não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

Frida e as flores

Frida e as flores

Alguns poucos animais ainda restam no grande prado. Na linda primavera, as flores do campo emprestam tonalidades à vegetação. Mas os novos tempos sequer esboçam a sombra campestre do passado generoso, quando havia a fartura do pasto. Agora há apenas flores do campo.

A velha e pequenina casa de madeira nativa, rudimentar construção secular, erguida pelo heróico esforço de um único homem, precisa de urgentes reparos. O verão se aproxima e, disseram na televisão, deverá trazer consigo violentas chuvas.

Eis que o rostinho inocente e suave de Frida, debruçada no parapeito da janela frontal, tem vivos olhinhos azuis voltados para o alto do morro. Talvez a frágil casinha erguida na depressão da coxilha não a proteja mais das prováveis enxurradas.

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-Acaso um dia partas daqui, mesmo que pretendas voltar, não me encontrarás a tua espera. estejas certo de que terei outro homem. Ele será melhor do que tu, e não me deixará!

Letícia, irredutível e nua em sua cama, esfrega vigorosamente os olhos sensibilizados pelo choro e pela sonolência. Há muito teme pelo possível retorno de Chico para casa.

-Letícia, não quero te perder, mas sabes que preciso voltar para buscar Frida, não posso deixá-la lá.

-Pois voltes para aquele lugar e jamais tornarás a me ver. Bem sabes que não quero mais ninguém intrometido em nosso amor. Nesse quarto só há espaço para nós dois. Não posso e nem vou dar sustento a uma criança que não é minha.

Chico deixou o lar alguns meses antes e jamais mandou notícias. No rancho, deixou todos os seus pertences, como sinais de um retorno sem demora.

-Tenho saudade de Frida, queria que pudesses compreender. Não há sentido em minha vida se ela não estiver próxima a mim. Gostamos de cultivar flores juntos, eu e minha menina linda.

-Pois compreendo Chico, poderás ir quando quiseres, mas procura esquecer que eu existo...Fique por lá cultivando suas florzinhas. Quando saíres daqui, vais te arrepender amargamente.

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Erna, a mãe de Frida, há alguns dias partiu para o centro urbano e levou consigo uma grande sacola feita de palha, seus três vestidos junto a alguns objetos que provavelmente lhe seriam úteis. Tal o marido, antes de partir, disse à menina que buscaria o alimento que já ameaçava faltar e que, em breve, voltaria para casa. Calejada pelo trabalho no campo, a mulher tem braços fortes e traz o semblante marcado pela hostilidade dos dias de sol ardente e, também, dos dias de frio cortante.

Parada no passeio público, curva ligeiramente seu corpo para revirar o conteúdo da sacola. Certifica-se de encontrar o que procura, mas o deixa onde está. Compara o número do prédio cinzento que há em frente com a inscrição feita a lápis numa notinha de papel que segura em sua mão.

-1258, quarto 8, Letícia...Deve ser aqui mesmo!

Empurra sem dificuldade a porta de ferro do grande prédio central e sobe as escadas em direção ao quarto oito. Caminha determinada e introduz a mão direita na sacola.

Uma última revisão na notinha de papel e sua mão esquerda ergue-se para dar três secas batidas na porta do quarto.

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Frida sente mais esperança do que fome. Abandonada, aguarda com ansiedade que do alto do morro se anuncie um retorno. Nos últimos dias, apenas faz ocupar a janela e cuidar amorosamente das flores, amarelas e brancas, as quais seu querido pai colheu na primavera passada e replantou num vasinho que mantém ao lado da porta da cozinha.

Espera pela tempestade que se aproxima. Apenas espera que uma nova primavera devolva a vida que se consome no seu vasinho.

sacharuk

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