Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

problema meu




solitude-3

problema meu

se amo
problema meu
não abras
um universo fechado

não queiras julgar
não queiras julgar
o que a mim pertence

se amo
nada tens a ver
não persigas
meus passos

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe
quem sou

não queiras saber
não queiras saber
se amo na alvura
ou na escuridão

se amo
estranhezas
certos fracassos
não há o que dizer

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe

se amo
problema meu

sacharuk

bonança


bonança

um vento tranquilo
veio para amainar 
o tempo cruel
e suas correntes

soprou brisa tal consolo
acordou aos crentes
aos idealistas
moralistas
aos tolos

soprou sementes de versos
nos campos dispersos
da nova poesia

soprou sereno
nuvens feitas das águas
do mar das calmarias

Mamilla

 

CYMERA_20161128_180130

www.wasilsacharuk.com

 

Mamilla

Se desejas deixar
a espiral da galáxia
terás de entrar
no centro do bojo central
pelo mesmo duto
que verte leite estelar

decerto sucumbirás
no centro da supermassa
perdido no buraco negro

se desejas deixar
a via láctea
terás de beijar
até que se abra
o disco galáctico
entre as nebulosas
e a poeira estelar.

wasil sacharuk

Bestiário

Bestiário

tão rude, o leão
se fecha as asas
faminto de abstração
ruge por carne
sangue
e compaixão

o leão, sua alteza
esquece a delicadeza
que fala ao coração
se é inútil dizer sim 
se é útil dizer não
reflete a juba nas águas

caça na selva intrépida
pelas terras azuladas
locus das bestas aladas
famintas egoicas
por um tanto de vida
e alguma paixão.

wasil sacharuk



tum tum

tum tum

a vida passa tão rápida
surfa lépida
asas do tempo

o instantâneo
o flash
raro momento

mas
a vida passa 
tão rápida
e passa 
ainda mais rápida
se o coração bate lento

wasil sacharuk


umbrella

umbrella

flor que floresce
da última chuva
nasce flor que parece
flor guardachuva

quando acontece
abre o pedicelo
da frieza das trevas
ao yang amarelo

onde Apolo
o belo
inspira fogos
sopra lascivas ondas
à Afrodite passional

umbrella archangelica
sedutora das sombras
benfeitora do umbral.

wasil sacharuk


onde dorme oceano

onde dorme oceano

onde dorme oceano
o vasto manto
abraça
sou abduzido
na dança
e não nego
quando dizes

te levo

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar

lá enroscam
fios de cabelos
aos cachos
costa do mar

onde dorme oceano
o vasto manto
abraça
sou abduzido
na dança
e não nego
quando dizes

te levo

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar

sacharuk

Cafuné

Cafuné

chegas fagueira
promessa e desvelos
vestes nudez
tu toda inteira
eu todo apelos
a foda que inspira

mas o que espanta a dor
é o timbre da tua lira
dança de dedos
nos meus cabelos.

wasil sacharuk



predestinação

predestinação

enquanto existo
fundo minha essência
absoluto da história
absoluto da sorte
apenas trago memórias
somente elas persistem
à morte

enquanto existo
minhas escolhas me recriam
continuamente
consciência da liberdade
que atesta incessante
a responsabilidade
de sempre escolher

sacharuk


Ato e potência

Ato e potência

sou necessariamente
tudo o que sou
genuíno
ato puro
equivalente
ao divino

eu sou
o poder vir a ser
a totalidade
sou necessário
dispenso causas
para existir

em mim encontro
a razão suficiente
que fundamenta o nada
apriorístico universo
das minhas possibilidades.

wasil sacharuk


enquanto cantam sirenas

enquanto cantam sirenas

fecham-se as cortinas
dos tempos insones
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

escorrido em gotas
na vidraça da janela
sou deserto iluminado
universo alquebrado
enganos do dia

rasgam-se memórias
dos versos infames
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

enterro solene
pássaros mortos
no quintal de terra
arranco a casca leve
das estranhas magias
com sentenças breves
escritas sem letras

e transporto
clichês borboletas 
sobre as asas
da minha poesia

 sacharuk


Xerófila


Xerófila

resta a seca
se a vida
agoniza
sem coragem

resta a seca
após a estiagem
deságuam pingos
esquálidos

resta seca
a seiva dos verdes
as vertentes
dos rios
são versos áridos

wasil sacharuk


presságios escritos nas paredes

presságios escritos nas paredes

insights estranhos
consulta aos arcanos
eco dos tempos
som dos lamentos
vislumbres insanos
junto ao trânsito
na cidade

chamaste meu nome

serena
mataste minha fome
no canto da sala
e recitamos poesia

noutro dia
plantei orquídeas negras
no parapeito da janela
que emoldura o meu vale
e confina em canções
presságios escritos
nas paredes

sacharuk

Labirinto

Labirinto

fui algoz
dos versos cadentes
torrentes
da ansiedade
deslizes do instinto

fui assassino dos versos
sem qualquer piedade
no seu labirinto

ninguém viu
quando cortei o fio
e logo matei Ariadne.

wasil sacharuk

Imagem: Dora Maar and Man Ray- 1936, The Years Lie in Wait for You


Melacueca

 Melacueca

não há
na minha ilha
mel mais doce
que a paixão

e não há
noutra ilha
igual iguaria
tal tua boca
tal o teu beijo

ninguém é tão louca
ninguém mais desafia
a verve do meu desejo

não há
amor comparado
a um melacueca
de rosto colado
num só quadradinho
do salão.

wasil sacharuk

não digas nada

não digas nada

preciso
mergulhar-te os confins
desse olhar diamante
estender uma ponte
unindo nossas pupilas,

não digas nada
negra

deixa-me querer
nada é impossível
as três da manhã
ainda despencam pétalas
das hastes

visito os ninhos
das garças estabanadas
pelas rotas abandonadas
pelos dias que passam
batendo as asas

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
ver tuas ancas
serpenteando dilemas
salvando meus sonhos

não digas nada
negra

agora sozinho
no escuro das estradas
pelas noites devastadas
os camaradas passam
e não dizem nada

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
e não digas nada
no meu último dia,
negra

e não digas nada

nada

sacharuk


Canção da maré

Canção da maré

Ela habita 
a estranha floresta
brinca com focas
diverte pinguins
sobre a lava diluída
do meu vulcão

sua cabeça verte
emaranhadas folhas
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos
a canção da maré

ela habita
o alpendre de madeira
transita nas tocas
conhece os cupins
e os caminhos de formiga
do meu chão

as suas mãos ofecerem
arranjos de flores
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos
a canção da maré

dançamos
a canção da maré.

wasil sacharuk

fotografia: pashapixel


Aziago

Aziago

atro
o contrato
com a sorte
o corte
a ceifa
cabeça
coração
o ouro

atro
o agouro
o olho
soslaio
a morte
o desmaio
infausto
funesto

à sombra da lápide
pelo campo ominoso.

wasil sacharuk

Insônia

Insônia

insônia invencível
invoca imagens
indaga
infere
intriga

insônia impetuosa
ímpia imunda
intenção indecorosa
imersa
intrusa
infielmente íntima

insônia intuitiva
instante inusitado
instável ideia
incorpora
imagina
indica

insônia insistente

insiste...

wasil sacharuk

Fábrica

Fábrica

no divã
vertem lágrimas
doidivanas
e vertem nos lenços
vertem nos travesseiros
nos quadrantes da cama

a cada louco
ainda é pouco
tudo o que a mente fabrica

acho até que tem coisa
que nem freud explica.

wasil sacharuk


Cinzento

Cinzento

escrevas poesia
das manhas
e armadilhas
das artimanhas
tudo que desabona
tua imagem

escrevas poesia
sem inocência
das tuas viagens
da indecência
que ocultas
e te incrimina

escrevas poesia
da impertinência
da mente assassina
mas não a descrevas
nas cores perfeitas
da hipocrisia.

wasil sacharuk

quando flui mansa

quando flui mansa

amigo
licença
percorro lugares
tal cometa
perfuro os ares
mas corrente de rio
quando flui mansa
que me embala
que me encanta

jogo sementes
num imenso quintal
de magnólias
e gerânios
nada mal
à velha águia
que cruza oceanos

mas se fico parado
perco o ônibus

mas se fico parado
perco o ônibus

amigo
nem a ciência
decifra a emoção
que veste o sabiá
de tanta eloquência
na corrente de rio
quando flui mansa
que ele canta
e ela dança

mas se fico parado
perco o ônibus

mas se fico parado
perco o ônibus

sacharuk
http://www.simonleechphotography.com/blog/trip-report-feldberger-seenlandschaft-east-germany/

quando só resta caminhar

quando só resta caminhar

iça estrelas
profundas nos olhos
calado do mar
nas pupilas

escuta a ira
a falta de ar
os pedregulhos
que sempre se pisa
mas nunca se vê
quando só resta
caminhar

as coisas belas
traços formosos
luz de luar
jardim de orquídeas

toca a lira
o poeta a cantar
amor e orgulho
que a verve inspira
iça estrelas
profundas nos olhos
calado do mar
nas pupilas

sacharuk
[Image: One-of-a-Kind Places on Earth]

Deixei de poupar energia



Deixei de poupar energia

Sabes da luz
que apagaste em mim?
Pois é... acendi novamente

dispenso a penumbra
das maquinações imundas
e por fim
sou um poeta diferente

sabes da luz?
pois é... acendi

deixei de poupar energia
pago a conta com a poesia
que ainda eu não escrevi

wasil sacharuk

O beijo do súdito

O beijo do súdito

suavium 
o beijo
da ágil serpente 
nos lábios
da fêmea indelicada

cerimonial sem decoro
pétalas orvalhadas
tensão projetada
sobre os joelhos

a mão que doma
subjuga
pelos cabelos
surra de aromas
mistura fluida
de desvelos.

wasil sacharuk


quando escolheste a dor

quando escolheste a dor

me libertes
se a vida verter
pela última vez
nave sem rumo
te levo com gosto

o mais bendito
rasgo na pele
meus dentes
minhas marcas
minhas garras
perfuram teus olhos

plantei na tua fronte
sementes de escuta
e de sentidos
para germinar
minha sina

agora desfalecida
vejas o que fizemos
quando escolheste a dor

ofertas a garganta
tuas vísceras
não foges
da tua desgraça

nua tu danças
sobre a cadeira
teus pulsos abertos
me pingam na boca

e logo te tenho
inerte e livre

inerte e livre

livre

sacharuk
Japanese actress Asami

Cascata cachos graúna

Cascata cachos graúna

meu amor sempre fala das horas
conduz meus dedos pelos bancos
de areias brancas
sutileza
suave textura

despenca cascata
cachos graúna
nas minhas coxas
ouço comovido 
murmúrios de encantos
numa língua insana 
de outro planeta

meu amor desprende 
poeira radioativa
das suas dunas
enquanto colhe maçãs inglesas 
pelo parque

mas o que eu mais gosto
e gosto muito mesmo
é quando meu amor
me escreve em poesia.

wasil sacharuk

Carbonos coloridos

comandante chegou com camburão cujas criaturas com capacetes continham carabinas. Cão cheirador chegou crispado. Chegaram chutando cadeiras, conferindo coisas, cara cara com Catilinas. Cão cheirou cozinha, cheirou copa, cheirou congelador com carne cozida congelada, cheirou cama, carpete. Catilinas, conquanto calado, continuava calmo. Cão cheirou coisa coberta com cobertor. Comandante conferiu. Catilinas conduzido cadeia central. Certamente conseguira condenação. Caiu com caixinha contendo cinco centigramas carbonos coloridos.


Carbonos coloridos

Cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cada cristo
cada capeta
cada canhestro
com carinha contente
com consciência certinha

Cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cafajestes
comungados com crentes
com coxinhas
capitalistas
conquanto comunistas
comiam criancinhas

canto certas coisas
com coração cortado
chamuscando cabeça
com carbonos coloridos
com carinhos
civilmente condenados

Cada canalhice
conduz consequência
converte castigo.

wasil sacharuk


caprichosa cura

caprichosa cura

carecia contar certos causos
com considerações concernentes
contos contados
com conclusões certeiras

carecia conhecer ciências
considerações coerentes
conjugar conhecimentos
com coisas convincentes

carecia cativar corações
costurar cortes
curar convalescenças
conduzir crenças
com carinhoso critério

carecia cantar
comovente canção
com cuidado
caprichosa cura

carecia companhia
câmara com cordas
colorida com clarinetas
contrabaixos
cítara
címbalos
condução competente

carecia conjugar
coisa com coisa
crença com conhecimento
ciência com coração.

sacharuk

foto: sacharuk




toquei flauta
colori as matas
em busca da essência
elixir da vida
além da sobrevivência

sacrifiquei as pernas
nas tristes cruzadas
noites desenganadas
bobo tarológico
trilha de piano
meloso e bucólico

percorri arcanos
pulei
dancei com as ninfas
desafio da fogueira
que lumia vaidades

fui executado
morto enforcado
mas estive sorrindo
na fatalidade

e na poesia
embalo as verdades
em versos de gritos

nela ressuscito
todos os dias.

wasil sacharuk


Impune e devagar

Impune e devagar

estanque o tempo 
agora
e a ti
esfola
áspera
a barba 

tua nuca
retruca
reclama
fome que esgana
meus dentes
tua pele

beijo a ti
estrela cadente
cai impune
cai devagar

o mesmo ar
que respiras
respiro
de outro abrigo
de outro habitat

e o que querias 
fazer comigo
eu queria contigo
no mesmo lugar.

wasil sacharuk

Emboscada da lua

Emboscada da lua

enclausuradas
minhas rimas
insistentes
desperdiçam tempo
tão iguais
às dos outros viventes

mas não sei
se realmente sei
não sei
se reviro poemas
de poetas mortos
talvez dos vanguardistas
solenes vigaristas
dos versos mais tortos

o sol desembarca 
sempre tão depressa
no mesmo porto
sempre tão previsível

e a lua é tão tímida
no entanto
arma emboscada
num canto

infalível.

wasil sacharuk

Mizifia

Mizifia

Levanta daí mizifia
é noite de poesia
então melhor fazer festa
pois tudo o que resta
continua uma porcaria.

wasil sacharuk

Noites repletas de uma só voz

Noites repletas de uma só voz

hoje eu pergunto
da insistência
de ter feito
o tempo divagar
fazer do intento
um lugar qualquer
qualquer outro lugar

hoje sinto
pesar os minutos
a sutura do rasgo
iminente de um grito
e do riso absurdo
delirante de orgasmos

eu busco
eu procuro
espero
que o escuro
não vire
teu brilho
ao avesso

hoje atravesso
mares mais calmos
a estrada mais longa
da distância abstrata
reviro noites estreladas
tão quietas
repletas
de uma só voz

eu ouço
eu quero
espero
que o sol
não queime
tuas costas
pelas frestas
da janela.

wasil sacharuk


Versos de premonição

Versos de premonição

quando um dia
lembrar desse tempo
debruçado à árvore
que guarda teu quarto
meu sangue em poesia
verterá supernovas
que te vigiarão
da janela

minhas letras singelas
flanarão memórias
de contos de sherazade
outras belas estórias
que contaste nos campos
ou deitada na canoa
sob o voo das garças
as brancas e as pardas
e os martin-pescadores

as marcas deixadas
pelo açoite das dores
juntarão oceanos
farão arder fogueiras
nas pupilas distantes
descansarão no arcano
do teu olhar diamante

contemplarei tua dança
aos demônios de um rito
respostas aos sonhos
em vermelho escritos
na forma de versos
infinitos
de premonição

quando um dia
esse tempo falar
no poema e na canção
acerca de flores
e o cão no quintal
derramarei as sementes
que brotarão a ti
e às coisas que te pertencem

quando um dia
esse tempo calar
quedará uma era sem nome
perpetuada tal signo
tatuado em setembros
descansará solene
sob um solo de orquídeas.

wasil sacharuk


Rosa Elétrica "Jazigo das orquídeas" (sacharuk-moskito-mathus)

Catando restos de mim

Catando restos de mim

quero a liberdade
para deixar de acreditar
e que o voo do pensamento
reconstrua minha unidade

apenas ser o que sou
merecer o que tenho
poder rir ou chorar

quero a ida
quero o sono
quero o sonho
só quero estar
catando restos de mim

quero a volta
das formas retas
das formas tortas
só quero estar
catando restos de mim

quero a liberdade
andar nas ruas da cidade
sorrir ao carteiro
abrir minha porta
e não morrer
de morte idiota

quero a ida
quero o sono
quero o sonho
só quero estar
catando restos de mim

quero a volta
das formas retas
das formas tortas
só quero estar
catando restos de mim

apenas ser o que sou
merecer o que tenho
poder rir ou chorar.

wasil sacharuk



Imago

Imago

Belbellita lepidoptera 
asas delicadas
riscadas
coloridas
no caderno

voa leve
pela vida
voo eterno

belbellita crisálida
fases pálidas
da lagarta aos lilases
e turquesas celestes

voa breve
pela vida
voo eterno.

wasil sacharuk


PHOTOGRAPH BY CARY WOLINSKY


Parindo futuros

Parindo futuros

Ando rasgando certezas
dissimulando conceitos
refazendo o tear

Ando apagando belezas
percorrendo os intentos
anunciando degredos

Ando bipartindo medos
parindo sonhos como fazem as nuvens
quando venta
reduzindo abstratas formas
a novas descobertas

Ando abrindo vielas
mordendo desilusões e as digerindo
engolindo frações das coisas complexas
com sentimentos mais puros

Ando alucinadamente
parindo futuros.

Marcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk


Calendário

Calendário

Certo dia
ontem, talvez
um traço de poesia
solapou a cadência
num grito consciente

mostrou transparência
num tom eloquente
falou sobre tudo
acerca das gentes
dos seus absurdos
das tantas doenças
do fim desse mundo

certo dia
hoje, talvez
inconcebível poesia
debocha das ciências
num riso inconsequente

mostra petulância
num tom implicante
zomba sobre tudo
se faz repugnante
desfruta os abusos
 da inocência das crenças
e faz planos imundos

certo dia
talvez amanhã
um buquet de poesia
abrirá pétalas tenras

no dia incandescente
mostrará abundância
de cores vibrantes
verterá sobre tudo
se fará radiante
derrubará muros
romperá desavenças
e tomará o seu curso.

wasil sacharuk


Chuva de meteoros

Chuva de meteoros

uma história pitoresca
sobre flores do quintal
eu escrevo às avessas
e não achas 
nada mal

perco os sapatos
esqueço o nome
depois me perco
em qualquer lugar

no nosso quarto
a nossa fome
sob a chuva
de meteoros

eu escrevo sobre os poros
sobre frutas do quintal
te conheço às avessas
e não achas 
nada mal

perco os sapatos
esqueço o nome
depois me perco
em qualquer lugar

no nosso quarto
a nossa fome
sob a chuva
de meteoros

ooohhhh
oh-oh-oh

ooohhhh
oh-oh-oh

uma história pitoresca
sobre flores do quintal
eu escrevo às avessas
e não achas 
nada mal

eu escrevo sobre os poros
sobre frutas do quintal
te conheço às avessas
e não achas 
nada mal

wasil sacharuk

http://coolinterestingstuff.com/meteors-across-the-uk

das biocoisas

das biocoisas

tudo ilumina
no brilho
cintilante nas faces
das fatais biocoisas

me caem dos bolsos
os butiás

pela baroteia
agregado de estrume
ando solto
pela cidade
retroalimento biogás
sem massa ou volume
ou densidade
calculada
nas tabelas

vejo a vida tão bela
sem certeza de nada

sacharuk


Meu castigo

Meu castigo

Lancei um pedido
nas águas do mar
estive perdido
para me encontrar

tanto fui louco
a dialogar tuas mãos
por espaços
de coisas
fora do lugar

vivo escondido
na esteira do tempo
para nao sentir
tua falta
nunca mais

vivo escondido
detras da tua porta
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia

eu vivo escondido
por espaços
de coisas
fora do lugar

lancei um pedido
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia.

wasil sacharuk

Mell Shirley - "Meu castigo" (Mell Shirley - Wasil Sacharuk)

elisabetta buonanno - il mare d'inverno

Bilhete na garrafa

Bilhete na garrafa

pelas águas
átomos mensageiros
tempos alvissareiros
as saudades sem máculas
perpassam oceanos

os mares
irrompem meridianos
continentes avessos
conduzem os versos
de amores insanos
em seus cursos intensos.

wasil sacharuk

Da esquizofrenia das noites

Da esquizofrenia das noites

se dormires comigo
aqui bem ao meu lado
ao açoite do frio
farás de mim o abrigo
que protege e abraça

formaremos couraça
contra os teus medos
e contra os meus 
sessenta e seis tipos
de nós cabalísticos

adormecerás contando 
fagulhas coloridas 
suavemente desprendidas 
dos braços do remanso
e dos sonhos de poesia

eu estarei murmurando
a esquizofrenia
que  toma minhas noites.

wasil sacharuk


príncipe

príncipe


evita saber o mistério
desse fogo que arde
no meu império
não desafia meus exércitos
atenta ao pleno domínio
das legiões invisíveis

minhas cabeças
de três naturezas
indivisíveis
são rendições à beleza
conduzem-te rasteira
ao inferno das posses

minhas pernas fortes
montam as carapaças
dos mais venenosos
escorpiões

aos que me servem
sou desígnio da verve
da farta colheita
da grata vitória
da morte aos inimigos

rasgo-te os pulsos
vertentes de sangue
a mim consagrado
com felinas garras

lagarto de fogo
desliza em teu corpo
te devora sem amarras
enquanto obedeces
ao meu desejo

sacharuk


A névoa e a nudez

A névoa e a nudez

Sussurraram as estrelas
alertando sobre o que ia nas sombras
mandaram correr e calar a poesia
mas a revelia das rezas
deixei o manto que me cobria

Vertia da escuridão o som de teus escritos
algo entre um mantra e um beijo
um alerta bendito, um chamado maldito
um verso me mandou fugir
escapar e  cobrir minha nudez

Tarde demais... 
tua névoa já havia tocado minha tez
navegante obscena dos mundos abissais
arrancou minhas roupas na magia
do teu rito

Tua mão obstinada conduziu os manuscritos
linhas desprovidas de limpidez
espíritos andantes sem valia e nem porquês
tomaram forma pela luz da eufonia

Tarde demais...
tua boca incandescente calou o meu grito
morto transpassado pela tua ousadia
murmuraste em minha nuca poemas letais
e despenquei insólita no teu infinito.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

poetisa Angela Mattos


Engano

Engano

inocente eu pensava
que o poeta via coisas
do mundo das fadas
e dos quintos infernais
coisas que reles mortais 
não poderiam ver

imaginava que descrevia
sentimentos do seu objeto
traduzido em versos
de poesia

que capturava
tons e cores
amores e imagens
descrevia sabores
de sentimentos vivos

e eu que pensava
que os olhos fechavam
para ver as paisagens
e  abriam
para saber os motivos.

wasil sacharuk


Primaveras na boca



Primaveras na boca

Tanto melhor que sintas
de uma só vez
alguns dos meus
sessenta e sete tipos
de medos

se de algum modo te posso
também te devoro
e isso talvez
te machuque um pouco

não pensarás que sou louco
sequer tu verás que sou bruto
farei com que gostes
farei com que gozes
do meu amor absurdo

não pensarei que és puta
sequer verei que és louca
farás que eu te cante
farás que eu te plante
primaveras na boca.

wasil sacharuk


A pele que veste tua alma

A pele que veste tua alma

te provoco
te perdes insana
onça selvagem
carente e faminta

verto tintas
nos teus círculos
cubos, retângulos
te entorpeço
com essências de sândalo
patchouli e cravo
perfumada em gotas
de absinto

te perdes
desbravando passagens
no meu labirinto
sem fio de ariadne
e nenhuma guarida

perdida
desnorteada
desorientada
e atrevida
tu me pedes um beijo
e me perco contigo

dançam minhas mãos
nas tuas salas
teus caminhos
teus abrigos
precipícios
abissais

deixo marcas
digitais 
minha palma
na pele 
que veste tua alma
o meu vício.

wasil sacharuk


Dos ciclos da ressurgência

Dos ciclos da ressurgência

Depois da erupção
resta agora fumaça
há pedras quentes
no chão
onde passas

as coleciono
para um dia
caso falte poesia
eu possa quebrar 
teu espelho
rachar 
teu raro sorriso
espatifar
teus olhos fundidos
às chamas do inferno

e espero 
pela próxima ressurgência
para rever minha essência
redescobrir meu mistério.

wasil sacharuk

Hudson Pontes - O Globo

Alemoa

Alemoa

Alemoa, molha tua face
imprime um sorriso á toa
na luminosidade
que emana das águas
da tua bacia

ao pé do teu ouvido
sussurros de melodias
imersas em anseios
e brutas vontades

para que minha poesia
percorra teus seios
e provoque umidades.

wasil sacharuk

O soneto jaz na biblioteca

O soneto jaz na biblioteca

O olho esquerdo
castanho escuro 
pupila escondida 
na pálpebra 
oscila e molha

gota a gota
do canto 
deslizam densas
e lentas

o olho esquerdo
castanho escuro
pisca uma, duas
três vezes... 
mais nenhuma

o outro
observador direito
paralisa alguns segundos
logo fecha-se 
tal seu gêmeo

gota a gota
do canto 
deslizam cadentes
sobre o caderno 
encharcam o bloco 
pingos coesos
de catorze versos 
simétricas estrofes 

A cadeira inclina 
a caneta quica
no canto escuro
do chão.

wasil sacharuk

Néctar dos pés alados

Néctar dos pés alados

Pressinto que é agridoce
o aquoso sabor das palavras
das tuas glândulas
vertidas

provei teus açúcares
ao prato das etimologias
me ensinou a poesia
que nunca é doce
a catarse

tuas anteras
são armadilhas infames
ao pássaro desavisado
que de janela em janela
esparrama teu pólen
por outros cercados.

wasil sacharuk

http://rubens-plantasdobrasil.blogspot.com.br

Amor-abandono



Amor-abandono

Mulher, me tenhas
no teu berço de essência
abandonado em teus seios
donde ausculto segredos

sintas o rasgo da dor
a pintura sem cor
o adorno dos medos
que me perseguem
e sempre renegues
minhas ciências
desprovidas de ser
meras penitências
razões para crer

mulher, tenhas certeza
compreendas os anseios
e as minhas carências
boba esperança
de poder sempre  ter
teu amor esquisito
diluído em desvelos

e, aos teus cabelos
tentarei novas tranças
delicadeza das tramas
fragmentos de um rito
imbuído de amor.

wasil sacharuk


passava e pensava

passava e pensava

eu passava roupa
e pensava a ferro
ele assistia
sexo e futebol
e me chamava de louca

eu só queria amor
miséria pouca
é bobagem
eu passava
e pensava
em arrumar a bagagem

eu passava
diante dos olhos
ele não me via
e eu pensava
em morrer todo dia

eu pensava
ele não passava
e sempre dizia:
poetisa pretensa
só pensa em poesia

sacharuk


Em gotas

Em gotas

Poisados na nuvem
a carícia e o gosto
pingam sorrisos

 catarei 
gotas de chuva
para verter em teus olhos.

wasil sacharuk

Coisa que já não dói

Coisa que já não dói

Aprendi a ler solidão, bebê
pois a mim
é coisa que já não dói

quando menino era só
com meus pequenos objetos
que viraram pó
e deram vida aos dejetos
da vida simplória
que não nos deixa optar

mas, meu bebê
um preço se pode pagar
como nas longas estórias
de príncipes mocorongos
e mocinhas habilidosas

enquanto isso, borrifa
as dálias rosadas
da minha velha colcha
com vinho tinto seco

e logo cedo
livra-te das roupas
te retrata à solidão.

wasil sacharuk


Até o amor verter sobre mim

Até o amor verter sobre mim

te escuto respirar
na noite adormecida
se entro pela tua janela
as coisas que te pertencem
se mesclam a mim
quero acordar pássaros contigo
na nova manhã

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

eu te escuto respirar
se entro à noite pela tua janela
as coisas que te pertencem
se mesclam a mim

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

e acordar pássaros contigo
na nova manhã.

wasil sacharuk




Faças hoje, Lilly

Faças hoje, Lilly

Fales agora, Lilly
depois fales de novo
tudo o que podes ser
e tudo o que queres

Se ficas ou vais
estejas ou não
sempre é nunca mais
assumas o controle
novamente, bebê

busca um oriente
alguma verdade
e não adormeças
na cama de plumas
todos dias renasças
das tuas ruínas

faças hoje, Lilly
que hoje tu gostas
depois, nunca mais.

wasil sacharuk

Calos

Calos

imites a sina, poeta
contes histórias
dessas nossas saudades
as infâncias felizes
e virtudes mágicas

daquelas mulheres
lavadeiras tão trágicas
que cantavam nas cacimbas
com calos nas linhas das mãos
outros tantos nas linhas da vida.

wasil sacharuk


Lavadeiras – J.Eliseu (filho)

sacharuk tem o apoio de INSPIRATURAS escrita criativa

véu do mistério

véu do mistério despencadas brumas das cúmplices estrelas luz de lua e velas falseadas penumbras sob o véu do mistério do olhar do abutre o ...