Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

crise econômica - acróstico


crise econômica - acróstico

Crise, que crise?
Ridiculariza o ministério
Investidores inseguros
Subsidiando os apuros
Esperando o revertério

Economia instabilizada
Comércio comprometido
Ociosidade garantida
Ninguém cumpre o prometido
O fim da crise pede ação
Manejo e planejamento
Incentivo à exportação
Com força e dedicação
Alavancar o crescimento

sacharuk

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não contes as horas do dia

não contes as horas do dia

não contes as horas passadas
pelas lembranças viajantes
pelo passado de contemplação
por um futuro incerto à razão

não contes as horas do dia
mas cuida que valham a pena
aproveita com toda alegria
valoriza a beleza da cena

os ressentimentos remoídos
ossos das glórias esquecidas
histórias mortas e enterradas
velhos paradigmas corrompidos

não contes as horas do dia
mas cuida que valham a pena
e tenta viver a poesia
que escreve uma vida intensa

não contes as horas do dia
mas cuida que valham a pena
elas passam na ventania
enquanto a morte acena

sacharuk

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incubação

incubação

agora falo sobre campos verdes
não são tão longe da nossa casa
a cidade sem vida só tem paredes
e corpos jogados em cova rasa

poeta se voa é pássaro na rede
morre na clausura ou vira caça
no fogo das letras mata a sede
a semente do verbo traz na asa

e os versos?

ah! decerto virão das paixões
alguma verve ou musa
até da rotina e do ardil

será, meus amigos,
que todo o poeta é senil?

por hora são as vagas impressões
rabiscos tortos daquele que viu
florescer poesia no imenso vazio

sacharuk
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mente plena - acróstico

mente plena - acróstico

Medita e expira lentamente
Envolva-te na luz dourada
Navega para teu interior
Tenta inspirar calmamente
Estejas focado no nada

Projeta-te ao plano astral
Liberta-te da densidade
Envolva-te na aura da paz
No chacra índigo frontal
Alcança a tua plenitude

sacharukefe59296d24e34db117dfe535575549e

2017 e o passo de zumba

2017 e o passo de zumba

Confirmei minha desconfiança de que o eleitor é corrupto, incapaz, paspalho, frouxo e idiota;
Descobri que o brasil é o país mais rico do planeta, seus políticos e administradores são os mais ricos do planeta e o seu povo sorri enquanto samba a miséria numa passarela de lama tóxica;
Que ratazana não se segrega politicamente em direita e esquerda;
Que o brasileiro não reconhece a própria pobreza... de bens, de alimentos, de cultura e de princípios;
Que para ser um fracasso é necessário tentar e falhar. E o brasileiro é o simulacro de um fracasso.
Que o homem do sexo masculino se converteu em frágil, e agora, as mulheres o encoxam e enfiam o dedo no seu cu, sem pedir antes rsrs;
Descobri que quem reclama ostensivamente da segregação racial e sexual, na verdade, se alimenta da diferença para viver. Não adianta exigir trato igualitário sem conquistar a afeição da outra parte. Ninguém ama à força da lei. Enquanto houver um movimento negro, amarelo ou roxo, as diferenças sobreviverão;IMG_20171113_165925921
Aprendi que dores tratadas com remédios e cirurgias apenas se convertem em novas dores que te matarão. Há algo que deve ser compreendido e tratado para além do corpo;
A indústria de alimentos te enfia veneno em doses cavalares com chancela da saúde pública;
Que a violência não é um problema social relevante nos países onde as pessoas estudam em escolas de verdade;
Que existem mais professores formados trabalhando como comerciários do que comerciários frequentando as escolas;
Que o facebook é um mundo à parte... encantado, branco e azulzinho;
Descobri que a morte é uma contingência... até quando ela ataca de foice na mão, tu podes escapar da lâmina num passo imprevisível de zumba.

sacharuk















Futuro da nação



Futuro do nação

“Tá vendo aquele lá, o carequinha? É filho do Sidnei. Entrou numas de ser do tipo "certinho" mas só levou na cabeça. Virou monge. Uma vergonha para a pobre família. É nisso que dá educar o guri com frouxidão. Gente assim não vai para frente. Já tem idiotas demais nesse país. Educação, Sacha. Educação é o xis da questão. E da falta dela, felizmente, os meus não padecem.
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O Mateusinho, meu filho de oito anos, já disse para mim e para a mãe que quer ser criminoso quando crescer. Já me enche de orgulho desde pequenino. Mas não quero que ele seja criminoso que nem eu, que tive pouca oportunidade na vida. Quero que ele se desenvolva para algo maior, mais gratificante e que ele possa ser um bandido muito orgulhoso do que faz. Imagina, Sacha, se ele chega a deputado federal? Ou senador? Presidente já nem quero, pois o garoto iria ficar muito visado pelos invejosos. Prefiro que ele se conserve num nível mais intermediário no qual ele possa exercer a arte da falcatrua por muito tempo. Ele ainda vai me dar muita alegria.

É de guris como o Mateus que o futuro do Brasil depende. De bandidinho comum esse país já está cheio. Eu educo meus filhos para que eles tenham sucesso! Além disso, quem sabe bem o que quer, aprende como conquistar. Senão, vive correndo e suando para quitar impostos, igual esses fracassados que trabalham. 

Mas monge, igual ao filho do Sidnei, ah, isso o meu Mateusinho jamais vai ser. Que seja pastor, então!”

sacharuk

sob a lua faceira

sob a lua faceira

meu sorriso
desabrocha manso
percorro a fronteira
hasteio a bandeira
em teu mastro

ignoro avisos
rio da cara do espanto

na cama na cadeira
meus rastros
por todos os cantos
do teu quarto

inteira
aos solavancos
no espaço
sob a lua faceira

sacharuk


notas musicais

notas musicais

calada ouvi
tuas estrelas
vislumbrei o teu tudo
naveguei o teu nada

calada eu fiz
as mesmas perguntas
quis sanar minhas dúvidas
permanecias mudo

calada escuto
o silêncio
ainda bem mais
dos silêncios que contas

da tua voz
fiquei surda
e do que de ti
se desprende
só vejo notas
musicais

sacharuk
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assim me mataste

assim me mataste

inteira fui tua
apenas por te amar
esse foi meu azar
isso foi minha morte

arrancaste uma parte
vingaste a sorte
a palidez da minha cor
tem as marcas do corte

agora sacodes
a tampa do meu caixão
onde jogaste uma flor

a morte é o arrebate
dos choques da desilusão
das dores do desencanto
do amor que batia tão forte
mas bate forte mais não

sacharuk
sonho-caixao

detrás da secura dos prantos

detrás da secura dos prantos

eu quis tanto saber
entender essa cor
que irrompe solene
dos teus olhos brancos

quiçá seja nela
que escondes o amor
bem detrás
da secura dos prantos

eu quis tanto saber
desvendar-te os encantos
os que tu ocultas
tão bem no teu plexo

eu quis tanto saber
explorar-te os recantos

eu quis tanto saber
desnudar-te ao sexo

mas tu ademais
esqueceste o calor
já não queres mais
abrigar-te ao meu manto
sequer circular
entre os meus hemisférios

agora que tu
já provaste o rancor
não mais ouvirás
meu tristes lamentos
não vou mais decifrar
os teus mistérios

sacharuk

securadosprantos

Coração dividido

Coração dividido

Não, não quero
Nem para ti, nem para mim
Um coração dividido
Entre a tristeza e o amor
Indivisível amor
Se me vens
Vens completo
Me queiras por inteira
Não só num momento
Não te peço para ser a primeira
Nem a última
Mas a companheira
Para a qual não mentirás
Não guardarás segredos
Nem tristezas
A qual saberá ser teu porto
Teu corpo
Teu sentido por inteiro
Cuidarei das tuas feridas
Mas por favor não me ofereças
Tuas migalhas, tuas palavras
Se não me sobra espaço em teu coração
Se não me vens com sofreguidão
Posso cuidar do teu coração ferido
Dar para tua vida um novo sentido
Mas não suportarei um coração dividido

Não, não espero
Mais de ti, nem de mim
Um coração repartido
ora espinho ora flor
em dois sentidos
Se me tens
Tens completa
E me comas inteira
Me faças repleta
Não quero só brincadeira
Nem só os riscos
Quero ser a parceira
Para quem contarás
Os teus segredos
As tuas safadezas

Posso cuidar do teu coração ferido
Dar para tua vida um novo sentido
Mas não suportarei um coração dividido

Maria Ligia Caviglioni & sacharuk




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poeta Maria Ligia Caviglioni

desses jogos confusos


desses jogos confusos

pensei em sangrar
os meus pulsos
pensei em cortar
os meus cabelos
escrever uma carta
pela última vez
registrar minhas letras

porém das lembranças
que terei do futuro
de mim voarão borboletas
cintilantes estrelas
no céu mais escuro

dos murros
dos muros
e das incertezas
desses jogos confusos

então quero viver
pintar aves nos céus
amainar asperezas
negociar com os sonhos
perdoar as mentiras
e morrer natural
pelos dias lentos
aprender a sorrir
eu quero viver

pensei em conter
meus impulsos
pensei em contar
meus segredos
pensei palavras exatas
dissecar minha tristeza
em poesia

mas as certezas
que eu ainda tinha
migrarão tal andorinhas
e outras novas belezas
tomarão seu lugar

então quero viver
e poisar no papel
as lágrimas belas
do universo tristonho
entender diferenças
e morrer bem normal
sem meus lamentos
aprender a viver
eu quero viver

sacharuk

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tuas curvas e a quiromania

tuas curvas e a quiromania

teus traços perfazem fascínio
trajetos e arco na descida
contornos e cordas de violino
acordo-te em notas naturais
vibrações na exata medida

pequena mulher enfeitada
perséfone e diva
exibes teus frutos maduros
sinuosidades renascentistas
ostentas o feiche de grãos
empunhas a tocha flamejante

minha verve inventa-te nua
das tuas belezas estonteantes
musa esculpida
por minha mão
precisão eloquente
em artesania

do alto da sofreguidão
derramo sementes
sobre ti

poesia

sacharuk


lua para te iluminar


lua para te iluminar

nada sei acerca dos paus
que perfazem singelas canoas
quero apenas bater na tua porta
perceber tua presença

nada sei das histórias
que perfazem dramas e guerras
quero estudar a genética
que te brota em fruta
cresce linda na terra
onde plantei amargura

só sei daquilo que sai
dessa estrambótica dimensão
não vou vestido de dádivas
quiçá eu seja o castigo
pelas tuas vidas passadas

marcarei-te a ferro e fogo
para que todos me saibam
jamais te ousem tocar

e quando estiveres nua
a te banhar no quintal
descreverei em versos a lua
só para te iluminar

sacharuk

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alexislovesboudoir.tumblr.com


só tenho amor


só tenho amor

tenho nada na vida
só tenho amor

na rua logo te espero
ali bem junto ao portão
bom dia!

trago sorriso de sol
um rascunho de poesia
na palma da mão

queria voz musical
para cantar uma canção
bem linda
de cor

tenho nada na vida
só tenho amor

sacharuk

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Hippie Love by  Etoia

maria louca

maria louca

a louca maria
lá do sobrado
passa a ler poesia
no canto ensolarado
daquela janela

vive a ler rimas ricas
e as metáforas mais belas
são as suas relíquias
no mundo encantado
das suas quimeras

a louca maria
lá do sobrado
passa noites e dias
a ouvir uns recados
que vêm das estrelas

ela não é astrofísica
e sequer tem luneta
só recolhe as titicas
do mundo abstrato
na janela aberta

sacharuk

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Richard Tuschman Images

guia de pilotagem

guia de pilotagem

voar é coisa
para passarinho
já sai do ninho
batendo asas
e dando rasantes
sobre as casas

voar é coisa
de poeta
que pega caneta
inventa palavras
mísseis errantes
flechas aladas

voar é coisa
de maluco
ou de bocomoco
se lança às favas
decola imprudente
livre das amarras

que nem borboleta

sacharuk
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versos de marcenaria

versos de marcenaria

o poeta artesão salva madeiras
dos armários, cadeiras desprezados
de mogno, eucalipto, cerejeira
a sina marceneira no esquadro

compõe criado mudo em cabeceira
a alma vai inteira no traçado
armário modulado e cantoneira
e poema de primeira bem lixado

a tico-tico esgueira por um lado
um nó versificado na colcheia
na esteira de um metro encantado

poeta abençoado de mão-cheia
das artes que enleia articulado
o amor manifestado das suas veias

sacharuk


café com as bestas

café com as bestas

ela conversa
com a pedra
confessa desejos
não sente pena
de si mesma

ela toma café
junto às bestas
com pão de queijo
e manteiga

ela não quer
a fé cega
mas quer o amor
mas quer a entrega

ela só quer
ser inteira

sacharuk

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contra hipocrisia

contra hipocrisia

remédio caseiro
contra hipocrisia
é mante-la em silêncio
guardá-la em segredo
senão tarde ou cedo
num descuido bom senso
sobrevém desespero
para acordar vilania

sacharuk
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pacífica

pacífica

eis que faro lupino
apazigua à mansidão
da branca camélia

nesse dia caótico
sossega a ira do destino
derrete a frieza da razão

tão pura camélia
mais fatal
que arma na mão

sacharuk

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brisa leve

brisa leve

janela aberta
ora sou vento e invado
corujo toco e acarinho
ela gosta

ora eu sorrio
ela delicada
sussurra coisas
ao pé do meu ouvido
de encantos
quentinhos

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

ora sou rio
ela delicada
revolve as águas
inverte os sentidos
e eu canto
baixinho

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

sacharuk

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jardim bonito das flores cheirosas


jardim bonito das flores cheirosas

move-se crua
ao distante oriente
guardiã dos absurdos
resplandecente
ao colo da lua

exibe-se nua
revela o risco
que parte do umbigo
para achar sua rosa
bipartidas pétalas
jardim tão bonito
das flores cheirosas

a noite secreta
tranquila sussurra
salpica-lhe os cabelos
com brilhos perdidos
de estrelas antigas

em desvelos
mergulha ao perigo
no oásis da sede
calado de um porto

e suas costas ao sol
bebem raios ansiosos
que queimam-lhe o corpo

sacharuk


o gosto da tua alma II

o gosto da tua alma II

tua alma
tem textura da pedra
enfeita a ruína
amargura da sina
tem gosto de fogo
que a serpente desperta
abocanha
rumina
desruga
desalma
e entrega
sacharuk




o gosto da tua alma I

o gosto da tua alma I

tua alma
lembra café
leite canela
capuccino
tal disse
outro poeta vespertino
acerca da tua nudez

sacharuk




pequeno

pequeno

eu posso saber de tudo
ser essência da vida
posso ser algum anjo
luz das almas perdidas
posso ser boa nova
das saudades infindas

e sei ser linda flor
num jardim tão perfeito
posso ter qualquer cor
produzir meus efeitos
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho demônio
soberano do hades
inferno enfadonho
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

das tristezas errantes
posso ter o controle
nas belezas vertentes
sei matar minha fome
meus talentos latentes
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho enfadonho
demônio do hades
inferno soberano
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

eu posso ser pleno
mas também simulacro
tudo é tão pequeno
se te amo tão vasto

tudo é tão pequeno
        se te amo tão vasto

sacharuk


narciso em teus reflexos



narciso em teus reflexos

deságua na língua
ágil que te pronuncia
nas tranças da poesia
de um narciso
em teus reflexos

fodes aos versos
eles fodem contigo
caem de boca
fatal puta louca
das pernas abertas

geme manhosa
sujeiras escrotas
devassas da prosa
verte chá de boceta
no caderno
de escrituras

musa bruxa
manipresta negra
refletes indecorosa
no espelho mágico
das minhas letras

 sacharuk


maltrapilho

maltrapilho

Transmutei sina em trocadilho
com certo poder de abstração
estive poeta estive andarilho
tomei rumos dispersos sem reunião

escrevi um poema maltrapilho
equivoquei o juízo da razão
já não sei se sou pai
e se ele é meu filho
não sei se sou cria
ou ele é criação

de algum sentido esfarrapado
risquei alguns versos desmetrificados
nasceram diversos
nenhuma emoção

dos meus argumentos equivocados
juntei as falácias
fiquei enrolado
apenas premissas
sem conclusão

sacharuk
Imagem 3223

a velha detrás duma moita

a velha detrás duma moita

havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

a velha escolhia pato
no quintal da vizinha
passava pato
passava pato
pato e mais pato

e o tal pato
não aparecia
contou dona Diquinha

e a velha dizia
calma
ainda está passando pato
ainda está passando pato
pato e mais pato

e o tal pato
ela nunca escolhia
então essa história
nunca termina

perguntasse à Diquinha
ainda está passando pato?
ela logo respondia

havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

Mell Shirley Soares & sacharuk

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erofagia


erofagia

provo teu amor à língua
em travessa de louça
na hora do almoço
para senti-lo à boca
delirar com seu gosto

logo irei mastigá-lo
faze-lo espesso
na minha saliva
manjar de átomos
viscosas esferas
assalto às papilas

e engoli-lo
até inundar-me as vísceras
e empapar-me o baço
depois comerei tua carne
a começar pelo braço

sacharuk




fuck

fuck

escuta
não devo desculpas
se te mandei às estrelas
se te mostrei o inferno
nos meus braços
viajaste no espaço
comemos os astros
astronautas famintos
que somos

se o sol
vai embora
eu escuto
o chamado
e tua boca
tuas mãos
me desenham
no céu

mas tu dizes
vai vai vai
então eu digo
vem vem vem

depois a gente
fuck fuck fuck
depois a gente
fuck fuck fuck

saibas
não te devo desculpas
se preenchi os buracos
se constelei como louco
no trajeto das ursas
nos meus braços
viajaste no espaço
percorremos o rastro
dos cometas extintos
na nossa cama

sonhamos sonhamos sonhamos
na nossa cama

se o sol
vai embora
eu escuto
o chamado
e tua boca
tuas mãos
me desenham
no céu

mas tu dizes
vai vai vai
então eu digo
vem vem vem

entramos e saímos
botamos e tiramos
paramos e mexemos
sonhamos sonhamos sonhamos

se o sol
vai embora
eu escuto
o chamado
e tua boca
tuas mãos
me desenham
no céu

depois a gente
fuck fuck fuck
depois a gente
fuck fuck fuck
 
sacharuk

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a lealdade e a servidão

a lealdade e a servidão

tentaram as mãos
tatear o futuro
comovidos dedos
bolinaram nuvens
leves são os pés
saltaram muros
lealdade é sal
contra a vertigem

tentou a cabeça
fazer a viagem
ao lado escuro
da rocha abissal
falaram os diabos
e os santos de fé
a servidão é mal
contra a clareza

sacharuk


avesso

avesso

meu avesso
dos tons desconexos
sem gênero
sem cor
não tem sexo

o melhor lugar

avesso de estar
 avesso de ser
permancer
genuíno que é
avesso de mim
é o avesso de ti
de tão nosso

o avesso
é o que de mim
eu mais gosto

sacharuk


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amor cru

amor cru

meu amor cru
assenta galopa
comunga com fé
face à cadeira

macula
tremeluz tal estrela
dança na chuva
germina pólem
sopro de vento

meu amor cru
olhar de centelha
ama sem roupas
amor que é
tem contém
sustém
no espectro
das suas belezas

amor criatura
cor borboleta
clichê passarinho
maior que o planeta
e cabe em meu ninho

macula
tremeluz tal estrela
dança na chuva
corpo nu
do espaço e do tempo
 
sacharuk


graffiti

graffiti

estalidos singelos
beijos pequeninos
selam a superfície

extasiado artífice
percorro acidentes
tal olhar de graffiti
denota tuas curvas
em glorioso desenho

refaço caminhos
das tuas belezas
tuas ancas
teus seios
acendo tua pele
com fagulhas de mim

nossas línguas
exalam polissemia
compartilhamos os dedos
sucumbidos segredos
desvendados os versos
gotejam poesia

dissolvidos átomos
amor e saliva
ao pulsar soberano
explode em minhas vias
e te deságua nas tintas
 
sacharuk

grafite

o novo sopro do vento

o novo sopro do vento

percorri noites insones
quando todos dormiam
andei ruas coloridas
luzes que me cegavam

contei noites estelares
tal cavaleiro noturno
que se desfaz em orvalho
do amor que tanto sente
do amor que tanto sente

meu corpo é frio
meu peito é mais
mas abre para abraçar
o novo sopro do vento

medi forças com o tempo
enquanto todos dormiam
vi imagens distorcidas
luzes que me enganaram

escrevi poemas tolos
tal mensageiro noturno
que se desfaz oceano
de tanto amor que sente
de tanto amor que sente

meu corpo é frio
meu peito é mais
mas abre para abraçar
o novo sopro do vento

mas abre para abraçar
o novo sopro do vento

sacharuk

a tortura é o grito

a tortura é o grito

a tortura
é o grito
um poema aflito
um engasgo
o murmúrio
canto desafinado

respinga chuva
em mim
pingam gotas de ti
pinga orvalho
manda essa bosta de gente
dar de costa e de frente
ao caralho

a tortura
é o grito
o cu circunscrito
no rabo
o perjúrio
do pau atolado

respinga chuva
em mim
pingam gotas de ti
pinga orvalho
manda essa bosta de gente
dar de costa e de frente
ao caralho

a tortura
é o grito
sócio-político
o estrago
no furingo
do povo otário

respinga chuva
em mim
pingam gotas de ti
pinga orvalho

sacharuk


temer-juca

novamente chorei


novamente chorei

certos dias eu soube
nas noites duvidei
as vezes eu tive
outras vezes dispensei
dia desses fui forte
noite dessas errado
novamente chorei

na manhã tive sorte
mas na noite azarei
já estive parado
entretanto andei
nalguns dias vivi
noutras noites morri
novamente chorei

pelo meu espaço
pelo meu caminho
pelo teu carinho
pelo teu abraço

certos dias eu soube
nas noites duvidei
tantas vezes vivi
tanto noutras morri
novamente chorei

pelo meu espaço
pelo meu caminho
pelo teu carinho
pelo teu abraço

novamente chorei

sacharuk

adaga

adaga
risquei teu nome
no espelho do banheiro
desmanchei meu batom

vingadora insone
saí mesmo do tom

a raiva embriaga
eu perco o norte
a elegância e o porte
é a praga

no sentido da fome
comeria-te inteiro
e seria tão bom

 o desejo é ligeiro
insano e rasga
sem compaixão
arde forte
o sol escorpião
diante do corte
da adaga
sacharuk
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escorpião

escorpião

sou espectro na escuridão
não me ofertes a luz
não me ameaces com a cruz
meu sol dorme em escorpião
conheço os auspícios da morte

sou profundidade do corte
renego o dogma cristão
não barganho por absolvição
vivo ao desígnio da sorte
sem saber para onde conduz

sou plenamente capaz
nas demandas defino o norte
minha estrela brilha em paz
sou digno herdeiro do dote 
de amassar o meu próprio pão
 
sacharuk
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tudo e mais outro tanto

Tudo e mais outro tanto
A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como, a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego.

sacharuk
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vamos para casa

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vamos para casa

ooohhh ooohhh
ooohhh ooohhh

procura o destino de cada coisa
procura o sentido de cada palavra
procura aquilo que faz dizer não
onde está a verdade de cada não?

logo te levo para minha casa
logo alí onde moram mistérios
sentaremos ao colo da noite
antes mesmo que o sol acorde

la la la la la
vamos para casa
viver da beleza
viver as incertezas
que temos para nós
e não vais viver só

venhas comigo
venhas comigo
podes ver quando a lua declina?
podes sentir o pulso da vida?

venhas comigo
venhas comigo
correr pelos campos dos lírios infindos
lá onde apenas nós dois existimos

se tu me amas
o universo conspira
se tu me amas
nosso santo ajuda
venhas fazer
tudo aquilo que queres
venhas fazer
tudo aquilo que quero

ooohhh ooohhh
ooohhh ooohhh

procura onde mora cada resposta
procura sentido onde nada importa
procura saber sobre tudo o que fere
qual o valor do não mais nos serve?

logo te levo para meu mundo
logo alí onde acaba o inverno
e sentaremos ao colo da noite
antes mesmo que o sol acorde

la la la la la
vamos para casa
viver da beleza
viver as incertezas
que temos para nós
e não vais viver só

venhas comigo
venhas comigo
podes ver quando a lua declina?
podes sentir o pulso da vida?

venhas comigo
venhas comigo
correr pelos campos dos lírios infindos
lá onde apenas nós dois existimos

se tu me amas
o universo conspira
se tu me amas
nosso santo ajuda
venhas fazer
tudo aquilo que queres
venhas fazer
tudo aquilo que quero

la la la la la
vamos para casa
la la la la la
vamos para casa

ooohhh ooohhh
ooohhh ooohhh

sacharuk

uirapuru

uirapuru
uirapuru
canta para mim:
quem és tu?
já cometi grave falta
ao pensar que eras flauta
uirapuru tu és musical
uirapuru tu és cântico
és fenômeno  igual
no Pacífico ou Atlântico
teu canto  é encanto
tua casa é recanto
tua sorte
é morrer empalhado
teu azar
é viver ameaçado
ah, maldita extinção
o único pássaro livre
é o tal de avião
sacharuk
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fé demais

fé demais

Teimoso era o burro
do Teodoro
batia cabeça dura
nas tábuas da baia
logo após desmaiava
durinho da silva

Teodoro
tentava bocaboca
simpatia
recitava poesia
reza forte
salvava o burro da morte

certo dia
montou o quadrúpede
e orou
pediu para deus
por um tanto de sorte

recém ressuscitado
o animal vacilão
bateu de novo a cabeça
lançou Teodoro à distância
que espatifou-se ao chão

Teodoro
além de burro é simplório
morto na contramão
atrapalhou o trânsito

o burro
filho de égua e jumento
não mais do que burro
só desmaiou
mas ainda viveu

moral da estória:
mais burro que burro
é quem esperou pela glória
confiou na vitória
e só se fodeu

sacharuk

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Audiverimus - "Dizimista Fiel" (Sacharuk)

choro comprado

choro comprado
quando extinguirem
meus átomos
ficarão meus enfados
e alguma sujeira

serei sempre lembrado
pelo choro comprado
das fiéis carpideiras
sacharuk
carpid

de botânica não entendo

de botânica não entendo

na velha orquídea
prevalecem cem anos
insistem primaveras
brotam dezessete
ou então vinte três
lilases amores

no meu quintal
germinam sementes
flores mágicas
contra existência enfadonha

na velha orquídea
poesia do amor
sabedoria dos tempos

pouco sei das orquídeas
de botânica não entendo
mas também acho vida
quando mudam os ventos

sacharuk

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o vestido


o vestido

teu vestido
costurado à mão
traz sonhos e notas
encantos coloridos
estamparia de passarinhos

carrego na bolsa
minhas agulhas e linhas
para suprir alinhavos
pregar em tuas costas
par de asas
para voar sobre as águas

desliza tua mão
sobre esse tecido
sente a textura fria
sincera e serena
costura fina
das cartas da alma
e versos de poesia
que tanto combinam
com a maciez da tua voz

escolhe um batom
que ostente a palavra
alimente o fogo
e ilumine o decote

a agulha faz dor
quando toca o íntimo
e o vestido
insinua vestígios
se não tem drapeados

sacharuk


loop

loop

Clara Ana
paleta mexicana
frutas vermelhas
ovo caipira
linda laranja
casca espiral
língua de fogo
e girassol

sacharuk
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quando os feixes perpassam vitrais

Quando os feixes perpassam vitrais

Enquanto vislumbras belos vitrais perpassados por feixes de luz, as sombras ocultam vestígios e sacerdotes ostentam as joias de baal.

Nas aberturas da catedral, o lume do sol despe extraordinária arte, o ópio e o mistério, tudo aquilo o que te for semelhante.

Logo, sou mesmo eu, assim como és tu, artífices das coisas belas e, sem elas, permanecemos ruína.

Eis que não há verdade sem a ruína.

Ruína é a casa daqueles que lutam. É o palco daqueles que vivem. É ela o esteio de qualquer fundamento.

sacharuk

fêmea indelicada



fêmea indelicada

passeio-te pela pele
as digitais
percorrer-te outra vez

circunferencio-te
branca tez
fina areia

morna brisa 
sopra do mar reentrâncias
hoje sou lua cheia
bebo-te os córregos
deslizo-te as tranças
penetro-te os poros
clandestinos da pele

assalto-te os potes
teu tesouro
tua oferenda

despejo-te néctar
sobre a língua
indelicada fêmea
faminta na senda

morna brisa 
sopra do mar reentrâncias
hoje sou rio acima
escrevo-te as rimas
descrevo-te as ânsias
agarro-te as crinas
a sujeitar-te no curso

sacharuk


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véu do mistério

véu do mistério despencadas brumas das cúmplices estrelas luz de lua e velas falseadas penumbras sob o véu do mistério do olhar do abutre o ...