não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças,nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.

sacharuk escreve em inspiraturas.org

pela palavra

Pela Palavra 

É somente o uso da palavra que garante um pequeno grau de distinção entre as pessoas e os outros bichos. 

Quanto a mim, a timidez me confinou à eterna tentativa de domar meus instintos, enquanto Aristóteles assombrava com aquela ideia de animal político. E eu não encontrava tanta politicidade em minha animalidade.

Ainda questiono minha capacidade de integrar uma sociedade e constituir um Estado. É a palavra o único acesso que tenho ao mundo das pessoas... Por ela sou facilmente influenciado e posso tentar influenciar. É ela que me faz distinguir o meu bem do meu mal e disfarçar a imoralidade. Modelo o pensamento seguindo signos confusos que gritam no meu cérebro. Mas, o mais significativo, é que pela palavra invento alcunhas aos meus sentimentos e valores (quais?), e assim, faço uma bruta distinção entre as coisas e selo suas diferenças. Todos precisam de rótulos para ser animal político. 

Fico aqui, navegando no mesmo barco que Rousseau: não sei se preciso pensar para encontrar as palavras ou encontrar as palavras para pensar. Tudo no meu mundo é tão abstrato que só toma forma quando eu falo, quando escrevo... e se não falo ou escrevo, me escondo. 

Penso que toda essa complexidade se sintetiza num ser vivente, do tipo social, revestido da textura material das palavras e, invariavelmente, mal compreendido. Como escreveu Lispector: "Inútil querer me classificar... eu simplesmente escapulo... gênero não me pega mais..." 

Toda linguagem não dá conta dessa abstração. A brincadeira com os clichês me conduz ao entendimento dos rótulos. E na minha poesia, ingênua e simples, eu posso alcançar alguma catarse. E com ela ainda permito a expressão da animalidade. E nem gênero, espécie ou Aristóteles me pegam mais. 

sacharuk

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