não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

a dona do pergaminho

A dona do pergaminho

Ela andava pela trilha de areia que desembocava na praia. Todavia, no meio do caminho, encontrou uma caixa.

Dentro da caixa havia um pergaminho enrolado e, a mulher, tanto curiosa quanto insegura, pretendeu abri-lo. E hesitou. Pensou que quiçá a escritura encerrasse segredos de outros tempos. Quiçá o anúncio de respostas há muito esperadas. Podia apenas discernir acerca da antiguidade aparente daquela estranha e bonita caixa. 

Abri-la ou dispensá-la? Considerou afastar-se da caixa e passar a cuidar dos afazeres. E, por fim, resolveu que distanciar-se do objeto a ajudaria a conduzir a decisão.

Voltou para casa. 

Lavou a louça e, logo após, as roupas sujas. Passou a ferro. Dobrou cuidadosamente cada peça. Cada ato marcado por exagerada lentidão. Sua mente teimosa recorria invariavelmente à imagem do objeto encontrado na areia. Não pensava em nada mais. 

Voltou à praia.

Descobriu a caixa. Rompeu cuidadosamente as dobradiças oxidadas e quebradiças. 

Lá repousava a velha escritura, caprichosamente enrolada no pergaminho dos tempos.  Passou a desenrolá-lo com delicadeza. A cada volta, revelavam-se signos e caracteres grandes e claros: 

"Partiste em busca de vida, mas encontraste experiências. Das boas e das más, criaste em ti o dom da coragem. Logo, não te surpreendas se dentro de uma caixa perdida encontres a possibilidade do medo e da incerteza. Saberás que nem todo o anúncio de vida estará expresso nas palavras que tanto queres e procuras. Se aberto o pergaminho, leia-o. Se aberta tua alma, vista-a!  E tenhas o ímpeto da curiosidade que te trouxe até aqui. E agora, retomes teu curso nas areias e não te importes com a direção dos ventos. Sejas apenas a dona do teu pergaminho."

sacharuk


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