não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

Juramento à Hipócrates

Juramento à Hipócrates

Puta merda. Quinze para as três e nada. Essas caras. Cada qual com seu drama. Aquela lá fala alto. Aos gritos. Precisa muito que a ouçam. Infeliz. 

Revista Caras é ridícula. Grátis, uma colher de sobremesa top. Que lixo! Imagino que a secretária levou a colher para casa. Deixou essa droga de revista aqui. 

Doze para as três. Parece que não há ninguém naquela sala. Não ouço nada além dessa bruxa que não cala a boca. E aquela tela na parede. Eu teria pintado coisa melhor. Não serve sequer para a minha cozinha. Natureza morta... quadro de restaurante barato. Se bem que aqui parece mais um frigorífico de carnes. Cada um de nós espera gentilmente para ser abatido. E ainda pagamos por isso. Trezentos reais. 

Não cabe mais uma bunda sequer naquele sofá. As bundas gordas ocupam todo o espaço. O que querem aqui? Parecem muito saudáveis. Se chegar mais alguém vai ficar esperando em pé. Aquele vivente não para de olhar o relógio. E são sete para as três. A porta não abre e ninguém chama.

A secretária também olha o relógio e diz que não vai demorar. Sempre o mesmo: não vai demorar, mas o senhor é o oitavo na ordem de chegada. E o nono e o décimo... Raios. Por que agendam a consulta para catorze e trinta e só atendem depois das três? Agora são quatro para as três. Aqui não tem wifi. Nem para navegar no facebook. Apenas revistas caras. Fofoca de gente imbecil e de atriz cretina de biquíni.

Três horas. Que saco. Não suporto mais esperar. Opa! A porta está abrindo. A secretária entrou e vai chamar. O que ela tanto conversa lá dentro. É agora. Ela saiu. Vai chamar.

É a minha vez? Não? Mas a minha consulta era para as duas e meia! Cancelar? Como assim? Já estou esperando há quarenta minutos. 

O médico não passa bem? Sério? Por isso vai cancelar? Enfartando? Deixa eu vê-lo agora, afinal, o juramento que eu fiz, eu cumpro. E depois mando a conta.


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