Wasil Sacharuk - notas
rascunhos e conotatividades
30/01/2012
Poema inacabado
Passei acolherando as vidas
na aquerenciada clausura
dessa vasta invernada
já nem espero mais nada
desse loscanha estanciero
estive encantado na lábia
que discursa o forneiro
aquele rasgo estridente
que rompe a sesmaria
em pedido de calmaria
vou abrir cancha ao meu filho
para alimentar o velho tordilho
para que o pingo ganhe asas
troteie a voar pelas casas
a lida é muito dura
já passou tanto janeiro
e continua abichornado
meio preso nos arreios
e que corra haragano
faça o destino orelhano
tal e qual meu menino
que se vá a la cria
viva do campo a poesia
para pular aramado
e não ser estropiado
decerto chega o dia
em que vou viver de razão
para perder a poesia
então deixo versos sulinos
que canto como se fossem hino
nos piquetes do meu rincão.
Wasil Sacharuk
28/01/2012
poema inacabado
Vejo tudo de soslaio
oculto entre as verbenas
seus olhares estranhos
ora risonhos
ora tristonhos
por isso que eu traio
as parcas certezas
conviver é o ensaio
de cortesias e delicadezas
entre hipocrisia tamanha
ora artimanha
ora inocência
minhas ignorâncias
eu nem percebo
vejo tudo tão placebo
efêmeras cantilenas
paixões tão amenas
morrendo no vício
de múltipla falência
esparramo reticências
do que eu tenha
a ver com isso
cansei dos artifícios
photoshopadas belezas
sobre tecidos azedos
maquilando segredos
que não me dizem respeito
eu vivo do meu jeito
e ocupo minha vaga
a deslizar os dedos
sobre as chagas
dos meus próprios medos.
Wasil Sacharuk
03/01/2012
Vale-transporte, um sonho
Vale-transporte, um sonho
Eu havia de ir ao trabalho. Provavelmente seria hoje mais um dia comum, pois ontem à noite nenhum sinal se evidenciou. Nada inusitado. Apenas uma noite como a maioria das outras.
No banho, fito os meus olhos cerrados sob a chuveirada quente. A água desce cascatas diluindo creme condicionador. A sonolência não me permite total autoconsciência, no entanto, percebo com clareza a presença do observador, afinal, somos o mesmo. Em seguida, eu me vejo calçando o tênis e ressonando sentado no velho sofá.
Eu sou uma sombra parasita que rouba considerável parte da disposição, mas sem invadir minha privacidade.
Tudo acontece muito lentamente. Como uma cadeia de pequenos eventos marcados por movimentos tão pesados de vida torpe conduzidos pelo piloto automático dos estímulos e reações.
E, depois de vestido, me encaminho junto ao outro até o ponto do ônibus. O veículo não demora a surgir e parar para nosso embarque.
Daí, agora quase desperto, sou o único a testemunhar o próximo ato:
Da minha carteira retiro uma passagem e a estendo ao cobrador. Esse, testa franzida, examina a pequena tira de papel enquanto afirma que se trata de passagem vencida, há três anos, em outubro. O dia em que a utilizei pela última vez.
A última lembrança é do meu semblante chocado. Olhos vidrados de incredulidade.
Wasil Sacharuk
DESCONSTRUÇÃO de "Vale-transporte, um sonho"
DESCONSTRUÇÃO de "Vale-transporte, um sonho"
Vale-transporte, um sonho
Eu havia de ir ao trabalho. Provavelmente seria hoje mais um dia comum, pois ontem à noite nenhum sinal se evidenciou. Nada inusitado. Apenas uma noite como a maioria das outras.
No banho, fito os meus olhos cerrados sob a chuveirada quente. A água desce cascatas diluindo creme condicionador. A sonolência não me permite total autoconsciência, no entanto, percebo com clareza a presença do observador, afinal, somos o mesmo. Em seguida, eu me vejo calçando o tênis e ressonando sentado no velho sofá.
Eu sou uma sombra parasita que rouba considerável parte da disposição, mas sem invadir minha privacidade.
Tudo acontece muito lentamente. Como uma cadeia de pequenos eventos marcados por movimentos tão pesados de vida torpe conduzidos pelo piloto automático dos estímulos e reações.
E, depois de vestido, me encaminho junto ao outro até o ponto do ônibus. O veículo não demora a surgir e parar para nosso embarque.
Daí, agora quase desperto, sou o único a testemunhar o próximo ato:
Da minha carteira retiro uma passagem e a estendo ao cobrador. Esse, testa franzida, examina a pequena tira de papel enquanto afirma que se trata de passagem vencida, há três anos, em outubro. O dia em que a utilizei pela última vez.
A última lembrança é do meu semblante chocado. Olhos vidrados de incredulidade.
Wasil Sacharuk
“Vale-transporte, um sonho” é, realmente, o relato de um sonho.
Foi escrito tanto improvisado com a finalidade simples de relatar o sonho à escritora Suzana Rabelo. Logo, inicialmente não havia pretensão de ganhar estatuto literário. No entanto, a ideia foi irresistível.
Há um conteúdo híbrido de cunho existencialista, onírico e profético.
Alguns comentários no Bar do Escritor:
David
É um eu que é um outro. Um alguém que se vê distante e que no entanto é o próprio.
Bela crônica recheada de metafísica existencial, Wasil.
Parabéns.
José
é meu sonho também, cara!
Passagem tem validade, brother! E
E, aí, quem pagou tua passagem?
És um escriba de ponta!
Véio China Ψ
é.
BÃO dimais da conta sô Shazaruk.
Devias escrever mais.
Não esquecr das 10 linhas, nãop. Mas...escrever mais.
levas um jeito danado!!!
Tasso
Mudou o estilo da escrita nesse Wasil!!!
Mas mantém a profundidade das idéias!
As coisas do Sacha mordem agente se não lemos com calma! Tudo remete a significados mais obscuros e tardios!
Sempre bom!
É foda quando vc trbalha um dia inteiro, a maior correria, mata um leão por minuto (e salva outros dois), chega em casa e descobre que o longo dia de trabalho não passou de um sonho! Isso sim é mais valia!
Bonzão, Sacharuck!
**GIB@**
É dos bão seu Shazaruk.
Tem um pouco de dupla personalidade e esquizofrenia de boa cepa. Gostado.
Junim
Wasil
um bom poeta
nesse Brasil
JULENI ANDRADE
Proseando...
liricamente!
Frank
NOSSA! muito doido!
Bonzãozão!!!
Decimar Biagini
São poucos os textos em que paro para ler como se fosse um operário frente a frente com um prato de comida... Nossa, quanta coisa boa, detalhes sordidamente jogados para dar impacto, uma rotina incrível cuja sensibilidade poética é notória.
ANA
Eu sou uma sombra parasita que rouba considerável parte da disposição, mas sem invadir minha privacidade.
Tudo acontece muito lentamente. Como uma cadeia de pequenos eventos marcados por movimentos tão pesados de vida torpe conduzidos pelo piloto automático dos estímulos e reações.
Sua sensibilidade é um presente.
JULENI ANDRADE
O pouco que dormi, sonhei que estava numa parada de ônibus e apareceu um trem. Rsrsrsrsrs...
Acho que foi efeito dos textos que li antes de dormir.
Fernando A.
Cara... tu é bom! Mas achei a tua condução aqui um pouco enfadonha. O texto é de crise existencial e mereceria uma condução mais dinâmica e com menos lirismo poético, mas legaus... isso é só minha opinião e gosto pessoal. Abraços.
Decimar Biagini
Pensando bem no que o Fernando disse, fiquei pensando sobre o texto e acho que no meio dele faltou algo, talvez uma explicação do porquê de o cara esquecer o bilhete tanto tempo, talvez falar que o cara estava retornando do INSS em razão de uma prorrogação negada, daí tu esboça a desídia do médico perito, o calvário do cara na espera de nova perícia, daí depois, tipo o cara fica três meses sem receber o benefício, vem negado, ele volta ao trabalho, e para completar a passagem expirou o prazo...
Em resumo, acho que o Fernando tem um pouco de razão, tu foi um pouco ansioso nesta jogada. (rssssss) Crítica é questão de foco, basta procurar que acha alguma coisa...
Allan
Acho a ideia ótima.
Mas a execução decididamente não fez minha cabeça.
Jota Ponto
o momento da leitura define a sua apreensão
não estou num momento bom, mas me agrada vê-lo prosear
Leonardo - Spoke
o velho vale de papel...
ah, hoje em dia nem todos os ônibus têm cobrador... pobre cobrador, perdeu o emprego por uma maquininha da vida...
Michelle Portugal
Sonhos também perdem o prazo de validade, não?
Pois eu gostei muito. Alguns textos são cansativos demais. O seu, não por ser curto, mas pela forma como foi conduzido, está ótimo!
Gutemberg
Que viagem!
No mais, assino o que a Michelle escreveu aí em cima
Calaça
Scharuk filosofou...
sim a lei da mais valia está aqui.
o tempo do trabalhador já deveria ser pago
no momento em que o trabalhador se dirigi ao seu trabalho, talves assim não houvessem
passagens vencidas...
mandou bem no texto Sacharuk!
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Sobre os comentários:
É possível perceber, a partir de uma leitura dos comentários, que essa crônica oferece um leque de possibilidades interpretativas, como acontece em qualquer conteúdo onírico.
O conflito das interpretações assumiu um caráter de competição: cada tipo de interpretação buscava afirmar-se em detrimento dos demais. Cada modalidade interpretativa se preparava para demonstrar sua importância, ou seja, a profundidade e a amplitude dos seus insights e o seu alcance. Entretanto, o que tal conflito despertou foi a consciência das limitações inerentes a todos os pressupostos, ficando clara a aplicação restrita dos mesmos às tarefas que se destinavam a cumprir. À proporção que aumentava a consciência dessas limitações, os discursos conflitantes tendiam cada vez mais a apropriar-se uns dos outros. Desde então, tal processo se tornou generalizado; e o que se observa hoje é uma canibalização mútua entre marxismo, psicanálise, estruturalismo, pós-estruturalismo, etc. O processo todo visa a compensar as óbvias deficiências inerentes a cada uma das perspectivas; e o resultado dessa canibalização recíproca é um amálgama de discursos interpretativos que Jacques Derrida caracterizou assim: “Não é difícil imaginar que tipos de monstro tais operações combinatórias necessariamente geram, bastando lembrar o fato de que teorias incorporam teoremas opostos, os quais, por sua vez, já incorporavam outros”.
(Wolfgang Iser )
A desconstrução de conceitos da hermenêutica se encontra latente em sua própria reflexão, devido às aporias que fundamentam seu discurso enquanto instituição. A questão central que subjaz esse discurso é a interpretação do axioma de Heidegger: “o metafórico só existe no interior da metafísica”. Tal axioma desafia a fundação da diferença que Aristóteles procurou preservar nos domínios da filosofia e da literatura. Com isto, a diferença não é a do tipo um grau a mais, é uma manifestação baseada na lógica do “nem/nem” oposta a do “isto ou aquilo”. Nesta instância, uma coisa difere da outra ao deferir de outra, cada uma pertencendo ao “mesmo” lugar. Com Heidegger, como sugerem Derrida e Ricoeur, somos convidados a permanecer num espaço do indecidível. A questão do indecidível desloca na hermenêutica a questão do significado: não há mais polissemia, mas sim disseminação que promovida pela escrita impossibilita a hermenêutica o resgate da verdade.
(Francisco de Fátima da Silva)
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Minhas perguntas:
1.A crônica deve ser reescrito com a finalidade de reduzir as possibilidades interpretativas?
2.O que deve ser reescrito?
3.Diga o que achou do texto?
“Vale-transporte, um sonho”, de Wasil Sacharuk, uma leitura de A.Yunes
“Vale-transporte, um sonho”, de Wasil Sacharuk, uma leitura de A.Yunes
Vale-transporte, um sonho
Eu havia de ir ao trabalho. Provavelmente seria hoje mais um dia comum, pois ontem à noite nenhum sinal se evidenciou. Nada inusitado. Apenas uma noite como a maioria das outras.
No primeiro parágrafo, o eu-lírico chama a atenção para a possível quebra na rotina quando enfatiza que tudo está exatamente como deveria. Um professor que admiro muito disse uma vez que nada deve ser escrito sem um bom motivo. Nenhum detalhe, nenhuma ação deve estar na narrativa se não for importante. Então, quando afirma que ‘nenhum sinal se evidenciou’ dá a deixa que ‘ainda’ nada se evidenciou, mas vai.
No banho, fito os meus olhos cerrados sob a chuveirada quente. A água desce cascatas diluindo creme condicionador. A sonolência não me permite total autoconsciência, no entanto, percebo com clareza a presença do observador, afinal, somos o mesmo. Em seguida, eu me vejo calçando o tênis e ressonando sentado no velho sofá.
No segundo parágrafo, as palavras ‘sonolência’ e ‘autoconsciência’ são a ponte para ativar a ideia do ‘eu’ e do ‘observador’. Confirmada com ‘um’ calçando os tênis; e o ‘outro’ ressonando no sofá.
Eu mexeria um pouquinho neste parágrafo (eu, viste?).
No banho, fito os meus olhos cerrados sob a chuveirada quente. A água desce em cascatas diluindo o creme condicionador. A sonolência não me permite total autoconsciência, no entanto, é clara a presença do observador, afinal somos o mesmo. Em seguida, eu me vejo calçando os tênis e ressonando sentado no velho sofá.
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Eu sou uma sombra parasita que rouba considerável parte da disposição, mas sem invadir minha privacidade.
Sensacional este parágrafo, o ‘eu’ invadindo a ‘minha’ privacidade, os ‘dois num jogo perfeito de palavras.
Tudo acontece muito lentamente. Como uma cadeia de pequenos eventos marcados por movimentos tão pesados de vida torpe conduzidos pelo piloto automático dos estímulos e reações.
Gosto especialmente deste parágrafo. A sensação da estática antes da tempestade. É uma pausa significativa antes do clímax do conto.
Eu mexeria neste também:
Tudo acontece muito lentamente. Como uma cadeia de pequenos eventos marcados por movimentos tão pesados de vida torpe que são conduzidos pelo piloto automático dos estímulos e das reações.
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E, depois de vestido, me encaminho junto ao outro até o ponto do ônibus. O veículo não demora a surgir e parar para nosso embarque.
A ação continua neste parágrafo. Ele e o outro marcados no ‘nosso embarque’.
Daí, agora quase desperto, sou o único a testemunhar o próximo ato:
Da minha carteira, retiro uma passagem e a estendo ao cobrador. Esse, testa franzida, examina a pequena tira de papel enquanto afirma que se trata de passagem vencida, há três anos, em outubro. O dia em que a utilizei pela última vez.
Agora tudo realmente fica claro: ‘o dia em que a utilizei pela última vez’.
A última lembrança é do meu semblante chocado. Olhos vidrados de incredulidade.
Wasil Sacharuk
Finalmente, se dá a separação de ambos, e a consciência de que não há nenhum. O fechamento é muito bom. Parabéns pela obra, Wasil,
Perguntas do autor:
1. A crônica deve ser reescrita com a finalidade de reduzir as possibilidades interpretativas?
Não. Na minha opinião, um texto bom é aquele com mais de uma interpretação. Depois de escrito, o significado que tem para o autor deixa de ser relevante, o importante é o do leitor. Não vejo como correto impingir uma significação quando o que mais importa é a forma como o público irá sentir, ver, entender a mensagem. Então, direcionar a apenas uma leitura é torná-lo pobre, medíocre.
2. O que deve ser reescrito?
As recomendações que aparecem na leitura são para deixar teu texto mais prosa que poética, enquanto prosa poética ele ficou perfeito, bem o sabes. Todavia, acredito que ele fica mais intenso como prosa. Eu prefiro.
3. Diga o que achou do texto?
Sabes, Wasil, que sou fã dos teus versos, mas sabes também o que penso a respeito da tua prosa (seja ela poética ou não), acho que a força que tem a tua narrativa é ímpar. Neste conto, em especial, o que mais gostei foi o encadeamento das ações, bem marcado em cada momento. É o que vai prendendo a atenção do leitor, que vai indicando (não obrigando) o caminho da leitura. Gostei muito da criatividade com que foi escrito.
Tenho um sonho, que vais, um dia, levar mais a sério este lado. Vou aguardar.
A.Yunes
Super Sacha, por Juleni Andrade
SUPER SACHA
Navega por entre os egos
Pelas brumas, ondas e luas.
Desbrava florestas de sons.
Laça palavras e lavra versos,
num espaço que expande...
rasgando verbos e estilos.
Assim, magicamente, sente
Que as letras dançam ao som
Do seu magistral chamado.
Cria sorrisos, lágrimas, fadas...
Abriga sarcasmo, alegria.
Engenha ataque e defesa... destrezas
sem fim.
JULENI ANDRADE
UM SONETO COM O POETA SACHA, por Decimar Biagini
UM SONETO COM O POETA SACHA
Sacha veio de um tempo
Em que as estrelas desciam do firmamento
Onde parava-se o vento
Com a força do mais filosófico pensamento
Parceriar com Sacharuk
É como retratar um fim de tarde
É duelo de "gran" mamute
É pisar no chão em alarde
O poeta em sua brilhante companhia
Torna-se herói sem glória
A preencher com letras a vida vazia
A fazer nos versos sua história
No entrelaçar de um soneto
Como se fosse o último dueto
Decimar Biagini
Homenagem ao Poeta-Artista-Mago-Professor-Músico Wasil Sacharuk
COMENTANDO ENVERGADURA MORAL DE WASIL, por Decimar Biagini
COMENTANDO ENVERGADURA MORAL DE WASIL
De uma perspectiva filosófica diria que fundou uma nova ideologia.
A noção da envergadura moral é central no pensamento platônico, associada com a Ética a Nicômaco (grande obra de Aristóteles), é impossivel ler tua poesia sem que se agregue a mesma concepção da racionalidade prática associada as reflexões da teoria evolutiva humana sem que se contradiga em uma misantropia (que é a aversão ao próprio homem). Em resumo, embora eu ateste para os devidos fins que tenho religião, teu estilo agnóstico envolve uma mística cujo jeito Sacharukiano de ser é tão venerado ao ponto de dizer que leio-te, porque afinal de contas, tens envergadura moral, conquistada ao longo de tua trajetória da janela virtual
Impossível não confundir autor e obra, quando tudo que escreves é no mínimo "original", essência poética que te escolheu, não fostes tu que escolheste a poesia, mas a poesia quem te escolheu.
Decimar Biagini
Carta ao Wasil, por Decimar Biagini
CARTA AO WASIL
Ao Ilmo. amigo,
Wasil Sacharuk (Vulgo Mago das Letras).
Eu sei que nunca buscastes a glória, porém quantas vezes nessa vida de poeta fizestes este humilde leitor amigo amanhecer rondando os borralhos de tua incendiária escrita, volvendo as cinzas daquilo que hoje chamo de tua emergente história literária.
Tu que amparas o minuano em tua nobre casa eivada de anjos e uma musa capaz de cingir as melhores malhas em parcerias literárias já deves ter me dado a honra de uns sessenta ou setenta poemas em parceria, sem contar as vezes que um simples comentário teu me levou ao parnaso em busca de uma nova massagem ao ego.
Revendo nossos galpões literários, velhas estampas sob a égide da poesia contemporânea virtual, testamos a pele em uma roupagem da tela azul, ungidos de verdes boqueirões que aproximaram a terra de Érico Veríssimo à Princesinha do Sul.
Cada vez que observo em minha estante aquela longa crina com fuça de maluco em tuas inspiraturas, fico pensando no quão honrado sou, ao ter um amigo que vi nascer poeta e que negava tal classificação quando fazia lindos acrósticos na comuna Fernando Pessoa. Melhor ainda poder contar com um cartão postal tão lindo da poetisa Dhenova que enviava tão mimo como lenitivo ao esquecimento do descuidado amigo que enviava uma primeira edição de seu livro sem uma dedicatória.
Por isso que cada vez que chega um domingo, tento deixar ao menos uma lembrança altaneira, das galopeadas que dávamos cortando horizontes na poesia gaúcha, pois a solita campeirada não traz ronda secular no estado atual da literatura, muito menos mantém viva a chama da amizade entre poetas que não deixam os sonhos virarem taperas.
Nessa tarde que morreu a quietude me assombrou, parece mesmo que a terra emudeceu em meu rancho, pois no retorno do carnaval na capital fluminense, vi o quanto me faz falta o carinho de amigos que conquistei pelas letras da telinha azul, dentre eles, tu, que me ensinou que uma junta de boi ara melhor as letras do que um pastor insolente.
Que esta singela carta, possa trazer nessa tua alma teatina um incentivo para uma resposta, e se acaso entenderes como cabresto tal provocação, traga simplesmente o sorver de um mate, pois, nesta sina de índio vago e filosófico até o teu silêncio terá voz.
Cruz Alta - RS, segundo domingo de março - 2011.
Decimar Biagini
SACHARUK - UM VIVENTE BAGUAL, por Decimar Biagini
SACHARUK - UM VIVENTE BAGUAL
Conheci um lobisomem
Meio poeta meio artista
Meio pai meio homem
Meio ateu meio humanista
Meio bruxo meio pessimista
Meio louco meio mago
Com poemas a perder de vista
Meio pouco meio sábio
Meio tudo meio anarquista
Meio ogro meio violinista
Meio mudo meio otimista
Meio lodo meio perfeccionista
Meio lúdico meio contista
Meio púdico meio sonetista
Meio sádico meio masoquista
Mas acima de tudo
Um completo amigo
Então eu o ajudo
A matear consigo
Enquanto ele lê meus versos
Em homenagem ao seu aniversário
Queria dizer que sou meio otário
Pois deixei passar um dia para meus manifestos
Parabéns Wasil Sacharuk
Decimar Biagini 05/11/2009
