não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

Gororoba nuclear

Gororoba Nuclear

Dor de barriga. Todos nós aqui de casa. Ainda ontem, a velha carcaça acostumada aos maltratos das faltas e dos excessos, rejeitou certo negócio de estranha textura e gosto intrigante e inócuo de plástico que, por vezes, lembrava isopor. Mas com isopor já estou habituado, desde os chips “isoporitos” com sabor de picanha. Quiçá, menos letal do que churrasco friboi.

Agora tenho um grande abacaxi para descascar: o que dar de comer às crianças? Bom, por enquanto, a prole vai garantindo a cidadania enganando as pobres solitárias.

Hoje eu comprei uma lata de uma farinha de mingau que se mistura ao leite e, absorvida a gordura, realiza estranha mutação numa pasta gelatinosa de aspecto duvidoso. Há algo de futurístico nisso. Fiquei imaginando meus meninos, depois de metabolização do grude sintético, caçando androides pelo quintal.

Dia desses, ouvi um líder espiritual dizer na TV que nossos corpos, mentes e alma são representações daquilo que comemos. Se isso é verdade, aguardo o momento de toda a existência da minha família se diluir naquele mingau pardo. Para não ficarmos todos com aparência de meleca inerte, vou misturar ao mingau aquele pó cor-de-rosa de tingir leite. Rosados, seremos emblemas de boa saúde.

E, para dar substância à gororoba nuclear, precisei comprar leite, mas só havia daquele de caixinha. Perguntei ao atendente do supermercado:

-Moço, esse aqui é o que contém soda caustica ou é o da água oxigenada?

-Sei não, senhor, não diz nada na caixinha. Mas é melhor usar máscara de proteção e luvas, antes de abrir. Só para garantir.
 
sacharuk
 
 

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