não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

brado

brado

bendita!
baiúca bem bandoleira
beirando baita baderna
balcuciando boas besteiras
Babaquice babilônica
balbúrdia, boatos, balelas
Brasil beirando Babel
baita bafafá... berros!

bispos batizam bacuris
barganhando bagatelas
bagulho baixada bem barato
barganhando bagatelas
barnabés bobos batalham
barganhando bagatelas

bagunça banalizada
baile barracão
bajulando bacanal
baba baby
bate boca

bate bateria
batuca
bum bum bum
bota barulho batucada
bota balanço bamba

brasileira bonita
bota balda
balança bunda boazuda
bole bole balaio
bota banana
bamboleia

bando bestial
bandidos bizarros
botam banca
bendizendo Brasília

bondade banida
bandeira brasileira
beirando bancarrota

bom
brasileiro bacana
benevolente bocaberta
bebe barril birita bagaceira
bafejando budum...

bonança!
bom botar beiços bipartidos
baseado boleado
bota brasa
bota barato!
buuuuuuuuuuu!

sacharuk

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meus tons

meus tons

algo em mim tem tom lúgubre
caverna escura insalubre
para guardar os meus eus

também cintilo um tom vivo
certo calor radioativo
retido sob os meus véus

minha face é tão pálida
de melanina inválida
para clarear o meu céu

meu sentimento é tão blue
rústico ríspido e cru
matizes frios dos meus breus

e eu me dissolvo nas cores
máscaras das minhas dores
em tons que não são meus

sacharuk

churrasco

churrasco

chamado para a indiada
regalo a los hermanos
o calor desprendido da brasa
guaipecas na volta da casa

alemães, italianos, serranos
indiada da nossa invernada
a gaita encanta a mateada
milongueio com os castelhanos

amizade que nunca defasa
distrai o peão haragano
acolhera toda a tropeirada
a trote na cavalgada
honra a liberdade
de qualquer orelhano

a cana sempre repassa
enquanto a costela
ainda assa
fumaça da lenha queimada
afugenta qualquer desengano
e enaltece a terra amada

 sacharuk

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da solitude

da solitude

da solitude sou voluntário
não aceito tudo o que vejo
eu não divido minhas crenças
vivo com minhas diferenças

fui escravo do desejo
fui prior e fui templário
fui de um mundo imaginário
pregador de desapego

nas conclaves da indecência
forjei união de fé e ciência
do mundo aprendi o segredo
por isso hoje sou visionário

fui outra vítima do medo
fui guardião do meu relicário
fui mancebo do rei ordinário
a imagem de um arremedo

da vida entendi a urgência
que a busca não finda cedo
e que sou um rebento diário
recriado da própria essência

sacharuk

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a surpresa tem cara de falsa

a surpresa tem cara de falsa

como pensas surpreender 
a quem tudo pode esperar?

o que não sei não me surpreende
minha fascinação 
são imagens desfeitas

espelhos diluídos
encantos quebrados
escondidos nos cantos 
do quarto

me surpreende
o que já sei
se o vejo diferente
o que não sei não surpreende

estilhaço estátuas
quebro paredes
busco resquícios de vida
na massa que une tijolos

me surpreende 
o que sei que está dentro
onde não sei onde está

o que nunca sei 
não me desmente
logo, não surpreende

pois a surpresa
tem cara de falsa
de mentirosa
argumento liquefeito

o que não sei não me é
o que não ouvi não me ecoa
o que surpreende 
rasga a garganta silente
e abre ranhuras
nos muros da mente

pelo resto não me fascino
sequer pela vida dura
que renasce no limo
que encobre as ruínas
e tal fênix
revolve a cinza da vida

não há surpresa
na coisa que verte
tão salva e linda
tatuada com a marca
da experiência
sal extraído das lágrimas
que depois se converte
em sorrisos e brilho

o que surpreende 
é o verme imundo 
borbulhante nas gotas 
do sangue mais podre
e habita o hiato da descrença

me interessam
a fraqueza confessa
e a feiura

logo, não me causes espelhos
a refletir lindas faces
tu os engoles
e nunca te engasgas
portanto, engolirás para sempre
para que não te percas de ti

o que me surpreende
apenas seduz
transmutando belezas
as quais eu já sei

sacharuk

saliva-me

saliva-me

despenca aos rios
saliva louca
sussurrada da boca
enlaça-me aos fios

despenca dos brios
tatua as roupas
plasmada nas coxas
misturada ao cio

saliva-me entranhas
a morte
a arte
as manhas

me apanha
na tua língua

saliva-me à míngua
engulas
pela cabeça
alcança a base
minha fraqueza
teu destempero
meu desespero
aos jatos

sacharuk




fundição

fundição

no lapso resvalo
até o córrego
fiapos líquidos
escorrem trôpegos
a inundar os declives

deslizam suaves
ao anel negro diamante

na cavidade
o ferro forjado
em brasa ardente
encontra o encaixe

sacharuk



limão azedo

limão azedo

ah, perdoa
o ego que me consome
logo, sei que não mentes
mas não acredito
merecer tua dedicação

não sou digno
de atenção
sequer de amor
problema de autoestima
garantia da rima
com a dor

acaso tens
um amor barrigudo?
velho?
doente?
maluco?

tens não...

queres algo diferente
alguém que chupa limão

sacharuk


"virgulinidade"

"virgulinidade"

tua virgulinidade...
demarca minhas pausas
eu respiro
e a ti eu denoto
inflexões da minha voz

virgulinidade enfática
saltitante acrobática
delineia tuas expressões
períodos das tuas orações

virgulinidade tua
te constrói em significados
nua verdade
contra a ambiguidade

que de mim
separas incólume
sindéticas coordenadas
que me explicam
e que me concluem
entre consecutivas orações
divides meus elementos
de mesma função

virgulinidade 
eu respiro
e a ti eu denoto
inflexões da minha voz.

sacharuk


bailarinando

bailarinando

breves rodopios
sutis deslocamentos
vejo-te bailarinando
ao vento

tão leve
te inseres
nos meus pensamentos
teus movimentos
dançam na esteira
dos tempos

teus pés tocam lentos
em pontos incertos
mas voas ligeira
bailarinando
faceira

sacharuk

a verborrágica exagerada

a verborrágica exagerada

verborrágica é a vivente
que se vale da verborragia
a incrível arte oratória
de dizer muita merda
sem filosofia
ou qualquer poesia

a que gasta vocabulário
com argumentos otários
de viés insignificante
repleta idiossincrasia
e nada importante

emprenha-te os ouvidos
a verborrágica exagerada
parece um autofalante
que tenta ser eloquente
e não diz nada com nada

sacharuk

sublime



sublime

fico assim
louco
se te faço louca
enlaçoteu corpo

todo espaço
nesse quarto
é pouco
ao desacato
devasso e obsceno
que, amoral
é tão pleno
portanto,sublime

aos olhos santos
somos crime
de encantos
nos contornos das coxas
das bundas e bocas
do pau da boceta
doutras vias

 quando o sol desperta
 gentil inocenta
nossa sodomia
diamante mais bruto
sob a luz desse dia
tu te sentes repleta
eu me sinto poesia

sacharuk

meia tigela de versos batidos

meia tigela de versos batidos

quero dar meu caloroso abraço
e fazer uma colocação
aos que estão no fundo do poço
ou na rota de colisão

quero abrir com chave de ouro
sua mente e seu coração
pelas raias da emoção
vamos quebrar o protocolo

quero uma atuação impecável
nos palcos da vida real
que tenha importância vital
não seja perda irreparável

quero respirar aliviado
jamais ser vítima fatal
e viver além do normal
visivelmente emocionado

quero inserir no contexto
e logo entregar a você
o poema de versos clichês
coroado com êxito

sacharuk



meu porrete

meu porrete

meu porrete
é milagre de santo
é mistério e remédio
aos sais do pranto
aos males do tédio
um risco no lombo
dos faniquitos

meu porrete
é o cacete
que come no couro
num relance
perfura cudouro
derrete cudoce

sacharuk

um desejo me consome

um desejo me consome

um desejo
me consome
de beijo
de fome
possuir-te a alma
o cortejo
com calma

do desejo animal
fazer mais do que sonho
um tanto sensual
outro tanto bisonho

mas não é isso somente
que motiva

plantei uma semente
de sempreviva
no lindo canteiro
do meu quintal
entre a arruda
o jasmim e a sativa
e espero o fim
do ciclo outonal

sacharuk

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nenhuma crendice é meu desatino

nenhuma crendice é meu desatino

quero o melhor ceticismo
para reverter toda crença
que não seja só cinismo
que não traga desavença

quero o caminho alargado
da existência excomungada
planar sob céus de pecado
tal guia pagão na estrada

o seu preconceito
é sua contradição
revelada num hino
na cruz em seu peito
no rosário na mão

sou eu mesmo o artífice
do meu próprio destino

quero viver o ateísmo
sem ouvir palavras pretensas
contradizer o determinismo
daquele que crê e não pensa

e não preciso ser julgado
por qualquer lei forjada
e só quero ter respeitado
o solo das minhas pegadas

eu tenho pleno direito
a não ter religião
pago caro desde menino
não representa defeito
ser ateu ou pagão

nenhuma crendice
é meu desatino

sacharuk


famigerada figura

famigerada figura

famigerada figura
feneceu feio
feito fome
fazia furor febril
face fervente
foi fanático
fomentou fúria
foi fervoroso feito fé
fumegante feito fumaça
flamejante feito fogo
fogo fátuo
foi funesto fato

famigerada figura
forçou felicidade
forçou...
felicidade finalmente
fez foguinho fraco
faiscou fagulhas feridas

fez fabulosa fortuna
financiou farras
fanfarras
fisgou fêmeas fadadas
famosas financiadas
fantásticas formosas
fodedeiras frescas
feito fúteis fadas
fumegando falos

faliu fábricas
forjou falácias
falsificou
foi facínora
formou falanges

favoreceu falsidades
fez feitiçarias
finalmente foi fisgado
fichado

fígado foi furado
faca faiscante
fincada fundo
facada fatal

finalmente
faleceu
fatigado

feneceu faceiro
foi feliz
foi fácil
foi fagueiro

foi famigerado fariseu
fiel fanfarrão
fatalmente
fará falta

sacharuk

"tarsentilho"

"tarsentilho"

tarsentilho insone
das luas

cruzarruas
e explode
balastros

longos passos
no escuro
graúna

nas ruínas
arranhões
e esgarços

tarsentilho espaço
e lacuna

pega a unha
e irrompe
em cabaços

rompe lastros
a glande infortuna

lava a burra
a alma
e os rastros

sacharuk

Marcos da Alma


Marcos da Alma

Eu sou eu, simples assim 
e você é você...
Simples assim

Sou um, do início ao fim
assim tal você

Simples assim

Somos barqueiros 
e embarcadores
sábios e aprendizes

Feios e bonitos
Silêncios e falas

Somos arteiros
e encantadores
de risos e cicatrizes
mansos e aflitos
picos e valas

Coragens e medos
vidas e mortes
pontos e partidas

Colagens de enredos
fracos e fortes
voltas e idas

Enfim, somos nós 
em construção sempre.

Maria Sofia e Sacharuk


lama tóxica aos cachorros do Pavlov

Lama tóxica aos cachorros do Pavlov

Está pronto e divulgado o laudo técnico especializado que calcula o teor da contaminação produzida pela lama samarco? Não, né? Talvez as autoridades imaginem que o estudo seja dispensável, afinal, qual a dimensão do sinistro da lama para quem já vive atolado na merda?

Mataram o rio... não dá para comprar outro e botar no lugar. E se desse, não haveria dinheiro... os vagabundos levaram todo. E apenas quem pagará a conta é a qualidade cada vez mais indigna das nossas vidas. Vai ficar nisso mesmo: sem culpados, sem penalidades, sem consciência...

Se o evento ocorresse num país digno, do tipo sério, a análise já estaria pronta e medidas efetivas de recuperação sendo tomadas e os administradores da catástrofe sendo presos.

Já sabemos de antemão que nada será feito. Seria necessário uma quantidade mínima de cidadãos para exigir qualquer medida de reparação. E no parlamento da cidadania, não há quorum.

A lama tóxica que emporcalha a consciência dessa gente é que perfaz o maior dos desastres ambientais. É apenas brasil, terra de políticos corruptos e analfabetos, empresários ladrões e povo abostado... muito abostado.

Vai ficar tudo por isso mesmo... vai virar arquivo audiovisual da rede globo para os zumbis do futuro chorarem a triste sina.

Logo chegarão as festas natalinas, o bigbrother, o carnaval... e nossa gente subserviente e burra estará alegre e festiva a sambar com a bunda de fora sobre um mar envenenado. Que não reclamem mais, afinal, temos a medida exata do retorno das nossas frouxas ações.

sacharuk

Curso da Poesia


Curso da Poesia

Era um dia feito outro qualquer
estendido em caldas de leses
quando o desejo insano de ser
converteu-se em algo diferente
na luz de um sombrear claudicante
o morno se fez instante consciente.

Era o novo sabor de um instante
me vi em outro cais num outro revés
estendido em cais os navegantes
borbulhavam em ondas e marés
a verve soprou suas sementes
e os versos brotaram nos pés.

A alcova que antes era doente
flertou o sol no mais belo poente
e a natureza não pode conter
e sorriu em luminosa poesia
vestida da lese a perdurar instantes
com gestos nobres de maestria.

Maria Sofia e Sacharuk


mulher multidão

mulher multidão

mulher multidão
malemolente malabarista
mergulha mar movimentado
maneja moluscos murchos

magnificência miserável
monta meninas
monta moleques
machos maduros
maiores menores médios

maliciosa
molesta matrimônios
maravilha maridos
magoa mulheres

moralista mordaz
manufatura machismo
mercantiliza morfologia
monetiza mastercard

mulher mutreta
mete muito
muito mesmo!

maquiavélica multifaces
manipula misérias
mensura migalhas
manobra mentiras
milita maledicências

sacharuk


Cavalgada

Cavalgada

Os longos dos anos vividos
entre porteiras abertas da estrada
os meus momentos todos perdidos
entre a esperança e o nada
entre o silêncio e a despedida
vislumbre de tal vista regata.

Daí anunciei meu pedido
no meio da noite enluarada
uma canção que fizesse sonata
por entre a brisa apanhada
venci os entraves do medo
e a poesia não se fez calada.

Raiou o sol ante a madrugada
vestida de aura tão delicada
fez do meu medo arremedo
fez da minha prece toada
em um galope de cavalgada
na despedida da alvorada.

Maria Sofia e Sacharuk


mago das letras

mago das letras

delegaram-lhe a alcunha
o tal Mago das Letras
e confirmou na poesia
que não é dado a mutretas

quando a rima conversa
e declama
a arte honesta
é reversa
engana

já matou leão à unha
nem precisou fazer careta
é fechado contra bruxaria
abateu o boidacarapreta

quando a sina engasga
retranca
o mesmo poema
que rasga
destranca

quem o conhece testemunha
que já viu céu e sarjeta
mudou o norte da estrela guia
mais rápido que um cometa

quando a vida reclama
esperança
a história escrita
na lama
descansa

nenhuma questão acabrunha
os versos que a vida arrebenta
dos reversos ele faz alquimia
em toques de tecla ou caneta

quando a musa canta
não cansa
a deusa das letras
que dança
encanta

sacharuk

blog (2)

Poeira de Estrada

Poeira de Estrada

Em algum lugar distante daqui
poeira queimou chão e alforje
foi o fogo maior que eu vi
fez tudo o que pode e não pode
e o corcel saltou galopando
queimando estrada e poeira.

E não estava de brincadeira
sequer estava armando galope
mas foi por uma tal cerqueira
que meu cabresto saiu por sorte.

Escapei do abraço da morte
esqueci qualquer dor passageira
foi uma tal garça aventureira
que na estrada velha de poeira
fez tal corcel perder a direção
cavalgando pelos trilhos da mão.

Eu cavalgo não é por esporte
mas sim por vontade faceira
cavalgo por relvas e noites inteiras
com meu cabresto solto na cernelha.

Maria Sofia e sacharuk


molemar

molemar

adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor

lancei corpomol
sobromar
desandou molemar
molemar

malamor, mintenda
vertente rebolenta
dos beiços caldeados

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

malamor, miscuta
teu jeito disputa
sereia do mar

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor

sacharuk


otimismo

otimismo

é a crença ridícula no incerto
é poema de versos do absurdo
o pretexto infalível dos sortudos

otimismo é conceito confuso
nos meandros da poesia
onde impera
certa delicadeza
traduzida em versos

é igual àquela certeza
de que se pode virar a mesa
e fazer tudo dar certo

sacharuk



hoje ele não voltou

Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.
Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.
Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.
Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.

sacharuk

o sol que pinga


o sol que pinga

bem cedo
o sol que pinga é diferente
pinga em concisão
remédio
remédio que dá fim na dor
e no tédio

agora eu via o sol
pela tonteira da visão
e a cor
a cor do raio é o calor

quando pinga
pinga energia na gente
bem no coração
acolho
o que abre o chakra e o olho

agora eu via o sol
tão no coração
bem quente
quente a manhã
de fogo ardente

o sol consome a morte
e a semente
fácil e sem perdão
aquece
aquece a memória do karma
e esquece

sacharuk

algodão-doce

algodão-doce
ensacado
açucarado
de tão doce
deixa enjoado
no entanto
o palito espetado
traz infãncia
de melequenta repugnância
e corante rosado

geralmente se gosta
quando se é criança

algodão-doce
pueril poesia
ou um passo de dança
de leveza e a alegria
memória da diversão
ingênua abstração
e beijo roubado

sacharuk

texto inacabado

texto inacabado

O portão de ferro. Na sua metade inferior, a ferrugem contempla pequenos pedaços quase soltos do ferro oxidado. O chão de cimento cru, sem revestimento, revela um vasto caminho que leva até o fundo. Na metade do percurso há uma velha porta de madeira, tal o portão de entrada, apodrece lentamente por baixo, e sua pintura branca tem manchas de sol. O teto parece ter sido branco, tal as paredes. Nessas despencam nacos de tinta velha no chão de cimento.

Paredes em farelos.

Um ventilador de teto com teias de aranha. Recostada à parede, uma estreita escadinha de madeira. Sobre seus degraus, copos, garrafas já abertas, uma carteira de documentos, chaves diversas e o aparelho celular.

O televisor antigo de onze polegadas permanece ligado. Na tela, homens discutem e vestem gravatas.

Uma poltrona funda e ampla guarnecida por travesseiros. 

O homem sentado tem a cabeça caída sobre o ombro direito parece dormir. Entre seus dedos, uma caneta. Logo a sua frente, na escrivaninha de ferro, um caderno. Nele repousa um texto inacabado.

sacharuk

cada crença corresponde com cada cadáver

cada crença corresponde com cada cadáver

corriqueiramente
coveiro chega capela
coloca cruz centralizada
castiçais com chamas
 convenientemente cintilantes
conquanto consome
 caneca com café
conforme chamusca cigarro

cabe coveiro
corresponder corpo
com caixão contratado

convém colocar cravos
condecorando casaco

como colaborador com cemitério
conforme chega
coloca chapéu contra claridade
cava... cava
cem centímetros
construindo cova

conforme correm cerimônias
conduz criaturas chorosas
consanguíneas com cadáver
conduzirem corpo
carregando caixão
coberto com camiseta
correspondentes com clube
cujo cadáver contribuía
cantam canções comovidas
como cadáver cantava
choram copiosamente
conquanto cuidadoso coveiro
coloca cobertura 
cerrando caixão
centraliza com cova

coisa comum
caírem crisântemos
como chuva colorida

contudo
certamente
cadáver continuará calado
completamente chateado
com culto cretino

sacharuk

a solitude tem lágrimas secas

a solitude tem lágrimas secas

aprende, menina:

a solidão convertida em rosas usa espinhos como escudo

do que sabe o jardineiro, afinal? perfurar a pele nos espinhos da tragédia?

a solidão se isenta do perfeito sacrifício em favor do outro. consolida-se
rosa seca de haste dura e grossa que, imperfeita, se acomoda entre as páginas de um livro velho guardado no canto da estante

não compreende o desvelo dos jardineiros, mas dos bibliotecários, cuja colheita abarca as memórias amareladas e condensadas

lembra, menina, os solitários que cultivam flores são desprovidos de solitude

eis que a beleza das flores nega a solidão

rosas transmutadas no sépia dos tempos esqueceram dos próprios aromas
desidratadas habitam superfícies artificiais distantes às suas cheirosas roseiras
as cores definham lentas

a solitude tem lágrimas secas, menina
tal os líquidos que deixam seus invólucros derradeiros

na morte das coisas que se contempla solitude. bem sabes

pouco importa a natureza das coisas... ficam rastros das formas e conceitos
e a vida sempre será o acalanto de todas as mortes

entre o frescor e a secura há um tempo de ida e outro de volta
um sempre canta para o outro ninar
no aconchego do ninho
entre o viço e a senilidade dos galhos

sacharuk


prece

prece

vocábulo do gênero feminino
popular na Língua Portuguesa
significa coisa sem certeza
algo entre súplica e hino

prece é nome substantivo
coloca a ação do sujeito
de mãos à frente do peito
num papel totalmente passivo

enche ouvidos das divindades
com tantos motivos
falsas verdades
e poucos defeitos

na voz da sinceridade
prece é o momento que o dia
se desfaz em ocaso
e quedam-se os versos rasos
gesto sagrado de poesia

sacharuk

ambiguado


ambiguado

agora, que sou velho e fraco
carrego o meu tabaco
na tua pequena boceta
onde guardavas caneta
e outros bichos de plástico

sacharuk

o argumento da "vivardia"

o argumento da "vivardia"

jamais acatará
o morrimento
o fatal argumento
da vivardia
ninguém diz alegria
sobre lamento
ninguém faz fundamento
de poesia

jamais nosso dia
foi temporento
o quintal de cimento
que angustia
ninguém diz poesia
do fundamento
ninguém faz do lamento
a alegria

sacharuk




tela de lua

tela de lua

voo na noite
viagem distante
eu e as corujas
viramos estrelas
intrusas
na janela 
tela de lua
do teu quarto

dormias nua
sem recato
teu semblante
lavado nas águas
da nascente de lágrimas
que de mim
te inundaram

vestimos folhas soltas
de tuas árvores
eu e as aves

e quando veio o dia
eu trouxe na boca
um verso livre
da tua poesia

sacharuk

ciranda dos braços



ciranda dos braços

poetas cantam
ciranda dos braços
quando luzes de versos
envolvem o espaço

quando há poesia
são curtos os laços
cruzados convexos
por todos os lados

poemas refletem
destinos emoldurados
nas mãos que se cruzam
num signo encantado

divinas mãos dos poetas
entrelaçam incertas
o amor desvelado

sacharuk

"cordascente"

"cordascente"
subi aos céus
junto aos demônios cordascentes
não éramos bichos
não éramos gente
somente brilho faiscante
raio resplandescente
tipo de magia
que mistura poesia
com tragos de aguardente

sacharuk

antes que te esglote

antes que te esglote

melhor salvares teu pescoço
antes que um ataque te esglote
e depois te deslaringe
te mate de desofagia

melhor morreres de poesia
do que de fricote
daí não te finge
e confies na traqueologia

livra-te das renalgias
que te aprisionam os mijos
e os pedregulhos mais rijos
nos autos da bucetologia

sacharuk


bunda mole



Sabes por que:

-teus políticos te roubam?
-te assaltam nas ruas?
-teus filhos são semi-analfabetos?
-teus parentes morrem nos hospitais?
-teu salário é ridículo?
-teu banco te extorque?
-tua escola está em greve?
-tuas prestações estão atrasadas?
-Teu padrão de vida é decadente?
-tua aposentadoria é indigna?


É porque tua bunda brasileira é muito mole.
E teus miolos brasileiros são mais moles ainda.
Porque recusas o conhecimento e a cultura e te preocupes demais com quem está comendo quem na novela das nove. E saibas: em cabeça mole não reside consciência.

E, sem consciência, tu só vais te foder... Merecidamente. Frouxo!

Ficaste furioso? Aí que medo!

gatucho

gatucho

teus olhos gatuchos 
são ingênuos
parecem tão plenos
horizontes de mim

olho-te assim
navegante do futuro
permaneço contigo
viajantes imaturos
distantes do abrigo
longe do porto seguro

enxergo-te em mim
intenso ou ameno
no claro ou escuro
em todos sentidos
no riso incontido
e também nos apuros

sacharuk


certas circunstâncias

certas circunstâncias

calo...

calo conforme coração cede
cutuca célere
comovido
coração caído
consignado
com certas circunstâncias

coração carece calar
cessar consonâncias
cessar calores
carinhos
conversas cantadas

cada certeza
cai calada
carrega consigo
cada conclusão conveniente

calo com companheiros
com compromissos
com conquistas
com carinhos

certas circunstâncias
conduzem corpo calar
consternado
cativo
caindo como casarão centenário
corroído

calo, contudo
continuarei
cortando caminhos
com cabeça competindo
com certas circunstâncias

sacharuk




acaso parasse a chuva

acaso parasse a chuva

se parasse a chuva danada
esperaria mais nada
para esquecer o medo
e abrir a porta

as crianças levariam
os brinquedos
para o quintal

não sei se penso bem
ou se penso mal
mas pouco importa
essa chuva trouxe tristeza
do tipo que corta
levou tanta vida
e tanta beleza

nas hortas
lavouras e pastagens
um espectro da morte
e a sorte
veio na estiagem
o esforço frustrado
o cansaço e o arado

acaso parasse
decerto eu passaria
a plantar existência

talvez vingar semente
que na impermanência
vai morrer pela gente
de chuva ou de negligência

sacharuk


Amigo poeta, por Paulo Moraes



Desde 2009, contribuir para o desenvolvimento da poesia na internet se tornou meu melhor passatempo. Daí, junto aos amigos, fizemos surgir a Nova Ordem da Poesia para servir de arcabouço para as peças e repositório de grandes amizades. Sabe, eu nem sei ao certo porque faço isso, mas fico feliz em perceber mais gente escrevendo literatura. 
Hoje fiquei muito emocionado com a homenagem do poeta Paulo Moraes, a qual transcrevo abaixo. 
Quando despenca uma ou outra lágrima, passo a perceber o sentido de tantas coisas: carinho, gratidão, amizade, arte e beleza... tudo muito pleno de significados. 
Grato, poeta. Quero saber de meus filhos lendo essa peça no futuro e possam, assim tal eu, passar a compreender os significados.

"AMIGO POETA!!

(em homenagem ao Poeta Sacharuk, por sua contribuição à poesia
e por estimular e incentivar o surgimento de novos poetas)

Ah meu amigo! 
Eu sei que tu conjuras
flores imaturas
e das tuas mãos saem afagos
de eterna saudação.
Ah meu amigo! 
O sol brilha nas tuas palavras. 
Elas são como um bálsamo
repleto de amanhãs. 
É o teu corpo invencível 
que derrota os malefícios 
e conduz os teu passos firmes 
entre as pedras amigas. 
Já vi tua caneta romper muralhas, 
com a sensibilidade
dos jardins resolutos. 
Entre o sonho e a vigília 
tu preparas o banquete das estrelas. 
É a Lua que te aplaude 
com seu robusto peito de pérola. 
Navegamos juntos, nos mesmos versos, 
colhendo os horizontes de cada dia.
Mas sempre, és tu, 
quem rema com maior entusiasmo. 
Nesta fortaleza estamos amparados, 
por causa da tua incessante generosidade, 
carregando os nossos fardos
de ânsia de poesia.

PAULO MORAES"

sorvete

sorvete

menina
senti dor no córtex
tomei um sorvete gelado
preciso do agente neutralizador
que faça passar
a tal dor

menina
me aqueças da hipotermia
pois posso morrer congelado
na alquimia
infinita das cores
a provar a poesia
de meia centena de sabores
consistentes
sem conservantes
elegantes
e importados

menina
ensina o cuidado
que vinga nas belas frutas
e transmuta
a natureza mais bruta
em doces texturas
de encantos
combinados

sacharuk


Proveito de poeta

Proveito de poeta

Provei da insipidez 
de um verso branco
de viés desconexo
decalcado no léxico

Provei um verso manco
engasgado
perdido da fluidez
pleno de insensatez
num poema travado

Provei sem descanso
alucinado
sem regra, sem noção
com medo de assombração
objetivo abandonado

Provei da mutação
de um verso manso
de efeito visionário
libertado do imaginário

Anorkinda & sacharuk

Elementais azuis

Elementais azuis

Eu jamais poderia ter feito um céu assim, tão azul. Nele plantei a fada de cabelos cacheados; um pensador carrega um duende hermeticamente fechado numa caixa de isopor;, uma bruxinha do bem, de cor violeta, para contrapor a magia ambígua e contraditória da fada e, ainda, uma musa bela e míope para inspirar poesia desnorteada. 

Nenhum outro céu vibraria tão bem em acordes de poesia.

Para chegar até lá, construí uma ponte de madeira de lei. Como um esquadro tanto torto, invade o leito das águas e alcança o risco do horizonte.

Hoje, fui até lá sentar junto aos comparsas azulados para beber o vinho das letras em canecas aladas. O tilintar das louças fez a vibração que acorda um mago da poesia, coitado, andava tanto adormecido num cantinho a espera da canção. Então, logo a cantamos. Eu jamais poderia ter cantado assim, nesse tom tão azul.

Sobre a ponte, remeti o verso ao infinito. O danado rompeu camadas celestes para depois cair fofo na nuvem chorona.

Eis que o mago da poesia o alcançou com uns doidos fluidos magníficos que jorravam quando eu e meus amigos enlaçamos nossas mãos.

Capturado, o verso fujão foi fatalmente afixado no meio de um poema caótico. 

E do caos da poesia, erguerei outros céus... tremendamente azuis... ainda que podem ser de outras cores.

Serei eu o artesão de uma nova ordem.

sacharuk

inflação



"Se ocorresse um vendaval de moedas
faria um colar em forma de terço" (Lu Leal)
Oficina INSPIRATURAS/APCEF Regional Sul- "Inflação"- desafio de poesia livre

inflação

moedas quedam vendaval
de euros, francos
dólares, yens
muito mais
e além

se eu contar
até aborreço

nada mal
do dinheiro fiz um colar
de metal verdadeiro
em forma de terço
e do $Real
eu só fiz um chaveiro

sacharuk

meu eu oculto - acróstico

meu eu oculto - acróstico

Máscaras de mim
Ergui, por fim
Uma a uma

Escondi sobre as vigas
Úmidas contendas

O que sou ninguém liga
Coisa que cala a mim mesmo
Um verso solto, a esmo
Libertador das distâncias
Terra fértil das ânsias
Onde plantei meus rebentos

sacharuk

metal

metal

luzes vermelhas, azuis, amarelas... de mercúrio e neon.
O asfalto e a dança dos faróis.
No céu, lua cheia, noite cristalina.
A mulher anda pela direita, passadas largas, rápidas.
O homem, á esquerda, pouco atrás, ritmo equivalente.
Empunha, o homem, objeto pontiagudo, metal brilhante.
A mulher veste casaco - um grande - gorro de pele, luvas.
Os passos apressados cessam junto à parede do casarão. Manchas vermelhas.
O homem sobre o meio-fio. A mão entreaberta ainda segura o metal.
A mulher abotoa o casado, livra-se das luvas e segue.

sacharuk

ao poema conselheiro

ao poema conselheiro

liberdade em cascatas
despenca em palavras
fetiches e bravatas
oferendas ao amor
descrito nos versos

poeta ao avesso
linhas do despudor
penetra travesso
estocadas
líricas e obcenas

tu, poema, acenas
logo te peço
a passagem

ventos da viagem
lambem as asas
borboletas e fadas
recitam de cor
poemas diversos

poeta ao avesso
rimas de esplendor
penetram travessas
estocadas
em música e letra

tu, poesia, não esqueças
 te aviso
sou apenas passagem

sacharuk

noites de estrelas cadentes

noites de estrelas cadentes

eu te procuro
nas noites quentes
de estrelas cadentes
que um dia plantei
no fundo do quintal

mas nunca eu sei
quando chega o sol
sei apenas ouvir
latidos dos cães
mas se gritas
ainda posso te ouvir

passo o tempo a sentir
e imagino que sintas
o teu próprio cheiro
impregnando as flores
deliciadas
em tua volta

no ballet dos amores
vejo-te solta
como nos sonhos
caindo comigo
sobre lençóis
azuis cor de mar

são tantos sóis
para me acordar
dessas noites
de estrela cadente
que certo dia plantei
no fundo do quintal

sacharuk

Era maio, talvez setembro..

Era maio, talvez setembro..

De tudo o que eu era restou somente palavras. Logo, não mais do que palavras é o que agora sou. Me alimento de sonoros substantivos. 

Fiz brotar húmus de flor para voltar ao princípio. Danço agora, sapateio com o verbo.

Risquei um tempo insano sob o prisma de qualquer existência. Era tarde, quase noite, quando uma tremenda chuva de versos, diluídos com whisky, derramou-se e,despudoradamente, fui banhado. Parti ao encontro da palavra pelado das roupas, das crenças e das ciências.

Desde então, fez-se outro o meu intento. 

Era maio, talvez setembro.. Não sei bem ao certo... lembro apenas de ter visto um poeta pedalando uma bicicleta.

Dia desses tornei a vê-lo. Sentado na asa de um avião.

sacharuk 

entorpecente

Entorpecente

-Rezaste?
-Não!
-Fizeste o quê, então?
-Sabes, Santidade, a Sininho...
-Opa, esqueças essas ideias pagãs.
-Ela é fada!
-Cala-te, menino, respeita-me!
-Não é isso... é a magia... aquele pó.
-Pó?
-Sim, pó.
-Que pó, baixinho?
-Pirlimpimpim, eu acho
-Isso é droga.
-Não, é pó... pó mágico... brilhante.
-Se é mágico, deve ser entorpecente.
-Padre! É a Sininho...
-Menino, não mistures mulheres fadas com pó mágico... isso tem aspecto de vício.
-Não é isso, Santidade!
-Dez padres nossos, com a pureza do coração. Peças absolvição e afasta-te das drogas.

sacharuk

tua alma escandalosa


tua alma escandalosa

hoje quis saber
se gostas de mim
enfim
quero beijar tua boca
é meu desejo
quando te vejo

e dizes:
...isso soa muito bem!
e a mim, também
parece uma linda imagem

sou desvelos
de boca entreaberta
pode te devorar
sequestrar teus segredos
te fazer revelada

apenas para ouvir
tua alma escandalosa
gritar desvairada

sacharuk


agenda

agenda

rascunhos de poesia
versavam desejos
entre as notas do dia

escritos à língua
letras em tua boca
e verve derramada
sobre os seios
que te delatam

sacharuk


chuva setembrina

chuva setembrina

olá menina
aqui despenca
chuva setembrina
bem gostosa
ora fina
ora grossa
mas sei que aí
um sol queima

nosso clima
tem uma sina
e por isso ele teima

sacharuk


a princesa molhadinha do sul

a princesa molhadinha do sul

o frio daqui é tão frio
e o calor é calor
o amor daqui é tal rio
a cor daqui é sem cor

mas nem toda água é de mágoa
nem toda lágrima é dor
nem toda poça tem lama
nem todo chão nasce flor

o inferno aqui é sombrio
o céu daqui é o terror
o fogo daqui é pavio
e tudo aqui é um bolor

sacharuk


deslizam lentos

deslizam lentos

deslizam lentos
os dedos
a boca
o queixo
a cabeça
a face
o tato
o nariz

deslizam lentos
a nuca
os cabelos
os fios

a mão espalmada
que puxa
assim, de leve
para não assustar

lentos
a língua
o nariz
deslizam
as bochechas
o lado
o outro

os recônditos
os dentes
a gengiva
o céu

as mãos
os  braços
os espaços
deslizam lentos

as pálpebras
os lábios
a linha
o desenho…
a umidade
o entorno
as dunas
a volta
o vale

lentos deslizam
os  olhos
que encantados
suplicam sentir

sacharuk


arrisco dizer

arrisco dizer


talvez eu queira
minha amiga
apenas te ver
perder o medo

arrisco dizer
o que não sei
eu deixo acontecer
e eu sei
o que queres da noite
e amanha sei o que farás
eu deixo acontecer

e eu quero
fazer amor essa noite
depois ver o sol nascer
eu deixo acontecer

tu perdes o ar
minha amiga
eu perco a calma
e deixo acontecer

eu sempre volto
tu queres me envolver
e tu deixas acontecer

e eu sei
o que queres da noite
e amanha sei o que farás
eu deixo acontecer

e eu quero
fazer amor essa noite
depois ver o sol nascer
eu deixo acontecer

sacharuk

desígnio

desígnio

não me importo
com o quanto falas
mas sim com o que
ou o porquê

esboço teus encantos
quando desenhas sorrisos
versos imersos no pranto

mas tu és suave, menina
pensar poesia é tua sina
teu desígnio de anjo

sacharuk