo

sacharuk

"Reluz", de Mell Shirley Soares

atitudes irracionais

atitudes irracionais

incrível como nosso subconsciente
nos condiciona mais e mais
a atitudes irracionais

creio que sejam normais
essas nuanças da gente
que se mantém no frio
mas sempre está quente
é o que a gente faz

incrível sentir o calafrio
um choque elétrico ardente
e não ficar indiferente
a tua nudez deslumbrante
do tipo fêmea no cio

incrível como nosso subconsciente
nos faz ficar assim
a mil
do arcoíris pueril
ao degradê do sombrio

mas de ver tua imagem silente
nessas fotos de costas
de dorsos, de frentes
fico com cara de idiota
e um sorriso contente

eis que nunca está morta
a verve de quem sente

sacharuk



d'algemas quebradas


d'algemas quebradas 

vou para o futuro sem olhar para trás
sem ouvir o eco das minhas palavras
esquecer dos caminhos que não cruzo mais
do som entristecido das antigas falas
aquelas que não se calam

vou a outra poesia e ser novo homem
afinar a música em outras escalas
novos condimentos contra essa fome
tatear a escuridão dessas vias tortas
e certezas mortas

d'algemas quebradas erguer os punhos
d'algemas quebradas vou romper o mundo

quero dormir morrendo em branco lençol
inverter os rumos que me levam ao sul
encontrar a faceta mais fria do sol
da minha sanidade o lado alucinado
quero o canto libertado

d'algemas quebradas erguer os punhos
d'algemas quebradas vou romper o mundo

sacharuk

pernas


pernas

amor, recebo teu presente
e como sempre
eu vou às estrelas

te vejo reluzente
nas curvas belas
arcoíris resplandescente
em pastéis e cianetos
de discretas nuanças
vermelhas 
e amarelas

as tatuadas sentenças
na tua pele libélula
inspiram sonetos
milongas, vaneiras 
e tarantelas
doces matizes na tela
a florescer nos tercetos

amor, eu fico contente
bem ali na minha frente
as tuas poses singelas
a coroar meu momento

um arrepio violento
entorta as tabelas
tal golpe de vento
e me faz sorridente
na plenitude inocente
prazeres à luz de velas

e revivo as novelas
que semeiam promessas
nessas tardes quentes
com chuva na nossa janela
a alimentar esperanças
convites a outras danças

amor, eu esqueço as mazelas
e sigo leve tal criança
se encontro o oriente
no doce rio da nascente
que se forma entre
tuas pernas
sacharuk

Militância

Militância

-O trabalho é fácil: você vai militar no facebook. Consiste em compartilhar posts mentirosos e denegrir os opositores. Moleza. Até criança faz.

-Mas, dona Gleisi, se alguém perguntar algo que eu não sei? O que eu faço?

-Sabe dizer: não vai ter golpe? Sabe? Então diz aí.

-Sei, "não vai ter golpe"

-Isso, perfeito. Então repete isso sem parar. Não vai precisar dizer mais nada.

-Mas se o coxinha insistir? Tem uns que insistem.

-Se o coxa insistir tu cospe nele

-Cuspir pela internet?

-É, acho que não dá. Então diz "não vai ter golpe"... fica repetindo. No fim do dia te trago um pão com mortadela

-E os trinta paus, a senhora vai trazer também?

-Não dá, o diretório está com dificuldades. Roubaram o cofre.

-Então acho que não vou querer o trabalho, dona Gleisi.

-Seu fascista, reaça! Você tem nojo de pobre, elite branca!

sacharuk

oxigênio


oxigênio

já te aprendi tanto
que a mim não enganas mais

desvendei rumos e recantos
fui o motivo dos teus desencantos
agora sei o que esconde os teus ais

e não venhas quebrar minha paz
com tuas mentiras insanas
faniquitos e artimanhas
dissimulações no teu pranto

já não me causas espanto
afinal, sempre ganhas
com tuas manobras tacanhas
e esse olhar sacrossanto

agora não há mais jeito
nem projetos ou campanhas
que abafe o som do meu canto

pois saibas que tenho o direito
de me libertar do quebranto
e tragar o novo ar das montanhas

sacharuk

fantasma guru

fantasma guru

criaste um fantasma
ao qual chamaste guru
num formato de miasma
diversos matizes de blue
um degradê de contrários
um norte vestido de sul

assombração dos cenários
dos bordeis
imaginários
da vã poesia
ousadias
e tantos balacubacos

mas no mundo dos fracos
viste planar simulacros
onde vingou a profecia
de decretar baixaria
no vaivem dos hormônios
de dar indulto aos demônios
aos jogos e bruxarias

criaste fantasma da insônia
das tiranas
balzaquianas
perfumadas de alfazemas
e odores
de todas as cores
além do piercing na vagina

entre os estratagemas
e o show de horrores
prevaleceu a sina
do holográfico
fantasma guru
e seus dons mágicos
que resultaram trágicos
e decepcionantes
tal tomar anilina
e pensar em refrigerante

criaste o fantasma
em traje de gala
ao qual chamaste guru
que cala
e não fala
não pensa
não presta
uma besta
pretensa
um norte vestido de sul

assombração dos cenários
dos bordeis
imaginários
da vã poesia
ousadias
e tantos balacubacos

sacharuk


o leão corre insano pela noite

o leão corre insano pela noite

o leão corre insano pela noite
quando passa lento o tempo
trocando minutos por sonhos
nas pegadas da insônia

as minhas pernas cansadas
o felino esmaga gramíneas
ao entorno das savanas

quando eu tento respirar

quando eu tento respirar

refaço as linhas
caminho estelar
lá se unem os espaços
ao meu corpo astral

se chegar o ocaso
fecharei os olhos
para não ver o leão

quando as forças da terra
anunciarem o dia
eu já poderei ir

o leão corre insano pela noite

o leão corre insano pela noite

quando as forças da terra
anunciarem o dia
eu já poderei ir

quando o voo da noite
deitar as asas ao sol
eu já poderei ir

sacharuk

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mar de desenganos

mar de desenganos

naveguei o mar dos desenganos
naufraguei com meus planos
refiz o destino ao piano
outro improviso
de outra canção

brotou paixão mexicana
eloquência cigana
natural sedução

naveguei oceanos de encantos
mergulhei nos recantos
diluído em recatos mundanos
com água na embarcação

naveguei o mar dos desenganos
vivi séculos em anos
busquei o que amo
tanto indeciso
na minha razão

atraquei em mares de lama
nas marés mais insanas
na mais profunda escuridão

naveguei uma dúzia de arcanos
atravessei oceanos
a desaguar emoção

sacharuk
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