Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Vermelho

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Vermelho

Meu último gole no chá de flores na cantina do mercado público e consultei em vão o relógio do smartphone. Bastou perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorecia. Só isso me interessou no momento. Os afazeres estavam esgotados.

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio à multidão. Aguardei a melhor oportunidade para cruzar a rua. É sempre assim! A espera, bem acomodada no cotidiano, já não cansa mais, e dizem: o seguro morreu de velho.

Seu Ademir, da padaria, ergueu o corpanzil por detrás do balcão frigorífico e me passou o pacote de pães, mas não perdeu de vista a senhora baixinha que saía do estabelecimento em direção a banca 26. O padeiro bradou: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar.

Aquelas palavras portaram uma estranha certeza. As coisas seriam novamente como planejadas, Assim como foi ontem e durante a semana inteira. E, mais uma vez, Dona Edith acenou com a cabeça ostentando um sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante.

─ É excelente senhora essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Disse o homem com simpatia bem adestrada.

Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas dali são livres de química agressiva, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arte e os apelos do marketing. Por fim, de certa forma é tudo ignorado no mercado tão visualmente poluído. 

Dona Edith escolheu maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisou cada uma antes de encaixá-las pacientemente nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas eram suas preferidas. Também dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escutou pacientemente a velhinha enquanto catava vistosas peras importadas fragilmente empilhadas no compartimento vizinho ao das maçãs.   

Sempre que os administradores do mercado acendem as grandes lâmpadas brancas, religiosamente às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas passam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas eram muito vermelhas.

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, toco a vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos longe de minha velha e, ainda, meu pai teve a desfaçatez de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez tivesse a intenção de não me ver andar, afinal, coisas que se movimentam sempre causam algum incômodo.

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste no discurso duvidoso sobre reciclagem profissional.  Enquanto acomodava peras, metabolizou as lamentações de Dona Edith sobre Pedro e sobre ossos descalcificados. Deixou evidente no semblante o cansaço e a falta de paciência. Em breve esse pobre vai, como todos os outros, padecer nas garras da previdência social.

A velha deslumbrada com a rara oportunidade de integração social encheu o cesto de maçãs. Um exagero. Ficou pesado e vermelho... bem vermelho. Queixou-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido ajuda. Hoje não se confia em mais ninguém e isso me constrange e intimida.

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro, disse Edith.

Ela abraçou aquele cesto de plástico como quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Percebi seus olhinhos marejados por ocasião do esforço ou, quiçá, devido a algumas das palavras amargas que tenham saltado da boca do meu colega Flávio e a tenham deprimido. Discursar sobre as lembranças distantes nem sempre consiste em boa ideia. Não é sequer assunto inteligente ou produtivo. Não entendo a razão dos velhos que perdem tanto tempo com isso. Depois, eis o resultado: tristeza, olhos marejados e vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. Elas só existem no pensamento de algumas pessoas. Há gente nesse mundo que respira ares passados. O curioso é que sobrevivem batendo braços no mar das lembranças. 

A velha de fisionomia enigmática tateou nervosamente a niqueleira lilás e espalhou um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. Notei a menina ensaiando uma caricatura pintada com um sorriso amarelo enquanto contava as malditas moedinhas. Mas, não pude deixar de notar que Dona Edith abusou de uma educação admirável, como um senso de urbanidade abandonado pelos mais jovens. Não deu margem a nenhum conflito. Tomou para si a bolsa de plástico com suas frutas acondicionadas e despediu-se da moça, gentil e elegantemente, sem tomar conhecimento de qualquer inconveniente que possa ter causado. O dinheiro tem suas peculiaridades. É por seu valor que existem as guerras. Por isso devem-se contar as moedas sem esquecer que o cliente tem sempre razão. Aprendi no curso o que a menina aprendeu no cotidiano do mercado. Emprego não está fácil de conseguir. 

A velha valeu-se de ambas as mãos e juntou a bolsa de maçãs ao seu peito e, com as pernas curtinhas e sobrecarregadas, desceu a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, em frente aos portões do mercado. Era hora do rush e, como acontece todos os dias, ao fim da jornada de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas, ciclovias e rodovias.

Tudo aconteceu tão rapidamente. A bolsa de plástico fino, com uma logomarca gigantesca impressa em cores gritantes, não suportou o peso das maçãs e rompeu-se. Ocorre sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente e somente sobram as consequências para contar as histórias. 

Fiquei desorientado diante de tanta confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e o som ensurdecedor. 

E toda aquela gente com pressa? Todos os dias a história se repete: quando chegamos ao nosso destino só encontramos as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. São resquícios de um rio que já era. O grego tinha razão.

Uma maçã, apenas uma maçã... a única que despencou caprichosamente pelas escadarias, machucada, alcançou o tráfego e rolou tal uma bola, quicando um degrau por vez até cessar seu curso junto aos meus sapatos pretos de camurça. Olhei em volta e sequer cogitei recolhê-la. A sobra.

Desde então, a lua não se escondeu mais de mim e fez as minhas noites mais longas, depois de esgotados os afazeres.

sacharuk

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Capuchinho

Elias-Chatzoudis Capuchinho rubro era o seu pecado tingido na vã inocência passeava só sem licença com docinhos confeitados...