Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

três macaquinhos


foto: Dan R. Dick
três macaquinhos

não vês
as marcas do escarcéu
condenas ateu e incréu
não, tu não vês
                   nem eu

e nunca sabes
quando fudeu
entregas tudo a deus
que também nada sabe
muito menos
                  eu

e tu que não ouves
os sussurros no bordel
os argumentos do réu
não, tu não ouves
                     tal eu

daí não entendes
o que aconteceu
no inferno e no céu
que nunca se entendem
menos ainda
                 eu

e tu que não falas
nunca foste a Babel
em pleno apogeu
não, tu não falas
          sequer falo eu

sacharuk