Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

dasdores

Tela: Marc Chagall


dasdores

não perderei a vida
para as dores
círco dos horrores 
precipício
desfile de vícios 
multicores
ausentes olhos 
da modelo magricela

não vou assistir 
da janela
ser outro pateta 
que peida flores
com tv a cores 
feito cela
projetar na tela 
meu hospício

não vou me prostar 
no desserviço
a passos falsos
pelas tabelas
botar fogo nas velas 
contra enguiços
girar a esfera 
dos estupores

não ficarei aqui 
florindo flores
em versos infratores 
estilísticos
inversos anticristos 
pecadores
a língua sem pudores 
das balelas

não vou ver sequer
cair a espinhela
desplugada das válvulas
e sensores
das cinzentas cores 
dos suplícios

não morrerei omisso
hoje eu só quero 
morrer de amores

sacharuk